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Nem pomares, nem laranjas

“A economia açoriana carece, urgentemente, de diversificar os setores produtivos para fazer face a situações imprevistas que ocorrem na imprevisível conjuntura económica internacional.”

Na minha infância, por esta altura do ano, era frequente os miúdos levarem para a escola laranjas, tangerinas ou bananas que, com um pedacito de pão de milho ou de bolo de milho, calavam a fome, no intervalo do meio-dia.
Quase todas as famílias, conforme suas posses, tinham quinta, pequena ou grande, com árvores de frutos cuja produção estava adequada ao ciclo anual e às necessidades alimentares. Normalmente eram terrenos fracos e abrigados, chamados biscoitos, e que produziam em quantidade laranjas, tangerinas, bananas, uva, ananás selvagem, araçás, nêsperas, goiabas, etc, cujo excedente se vendia ou dava. Nas hortas ao pé de casa, onde as mulheres cultivavam os produtos frescos de consumo diário e no curral das galinhas também havia laranjeiras ou limoeiros a que se recorria para temperar o caldo de peixe, uma canja, para temperar a carne de porco ou para um chá – bom remédio para as constipações.
Os citrinos sempre fizeram parte da produção destas ilhas, provavelmente porque o clima facilitava a produção e também porque proporcionavam benefícios à saúde das populações.
Essas qualidades são de tal forma significativas que laranjas, tangerinas e limões fazem parte das ornamentações festivas e da cultura popular: o altar do Menino é enfeitado com laranjas e um limão encima os pães de massa sovada, em louvor do Espírito Santo.
Feito este intróito, pergunto-me: por que razão a produção da laranja nos Açores é tão insignificante que quase desapareceu das bancas do Mercado da Graça? Há poucas décadas os vendedores proclamavam, alto e bom som, a qualidade das laranjas das quintas de Rabo de Peixe e da maçã das Furnas.
Do Pico, exportava-se para São Miguel e para a Terceira a bordo dos iates laranjas ‘da baía’ e ‘americanas’ e durante todo o ano, os produtores da Fronteira, transportando à cabeça a fruta em cestos redondos de vime, apregoavam pelas ruas da cidade da Horta, nos meses de verão, maçãs, peras, ameixas, uvas e figos.
Que aconteceu às antigas quintas e pomares do arquipélago? Os micaelenses, produziam laranjas consideradas “as mais afamadas devido ao seu sabor rico e delicado, e são facilmente reconhecidas pela sua pele fina e macia” e por isso segundo um cronista da época, se “exporta anualmente duzentos carregamentos de aproximadamente duzentas mil caixas com mil laranjas (José do canto corrige para 800 laranjas)”?
O importante ciclo económico da laranja que conheceu o seu período áureo em São Miguel entre 1840 e 1875, desapareceu sem deixar rasto? Não é possível, pois, segundo relata o citado cronista (1854), “Cada família, por mais pobre que seja, tem a sua quinta, como chamam a um pomar de laranjeiras, cuja extensão pode variar entre doze e mil árvores. O dote de uma noiva de São Miguel não consiste nem em dinheiro nem em jóias, mas num determinado número de laranjeiras carregadas de frutos, e o aldeão que conseguir dotar cada uma das suas filhas com vinte destas árvores considera-se um homem afortunado. Estas quintas são arranjadas de forma muito bonita – as árvores plantadas em filas regulares, abrigadas por sebes vivas à volta para proteger as flores delicadas e os frutos novos de ventos fortes durante os equinócios.”
Presentemente, não há dados estatísticos que permitam avaliar qual a produção de cada espécie de citrinos, nem a área e número dos pomares destinados a essa produção, nem quantos empresários agrícolas que se dedicam a esse negócio.
Em 2022, o titular da pasta da Agricultura, ao falar do aumento de apoios a conceder através do PRORURAL + limitou-se a referir “algumas centenas de produtores frutícolas”, que produzem “cerca de 12.000 toneladas de fruta, através de uma área de cerca de 900 hectares”.
Tinha, naturalmente, implícita o aumento da produção da banana e do ananás, cuja qualidade, apoiada pelos apoios comunitários do POSEI potenciou o volume de exportações.
Paralelamente, é fácil constatar que nesta altura do ano, os consumidores açorianos vêem-se obrigados a consumir citrinos importados, refrigerados, quando as laranjas e outros citrinos são a natural fruta da época.
Se o objetivo, é “aumentar consideravelmente a área de produção”, através de apoios que “estarão disponíveis, no próximo quadro comunitário de apoio”, com o intuito de “produzir mais fruta e, de preferência, fruta local”, depreende-se que a propósito de António Ventura não se passou de boas intenções.
A economia açoriana carece, urgentemente, de diversificar os setores produtivos para fazer face a situações imprevistas que ocorrem na imprevisível conjuntura económica internacional.
O fim do ciclo económico da laranja deu-se por razões fito-sanitárias, hoje ultrapassadas, devido aos avanços da biologia.
Temos falta de mão-de-obra, mas isso também afeta outras produções frutícolas e elas aumentaram, com vantagem para produtores e consumidores.
A História económica destas ilhas revela-nos que temos de repensar a utilização da superfície agrária disponível e de diversificar o setor primário. O exemplo bem sucedido do repovoamento dos terrenos vitivinícolas deve estender-se as quintas e pomares para produção da laranja e demais frutas. A natureza e o clima destas ilhas proporcionam esse benefício. Não o desperdicemos, por mais tempo!
José Gabriel Ávila *
* Jornalista c.p. 239 A
http://escritemdia.blogspot.com

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