A Câmara do Comércio e Indústria de Ponta Delgada (CCIPD) assinalou 190 anos de existência. Que balanço faz do percurso quase bicentenário e que momentos considera estruturantes para a afirmação dos empresários de São Miguel e Santa Maria?
A Câmara de Comércio e Indústria de Ponta Delgada é uma das mais antigas associações empresariais do país. A sua criação, em 1835, assentou no espírito empreendedor, no associativismo e na determinação dos primeiros comerciantes e industriais que decidiram organizar-se para defender o interesse económico colectivo em tempos de grandes incertezas. Foi assim na Monarquia, na República, no Estado Novo e também tem sido assim na Autonomia Regional.
Ao longo do século XIX, a nossa instituição acompanhou – e influenciou – o desenvolvimento das ilhas. Viveu as oscilações dos ciclos económicos, do trigo ao pastel, da laranja ao álcool, enfrentou adversidades impostas por decisões externas e soube, sempre, defender o que era justo para a nossa economia insular.
Desde cedo a Associação Comercial, como então se chamava, assumiu a missão de intervir junto das instâncias políticas nacionais, orientada por aquilo que os fundadores descreviam como “o mesmo amor à terra e o mesmo espírito de serviço”. Essa matriz inicial permanece viva quase dois séculos depois.
Durante o século XX, a nossa acção consolidou-se num contexto de profundas mudanças sociais e políticas. Fomos palco do debate sobre infra-estruturas essenciais, como os transportes marítimos e as comunicações; discutimos com rigor o impacto económico dos programas governamentais; e assumimos uma posição crítica sempre que o excesso de intervenção estatal ameaçava a iniciativa privada.
A defesa da lavoura, a necessidade de investimento portuário, a urgência de carreiras marítimas regulares ou a promoção inicial do turismo são apenas alguns exemplos da persistência com que esta instituição procurou soluções para as ilhas, muito antes de tais temas integrarem a agenda política nacional.
Com a chegada da Autonomia, a nossa acção ganhou ainda maior relevância. Desde os primeiros prospectos de promoção turística, em 1976, ao combate ao monopólio aéreo da época e à luta pela liberalização do tráfego, a Câmara mostrou capacidade de visão e de iniciativa. Recordamos, a título emblemático, a batalha pelo actual aeroporto internacional de São Miguel, para a qual contribuímos até com a vinda de especialistas internacionais para a sua concretização.
Nos anos 80 e 90, defendemos reformas estruturais, a desburocratização, a modernização da economia regional e a criação de uma verdadeira economia de mercado. Estivemos envolvidos nos debates sobre a introdução do IVA, a adesão de Portugal às Comunidades Europeias, a criação da Zona Franca Industrial de Santa Maria, a transição para o Euro e a definição do enquadramento económico-fiscal das Regiões Autónomas.
Até a famigerada Lei das Finanças das Regiões Autónomas foi, segundo os registos históricos apurados, pela primeira vez pensada no âmbito das Câmaras do Comércio dos Açores e do Funchal. Até nesta relevante pasta, coube-nos o papel de diligenciar a diversos níveis para a concretização de um regime que contemplasse medidas económicas e fiscais adequadas à nossa realidade insular e ultraperiférica.
Já no século XXI, a Câmara de Comércio e Indústria de Ponta Delgada voltou a demonstrar a sua relevância em momentos decisivos. A liberalização do espaço aéreo, que marcou de forma disruptiva o desenvolvimento do turismo e da mobilidade na região, teve nesta instituição uma voz firme e persistente.
Fomos também uma âncora de apoio e orientação durante a crise económico financeira de 2008–2013 e, mais recentemente, na crise pandémica provocada pela COVID 19. Em todos esses momentos, estivemos ao lado das empresas, defendendo medidas ajustadas, realistas e capazes de preservar o emprego e a actividade económica.
Quando olha para a realidade económica actual das ilhas de São Miguel e Santa Maria, quais são, hoje, as três principais preocupações que os empresários mais lhe transmitem?
Chegados aos 190 anos, constatamos que muitos dos desafios que enfrentamos não são novos. Mas a determinação com que os combatemos é, e será sempre, a mesma. Continuamos a lidar com um modelo de transporte marítimo desactualizado e oneroso para as empresas e para os açorianos; com pagamentos em atraso do Governo que fragilizam a tesouraria das organizações; onde agora se adicionam problemas crescentes de segurança que afectam toda a sociedade.
