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Outras liçõesde dissonância melódica

“Acordei numa manhã de Abril, já nem sei que dia foi, e disse para mim próprio: nunca mais toco piano”
Thomas Bernhard (1983), “O Náufrago”.

Dificilmente encontraremos vivalma que, perante uma composição musical, e mesmo que sem qualquer referência estética ou conhecimento prévio (da Stabat mater de Pergolesi, a uma balada popular orelhuda), não sinta o início de uma resposta emocional potencialmente vulcânica. Se é certo que, sem conhecimento helenístico, dificilmente encontraremos prazer estético numa Ode de Horácio, a beleza de uma ópera de Puccini não carece de erudição para que as nossas zonas subcorticais comecem a disparar impulsos eletroquímicos produtores da experiência emocional associada. Isto porque, de acordo com Panksepp ou Perlovsky, a música mobiliza circuitos cerebrais evolutivamente selecionados, e filogeneticamente partilhados com outros mamíferos, subjacentes aos ritmos motores e vocalizações emocionais de experiências fundamentais à nossa sobrevivência (por exemplo, as vocalizações do cuidado parental, a brincadeira, o rough-and-tumble, os sons da resposta sexual). Dito de outra forma, as vocalizações dos proto-humanos evoluíram em dois sentidos: um semântico (dando origem à linguagem) e outro emocional (de onde emerge a música). Neste sentido, a música atua sem necessitar de mediação linguística (diferentemente da literatura, da poesia, da pintura, ou até do cinema).
No centro da relação entre música e emocionalidade está a dissonância melódica. O uso de dissonância melódica (i.e., a utilização de intervalos ou acordes que produzem tensão e necessidade de resolução) provoca-nos imediatamente uma sensação de suspensão, de incompletude, de ficar de repente sem chão. É ouvir-se o quarteto de cordas n.º 19, K. 465, de Mozart, ou as progressões utilizadas por Bach na sua fantasia e fuga, e somos inundados por uma inquietude e necessidade de harmonia resolutiva. A dissonância musical, enquanto estética da tensão emocional, serviu ainda de alicerce estrutural para obras de Joyce, Mann e Faulkner. De acordo com Daniel C. Melnick, no seu Fullness of Dissonance, o objetivo era estimular a criatividade do leitor e o seu envolvimento ativo no romance. Dito de outra forma, a utilização da dissonância espicaça o leitor a procurar resoluções imaginativas num mundo instável e em mudança.
Está a atravessar-nos um tempo atonal em que a estabilidade do velho terminou, mas a resolução de um novo ainda está por vir, parecendo-nos viver na liquidez de uma composição de Arnold Schönberg: dissonante, inquietante, tensa e irresolúvel. Com a dissonância melódica aprendemos a habitar essa tensão, encontrando até nela beleza, até que o alívio de uma harmonia consonante se instale. Não é fácil, mas é simples: encontrar conforto no dissonante parece ser a única forma de seguirmos em frente, sem cair na tentação de voltar ao passado aparentemente harmonioso.
Encontrar conforto e beleza na dissonância.
E continuar a tocar piano.
Fique bem, pela sua saúde e de todos os Açorianos!
Um conselho da Delegação Regional dos Açores da Ordem dos Psicólogos Portugueses.
Sérgio Andrade Carvalho*
*Investigador Doutorado CINEICC/
Professor Auxiliar Convidado Faculdade de Psicologia e da Ciências
da Educação da Universidade de Coimbra

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