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Até as cruanças andam pesadas

Nos Açores, onde a terra se molda ao vento e às marés, onde as famílias crescem entre tradições que persistem como muros antigos, começa a tornar-se visível um fenómeno silencioso: até as crianças andam pesadas. Pesadas como mulas de carroças apodrecidas, puxando histórias que não são suas. Pesadas como bois que lavram terras duras, mesmo antes de saberem ao certo quem são. Pesadas como ovelhas tosquiadas à falsa fé, vulneráveis ao frio emocional que, tantas vezes, se instala nos lares. Pesadas como porcos que, na velha lógica das casas rurais, acabam transformados em morcelas e chouriços. Sacrificadas, antes, de perceberem que mereciam apenas ser crianças.
E porquê? Porque, ainda hoje, são sobretudo as mães que carregam o Mundo às costas. Elas são cuidadoras, educadoras, planeadoras, trabalhadoras, simultaneamente, bússolas, velas de barcos, onde, tantas vezes, os homens deveriam ser apoio, mas tornam-se âncoras presas aos pés, pensamentos e ações destas. Mulheres que são, de igual forma, plantadoras de emoções, memórias e experiências, na vida das crianças açorianas, dentro de uma cultura, onde o patriarcado, ainda, mexe os cordelinhos invisíveis do quotidiano.
É aqui que a desigualdade de género encontra o seu rosto mais cruel: na saúde mental. A mulher que tudo faz, que tudo prevê e tudo compensa, vive numa pressão constante, que a empurra para um ciclo de exaustão emocional. Todavia, quando ela desaba, não há sociedade que não tremelique das pernas com a sua queda. Porque, quando a cuidadora principal cai, cai, também, o chão e o céu das crianças, simultaneamente, vendo-se presas, num meio termo, plano, raso e seco. Na verdade, estas crianças ficam sem amparo total, sem presença plena, sem silêncio atento de quem consegue perceber, antes mesmo de perguntar. Ficam, por isso, pesadas – não por falta de amor, mas por falta de saúde mental de quem as ama.
Vivemos, num século, que nos afastou da emoção, substituindo-a por redes “associais”, por métricas, por ruídos. Deixámos que o estigma crescesse, chamando “doidos”, “malucos” ou “desvairados” a quem sofre, esquecendo que todos temos uma cabeça, onde mora uma mente que pede cuidado.
Continuamos a fingir que, se não falarmos, passa, como passa a bruma matinal… Mas não passa.
A cereja caiu, não no topo do bolo, mas no topo da sociedade que agora começa, finalmente, a humanizar a saúde mental. E é nesta humanização que reside a esperança: no reconhecimento de que equilibrar a carga emocional das mulheres não é um capricho feminista, mas uma urgência social. Porque, quando aliviamos o peso das mães, também, aliviamos o das crianças.
Sejamos humanos, humanizemo-nos e aprendamos a cultura maior de todas, a de usar o que somos, simples, genuínos e curriqueiros, para cuidar sem ferir, para crescer sem esmagar, para apoiar sem calar.
Nos Açores, onde a vida sempre soube equilibrar tempestades, talvez seja tempo de aprender a equilibrar, de igual forma, os pesos invisíveis que as mulheres carregam, para que as crianças possam, finalmente, andar leves.
Henrique Faria*
* Assistente Social

Campanha 16 Dias pelo Fim da Violência contra as Mulheres 2025

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