A partir da nossa experiência histórica e dos desafios actuais, afirmamos três prioridades estratégicas que devem orientar a acção pública e privada nos próximos anos:
Acessibilidades e transportes – Sem ligações eficientes, nenhuma economia insular é competitiva. Os Açores precisam de um sistema moderno, previsível e ajustado à nossa realidade.
Sustentabilidade financeira e responsabilidade pública – O pagamento atempado às empresas e o respeito pelos compromissos do Estado são condições básicas para a confiança e o investimento.
E, por fim, a profissionalização e visão estratégica no turismo – A nossa maior alavanca económica exige consistência, conhecimento técnico, continuidade e investimento reforçado na promoção. Não é possível competir com improvisação e reacção em vez de um planeamento assertivo e alinhado.
O turismo é actualmente o principal motor da economia açoriana. Os empresários do sector sentem que este crescimento está a traduzir-se em maior rentabilidade e estabilidade, ou permanece uma actividade demasiado sazonal e vulnerável a decisões externas?
O sector do turismo é hoje sem dúvida o sector mais relevante da economia em termos de criação de riqueza e de efeito multiplicador na economia, mas é preciso lembrar que incorpora realidades distintas: não obstante o sector ter apresentado crescimentos nos números de dormidas e na receita gerada na área do alojamento – por exemplo na hotelaria tradicional, é imprescindível acompanhar outras áreas deste sector de actividade, nomeadamente a do alojamento local, a das rent-a-car e a da animação turística. O impacto em cada uma destas áreas é distinto e com consequências económicas e sociais distintas. Transversal a todas as áreas e de substancial importância é o aumento dos custos com pessoal, superior a qualquer indicador de proveotos.
Os Açores continuaram a registar, em geral, uma melhoria nos indicadores de desempenho, mas consideravelmente inferior à tendência nacional, com destaque para a taxa líquida de ocupação-quarto e para o RevPAR.
As dificuldades de contratação de recursos humanos são uma realidade transversal a empresas e sectores, representando uma preocupação constante. Torna-se, por isso, essencial encontrar mecanismos eficazes que permitam inverter esta tendência e apoiar as empresas na qualificação e desenvolvimento dos seus recursos humanos.
O aumento da competitividade do destino Açores passa pelo trabalho contínuo de qualificação da oferta turística, sem o qual a percepção de valor na visita/experiência vai-se deteriorar e prejudicar de forma irreversível a marca do destino.
O combate à sazonalidade é ainda uma preocupação premente e que integra algumas das questões apresentadas como é o caso das acessibilidades áreas, da promoção turística e da qualificação da oferta.
A saída de companhias aéreas low cost e a incerteza em torno das acessibilidades têm sido motivo de forte apreensão. Que impacto concreto antecipa para o comércio, a hotelaria e a restauração de São Miguel se não houver uma resposta rápida em termos de ligações aéreas?
Os impactos de uma eventual saída da Ryanair não se limitam ao sector turístico. O efeito cascata será brutal: hotelaria, restauração, comércio, rent-a-car, animação turística, eventos, serviços, agricultura, pesca, transportes, indústrias criativas — todos sentirão de forma dramática a quebra na procura. Centenas de empresas e milhares de trabalhadores verão a sua actividade directamente ameaçada.
Os Açores têm hoje uma oportunidade decisiva para travar a perda de conectividade e garantir um futuro sustentável para a economia regional. É urgente negociar com seriedade e visão com as transportadoras low cost que comprovadamente geram retornos imediatos e robustos para o arquipélago. Mas isso exige liderança, estratégia e capacidade de decisão — precisamente o que tem faltado. A CCIPD apela, por isso, a que o Governo dos Açores abandone a postura reactiva e assuma uma posição firme, estratégica e orientada para resultados, assegurando que os Açores permanecem integrados nas grandes rotas europeias de baixo custo e que não perdem a notoriedade internacional conquistada com tanto sacrifício.
Em paralelo, decorre o processo de privatização da Azores Airlines, do Grupo SATA. Que modelo de privatização considera mais adequado para salvaguardar o interesse dos empresários e das economias locais, e que “linhas vermelhas” a CCIPD entende que não podem ser ultrapassadas?
O processo de privatização da Azores Airlines está neste momento com o júri e com o Governo Regional. Cabe a estas entidades definirem as linhas vermelhas e não a nós. Queremos que seja um processo totalmente transparente para todos e necessitamos de acessibilidades. A incerteza quanto ao futuro da companhia em nada nos beneficia, bem pelo contrário. Tem afastado passageiros com medo do pior cenário. O que queremos é que se pense num plano de contingência para essa eventualidade.
