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Estudo revela que pesca, turismo e navios concentram mais de 86% do impacto humano no mar dos Açores

A primeira Avaliação Integrada de Ecossistemas alguma vez feita para a Zona Económica Exclusiva dos Açores conclui que três atividades como a pesca, o turismo/recreio e o transporte marítimo são responsáveis por mais de 86% do risco de impacto cumulativo sobre o oceano açoriano, apesar de a zona costeira representar menos de 1% de uma ZEE que se aproxima de 1 milhão de quilómetros quadrados.
O estudo, assinado por Inês Gomes, Diana Serrano, Christopher Pham e Pedro Afonso, investigadores do OKEANOS, analisa 12 setores económicos, 16 tipos de pressão humana e 28 componentes ecológicos em toda a ZEE, entre 33º e 43º Norte e 20º e 35º Oeste. A avaliação, baseada na metodologia internacional ODEMM, combina revisão exaustiva de literatura, consulta a painéis de especialistas e participação de partes interessadas para construir 671 “cadeias de impacto” que ligam atividades humanas a espécies e habitats marinhos.
A pesca surge destacada como o setor de maior risco, ligada a oito tipos de pressão que afetam todos os 28 componentes ecológicos analisados. Logo a seguir aparecem turismo/recreação e navegação, ambos com ligações a praticamente todos os habitats e espécies, o que explica o peso conjunto superior a 86% no risco total. A investigação científica, embora não esteja no topo da tabela, assume-se já como um setor secundário relevante, pelo aumento de campanhas de mapeamento e amostragem em águas costeiras e profundas.
Quando se olha para as pressões, a extração de espécies (captura dirigida) é responsável por quase 35% do risco total, seguindo-se a captura acidental, com cerca de 25%. Somadas a estas duas, mais três pressões: contaminantes químicos, espécies invasoras e lixo marinho que concentram, sozinhas, 95% de todo o risco de impacto identificado para o ambiente marinho açoriano.
O trabalho evidencia também um forte desequilíbrio espacial: embora os ecossistemas costeiros ocupem menos de 1% da ZEE, suportam mais de 50% do risco de impacto total. São sobretudo afetados os peixes demersais e pelágicos costeiros, os elasmobrânquios (tubarões e raias) de zonas rasas e os habitats rochosos e recifais litorais. Em alto-mar, os maiores riscos concentram-se em peixes demersais associados a montes submarinos, espécies de águas profundas e grandes montes submarinos, enquanto entre as espécies altamente móveis se destacam elasmobrânquios pelágicos, aves e tartarugas marinhas.
Metade das cadeias de impacto tem pressões de curta duração, mas apenas 6% envolvem componentes ecológicos com recuperação rápida (até dois anos). Em contraste, 60% das cadeias referem-se a espécies ou habitats com tempos de recuperação estimados entre dois e dez anos e 34% a componentes que podem demorar mais de uma década a regressar ao estado anterior. As espécies de topo como atuns, tubarões, raias, mamíferos marinhos e tartarugas e os ecossistemas profundos, com espécies de crescimento lento e baixa fecundidade, surgem entre os mais sensíveis.
Os autores alertam, contudo, para lacunas importantes de conhecimento. Cerca de 50% das cadeias de impacto foram avaliadas com base em dados globais por falta de informação específica para os Açores; apenas 17% assenta em programas de monitorização regionais e 33% em estudos científicos realizados na região, enquanto 12% se apoia sobretudo em conhecimento especializado não publicado.
O artigo destaca, ainda assim, o papel de vários programas de longo prazo desde o acompanhamento de habitats costeiros e das pescarias comerciais aos programas POPA, COSTA, monitorização de lixo marinho da OSPAR e campanha SOS Cagarro que fornecem dados cruciais para o arquipélago.
No plano das políticas públicas, a Avaliação Integrada cruza os resultados com os descritores de pressão da Diretiva-Quadro Estratégia Marinha. O descritor relativo a espécies não indígenas, é identificado como aquele com maior risco de impedir o alcance do Bom Estado Ambiental, devido à combinação de elevada persistência das invasões biológicas e forte sensibilidade dos habitats costeiros e recifais. Em seguida surge o lixo marinho, com elevada sobreposição espacial, frequência e persistência no tempo. Stocks comerciais de peixe e contaminantes apresentam também risco considerável, enquanto energia/ruído subaquático, integridade do fundo, eutrofização e condições hidrográficas aparecem com risco mais moderado, mas muitas vezes suportados apenas por dados globais.
O estudo conclui que o arquipélago, embora remoto no meio do Atlântico, “não está isolado” das múltiplas pressões globais e locais. E deixa um aviso aos decisores regionais: o crescimento do turismo, a intensificação da pesca, o aumento do tráfego marítimo e eventuais novas indústrias ligadas à economia azul só serão compatíveis com a conservação da biodiversidade açoriana se forem acompanhados por uma gestão verdadeiramente baseada em ecossistemas, reforço da monitorização científica e planeamento integrado de usos do mar em toda a ZEE.

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