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Dois em um

Atrevo-me a afirmar que vivemos numa região arquipelágica fabulosa , considerando os aspetos de localização – em pleno Atlântico norte com tudo o que o mar representa em atratividade para quem gosta de praias, piscinas naturais e desportos náuticos – com deslumbrantes ou mesmo “misteriosas” emanações vulcânicas, as quais aproveitamos para devaneios culinários, com tradições culturais e religiosas de enorme significado e onde vivem pessoas, que embora no imediato possam ser caracterizadas como “fechadas” são no decurso do convívio bastante agradáveis e hospitaleiras.
Embora tenhamos por hábito falar um pouco negativamente do clima insular, o certo é que temos o equilíbrio entre sol e pluviosidade para termos as diversas ilhas cobertas de diferentes tonalidades de verdes que fazem o encanto de todos os que nos visitam e de nós mesmos quando “olhamos com olhos de ver” e não de quem, de tão habituados, já não dá o verdadeiro valor às belezas do local onde vivemos.
Mas não há bela sem senão, como é usual ouvir o povo dizer. A “minha bela sem senão”, embora pudesse identificar outras, são no imediato os transportes regional.
Independente das condicionantes durante praticamente os últimos cinquenta anos não fizemos progressos, na minha opinião, que permitam concluir que a nível de transportes estamos bem, assumindo que são essenciais na Região e se encontram com uma enorme necessidade de serem readaptados à realidade do século XXI, com o auxilio profissional de especialistas nas respetivas áreas. De amadorismo assumo que já tivemos o suficiente, algum dele com responsabilidade do próprio governo regional.
No setor aeronáutico a confusão é enorme, quase barafunda!
Com duas companhia aéreas que dão, ano após ano, enormes prejuízos e em que para além de se envolver, por exemplo, de modo negativo na gestão tomando decisões sobre destinos, o governo regional se vê obrigado – para que haja hipóteses das companhias aéreas serem operacionais – a assumir responsabilidades através da concessão de avales a empréstimos, os quais sendo bastante volumosos – da ordem das dezenas de milhões de euros – não conseguem fazer o grupo Sata equilibrar-se e muito menos prosperar.
Só no ano de 2025 foram concedidos à Sata cinco avales, totalizando cerca de 85 milhões de euros ou seja mais do que os atribuídos no período de 2021-24 (em número de 3, durante quatro anos) denotando o agravamento da situação financeira da empresa pública, sem que se preveja qualquer alteração relativamente à péssima situação que a caracteriza. Todos os avales foram concedidos com o objetivo de ultrapassar problemas de tesouraria, segundo os responsáveis do governo regional nomeadamente o presidente, o que vai servindo de justificação do injustificável.
Há alguns meses, após a aprovação pelo governo regional dos últimos avales no montante total de 75 milhões, escrevi por várias vezes neste órgão de comunicação social, que José Bolieiro iria conceder mais garantias públicas para satisfazer o compromisso de pagamento do vulgarmente denominado subsídio de Natal.
Ele aí está! Um aval no valor de 10 milhões de euros para ser “suporte de uma tesouraria moribunda” que mesmo assim vai obrigar a empresa pública a pagar os ditos subsídios por duas vezes, sendo a segunda provavelmente em janeiro de 2026.
Na realidade só não via esta situação problemática quem não queria ou tinha falta de visão (principalmente de visão de gestão estratégica).
Com frases “espetaculares”, que não significam absolutamente nada, como: “faz parte da natureza da resposta do mercado” ou “o mercado responde em termos que responde” ou “há que reconhecer e valorizar o trabalho feito pelos próprios proponentes”, o presidente do governo regional José Bolieiro foi a Bruxelas pedir um adiamento de mais um ano (andam sempre como mendigos de chapéu esfarrapado na mão) destinado à conclusão de um processo, que mais parece uma telenovela de origem mexicana, de baixíssimo nível e com atores que não sabem o que fazer.
“Valorizando o seu trabalho”, como afirmou José Bolieiro e o secretário das finanças, os proponentes do consórcio já consolidaram a sua decisão final, considerando que a privatização terá encargos para o governo regional ou seja para todos os residentes, que rondará os 622 milhões de euros, dos quais 470 serão para assumir a dívida atualmente existente, 72 para cobrir o prejuízo previsto para o corrente ano e a diferença restante para o tal “dinheirito de caixa”. Pelas minhas contas a “caixa”, ou melhor o consórcio, receberá 80 milhões de euros, o que é consideravelmente muito.
Ficamos NÓS, os residentes, com uma responsabilidade prevista de 622 milhões, podendo ser mais em futuro até porque vai haver adiamento para a decisão do negócio e nada garante que os prejuízos do ano de 2026 e empréstimos a obter durante o “prolongamento” não sejam, pela lógica do que aconteceu até ao momento, da NOSSA responsabilidade.
O consórcio por seu turno fará o “favor de comprar” 85% da Azores Airlines por 17 milhões, mais alguns milhões que da última proposta e claro que cada ação a valer o mesmo.
Mas como estamos em época de “saldos aéreos” (ou governativos?) a Região entregará no negócio, 9 (nove) “aviões”, um “mercado consolidado de procura de viagens”, o “existente prestigio da qualidade da operação aérea”, uma “estrutura operacional a funcionar” e tudo o mais que, como leigo na matéria, não consigo identificar. Será isto o que os portugueses consideram um “negócio da China”?
Muito ainda está para acontecer e decidir. Coloco mesmo a hipótese, dado o adiamento da negociação/reestruturação em mais um ano, pedido por José Bolieiro e gentilmente concedido pela Comunidade Europeia, que o “prejuízo” será substancialmente maior para a Região.
Tenho a certeza que o valor de compra proposto atualmente pelo consórcio de 17 milhões será, em fins de 2026, renegociado por parte do consórcio e com base na degradação da situação financeira da Sata, podendo baixar de valor, para além dos compradores tentarem que a Região assuma o agravamento financeiro resultante de financiamento obtidos e acrescidos do valor da dividas a terceiros.
Da maneira como todo este processo de venda decorre, para já não falar do tempo em que ocorreu, pressupondo que poderei propor para conclusão da transação – como ocorre nas “grandes superfícies comerciais” em que dão por vezes a hipótese de adquirirmos “duas unidades pelo preço de uma” – que se venda a Azores Airlines oferecendo como bónus TODO – mas mesmo todo – o elenco governativo sem exceção, até mesmo atendendo que José Bolieiro recentemente mostrou intenção de continuar a “trabalhar(?)” com os mesmos elementos do atual governo.
Atendendo que o representante doa trabalhadores da SATA, após os sindicalizados, afirmar haver sérios problemas no negócio, tenho esperança que, na data de 31 de dezembro de 2026, se consiga analisar/quantificar as consequências (de certeza negativas) para a Região e caso existam responsabilidades, concluir firmemente a quem imputar as mesmas. Pela lógica, com base no verificado no passado recente, existirá decerto um relatório de análise do Tribunal de Contas sobre todo este processo, na oportunidade. Anseio por tal!
J. Rosa Nunes
Prof. Doutor

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