A conectividade marítima de mercadorias tem sido um dossiê sensível para São Miguel. As recentes respostas dadas pelos operadores com reforço de navios tem solucionado os problemas que se faziam sentir?
A CCIPD entende que o actual modelo de transporte marítimo de mercadorias para os Açores não responde às necessidades reais da economia regional nem aos princípios de coesão territorial que devem orientar a actuação do Estado Português. O modelo assenta em Obrigações de Serviço Público sem qualquer compensação financeira aos operadores, o que conduz ao agravamento dos preços cobrados ao mercado. Na prática, cria-se uma taxa oculta suportada por consumidores e empresas, com impactos directos nos custos de vida e de produção.
O estudo técnico encomendado pelo Governo Regional confirma sobrecustos logísticos de cerca de 30%, que se reflectem no preço dos bens finais, das matérias-primas industriais e nos custos de exportação.
Um modelo com rotas expresso do continente para Ponta Delgada e Praia da Vitória e a distribuição posterior inter-ilhas é o cenário considerado pela CCIPD como mais eficaz e eficiente.
A Câmara do Comércio tem sido crítica em relação à falta de uma estratégia clara para as acessibilidades e promoção externa do destino Açores. O que é que, na sua perspectiva, está a falhar na articulação entre Governo Regional, municípios e associações empresariais?
No sector mais relevante da economia regional da actualidade – o turismo – enfrentamos hoje um risco real de retrocesso. O Governo Regional continua a falhar nas duas áreas em que tem responsabilidade directa e incontornável: garantir acessibilidades aéreas e assegurar uma promoção turística profissional, robusta e estrategicamente orientada. Não o fazendo, fragiliza todo o tecido económico dos Açores.
É urgente reforçar a profissionalização na gestão do destino, melhorar os mecanismos de planeamento e dotar a região de recursos compatíveis com um mercado turístico altamente competitivo. Pagamos hoje o preço de uma impreparação prolongada, que não pode continuar.
A nossa maior alavanca económica exige consistência, conhecimento técnico, continuidade e investimento reforçado na promoção. Não é possível competir com improvisação e reacção em vez de um planeamento assertivo e alinhado.
Estas prioridades não são reivindicações sectoriais. São exigências de futuro para toda a sociedade açoriana.
Em 190 anos, o tecido empresarial mudou profundamente. Que novos perfis de empresário e de negócio estão hoje a emergir em São Miguel e Santa Maria? Por exemplo na economia digital, nas indústrias criativas ou nas tecnologias ligadas ao mar tem existido crescimento empresarial?
Em 190 anos, o tecido empresarial transformou-se de forma profunda — e, hoje, São Miguel e Santa Maria assistem ao surgimento de novos perfis de empresário e de modelos de negócio que reflectem um mundo mais digital, global e tecnológico. Ao lado das empresas tradicionais que continuam a estruturar a nossa economia, cresce agora uma nova geração de empreendedores altamente qualificados, com ambição internacional e maior predisposição para inovar, testar ideias e colaborar em rede.
Na economia digital, verifica-se o aparecimento de empresas nas áreas do software, marketing digital, programação, e-commerce, data analytics e tecnologias aplicadas ao turismo. Muitos destes negócios nascem pequenos, ágeis e orientados para outros mercados, beneficiando do talento formado localmente e do retorno de jovens qualificados que decidem empreender a partir dos Açores.
As indústrias criativas estão também a ganhar expressão, com novos projectos nas áreas do design, audiovisual, videojogos, comunicação, produção cultural e branding territorial. São sectores que combinam talento local, tecnologia e uma forte ligação à identidade das ilhas, e que têm mostrado capacidade de exportação e de geração de valor acrescentado.
Nas tecnologias ligadas ao mar, começa a consolidar-se um ecossistema emergente associado à biotecnologia azul, à monitorização oceânica e ao desenvolvimento de soluções para a economia marítima. Embora ainda numa fase inicial, existe crescimento empresarial neste domínio, alavancado por conhecimento científico das universidades, centros de investigação e uma nova geração de empresas tecnológicas.
Em paralelo, multiplicam-se negócios orientados para a transição energética, sustentabilidade e economia circular, bem como startups ligadas à eficiência energética, requalificação urbana e soluções verdes aplicadas ao turismo.
O que vemos, portanto, é uma economia mais diversificada, com empresários mais jovens, mais digitais, mais qualificados e mais predispostos ao risco. Uma economia que combina saber tradicional com inovação tecnológica, e que, se apoiada pelas condições certas, tem potencial real para transformar estruturalmente o modelo económico das nossas ilhas.
A habitação cara e a dificuldade em atrair e fixar trabalhadores qualificados são temas que preocupam várias empresas. Até que ponto esta pressão no custo de vida está a tornar a economia local menos competitiva?
As empresas têm hoje mais dificuldade em atrair e fixar trabalhadores qualificados, que muitas vezes não encontram condições acessíveis para viver nas ilhas. Isto eleva custos de recrutamento, limita a expansão de sectores mais tecnológicos e reduz a capacidade de inovação. Se não forem tomadas medidas estruturais, este problema pode tornar-se um dos principais bloqueios ao desenvolvimento económico. Mas o mercado imobiliário dá sinais claros de crescimento para os próximos 6 anos.
Que leitura faz da utilização dos fundos europeus e do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) na Região? Os empresários sentem que estes instrumentos estão realmente a chegar à economia real e às pequenas e médias empresas, ou permanecem demasiado centrados no sector público?
A percepção generalizada entre os empresários é que os fundos europeus e o PRR têm chegado de forma limitada à economia real. Persistem demasiados recursos concentrados no sector público, com execução lenta e pouca tradução em investimento directo nas pequenas e médias empresas. Sem uma maior orientação para o tecido empresarial, estes instrumentos continuarão aquém do seu potencial transformador para a economia regional.
No plano interno, que papel é que a CCIPD quer assumir, neste 190.º aniversário, na formação, internacionalização e apoio à gestão das empresas de São Miguel e Santa Maria?
A CCIPD quer reforçar o seu papel como parceira estratégica das empresas, aprofundando a formação profissional, apoiando a gestão com rigor técnico e promovendo a internacionalização através de presença qualificada em feiras e mercados externos. No seu 190.º aniversário, reafirma o compromisso de estar ao lado das empresas com independência, profissionalismo e visão estratégica, contribuindo para um tecido empresarial mais competitivo e preparado para os desafios dos próximos anos.
Se projectar os próximos 10 anos, que visão gostaria de deixar inscrita: que economia quer ver em São Miguel e Santa Maria em 2035, e que mensagem gostaria de dirigir aos empresários num momento simbólico como este do 190.º aniversário?
Se projectarmos os próximos 10 anos, a visão que ambicionamos para São Miguel e Santa Maria em 2035 é a de uma economia insular moderna, tecnicamente preparada, aberta ao mundo e governada por critérios de eficiência, previsibilidade e responsabilidade pública. Uma economia que ultrapassou definitivamente os bloqueios históricos das acessibilidades, com transportes marítimos e aéreos estáveis, competitivos e planeados com visão plurianual; onde as empresas podem investir com confiança porque o Estado cumpre, atempadamente, os seus compromissos; e onde o turismo, continuando a ser uma âncora essencial, já funciona com um nível de profissionalização, planeamento e promoção que coloca os Açores, de forma consistente, entre os destinos internacionais mais sólidos e sustentáveis. Queremos ilhas que diversifiquem as suas bases económicas, reforcem a formação qualificada, incorporem tecnologia, valorizem o mar e as energias renováveis, e onde empreender seja um ato natural — apoiado por políticas públicas estáveis, pela redução de burocracia e por um sistema fiscal coerente com a nossa condição ultraperiférica. Em 2035, queremos que São Miguel e Santa Maria sejam reconhecidas não pelas limitações da insularidade, mas pela capacidade de as transformar em vantagens competitivas.
Aos empresários das nossas ilhas, que enfrentam diariamente riscos, incertezas e desafios crescentes, deixo uma palavra de confiança e de determinação. A história destes 190 anos demonstra que foram sempre os que ousaram investir, criar emprego e abrir caminho que fizeram avançar os Açores. Hoje, mais do que nunca, precisamos desse mesmo espírito: exigente, corajoso, inovador e profundamente comprometido com o bem comum. As empresas são a espinha dorsal da nossa economia e serão também o motor da transformação que os próximos anos exigem. A Câmara de Comércio e Indústria de Ponta Delgada estará, como sempre esteve, ao vosso lado — com independência, rigor e sentido público — para defender condições mais favoráveis ao investimento, políticas económicas responsáveis e um ambiente de negócios competitivo. Juntos, com ambição e responsabilidade, construiremos os próximos 10 anos e honraremos o legado de quase dois séculos de serviço à nossa terra.
por Rui Leite Melo
*[email protected]
