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O Congresso das Saudações Intermináveis

Na hora do dia em que a primavera é mais quente, um homem encontrava-se diante ao jardim da cidade. Vestia um fato cinzento, que já tinha sido novo e que, outrora, o servia na perfeição. Era pequeno, careca e, naquele dia, apresentava a barba feita. Movimentava-se com uma graça peculiar e ombros alinhados, alegre e confiante. Este homem era o Carlos Jorge, ou Cajó e, há vinte anos, que era o responsável pelas equipas de recolha de lixo da Câmara. Estava a fazer tempo para entrar no Congresso Nacional de Resíduos, onde fora convidado a apresentar o trabalho da sua equipa. O reconhecimento enchia-o, o nervosinho, natural, por palestrar juntamente com dignatários políticos de alto gabarito, também lá estava, sem dúvida, mas mesmo assim, seguia confiante.
Na mão transportava uma pasta azul-escura, daquelas de plástico com botão. Lá dentro uma “pen” com uma apresentação power-point e um bloco de notas. A filha havia-o ajudado a montar tudo, seguindo as tendências modernas de transição e composição visual representativa: tabelas alinhadas, figuras legendadas e até um gráfico circular que o encheu de orgulho paternal. “Assim sim!”, pensou para si, sempre que treinava a apresentação. Tinha do seu lado todo o Know How de um profissional dedicado, herói silencioso da classe trabalhadora, e ainda contava com uma apresentação de topo, ensaiada e memorizada, fruto da ajuda da filhota universitária.
O auditório estava cheio. Não de gente, mas de cargos. Entre os enroladinhos de salsichinha com anchova, desfilavam fatos caros, gravatas aprumadas e meias condizentes, cada toilette um pelouro entre os canapés. O Cajó sentiu um nó na garganta, mas seguiu de cabeça erguida. Emborcou um “Aperol Spritz” e respirou fundo aquele ar carregado de formalidades. Cumprimentou alguns fatos com um aceno amistoso e respeitável, antes de contornar o foyer rumo à sala de conferências. Sentou-se a meio caminho entre a frente e o lá para trás. Acalmouse o burburinho com a subida do presidente da Câmara. Confiante abriu a sessão:
Bom dia. Exma. Senhora Presidente do Governo… Exmo. Senhor Secretário Regional… ilustre Diretor Geral… excelentíssimo Presidente da mesa… digníssimo Representante da Autoridade dos Resíduos… estimada Engenheira- Chefe da subdivisão das divisões… mui ilustre Presidente das presidências… e mais e mais apresentações que perduraram durante bons minutos. No fim da procissão de cargos, rematou: “O tema que nos reúne é de extrema importância, e é importante que reconhecemos a urgência do tema de forma a o tratar.” Uma salva de palmas rugiu na sala, como se tivesse sido revelado um novo dogma. O Cajó, arregalou os olhos: “Ah, isto deve ser só o protocolo inicial. Deve ser normal”. O Presidente da Câmara certamente estava a assumir-se como mestre de cerimónias, achou bem. Para o palco já se deslocava o Secretário Regional e a atenção voltou à sala:
Cara Exma. Senhora Presidente do Governo… estimada Engenheira Chefe da subdivisão… Digníssimo Presidente das presidências… ilustre… estimado… caro… mais cinco minutos de títulos, o conteúdo: “O tema hoje apresentado deve ser visto com uma perspetiva holística e não emocional, de forma, a resolver as partes que estão mal, e manter as partes que estão bem”. Mais uma salva de palmas assertiva e contundente.
A cabeça do Cajó deu um nó. “É preciso apresentar os cargos antes de falar?” a ideia instalouse como um vírus. Rapidamente sacou do bloco de notas para tentar apontar o falatório enunciativo protocolar. Tinha de fazer algo. Sobe agora ao palco a Engenheira Chefe da subdivisão das divisões:
Digníssima Presidente… Mui honrado Presidente das presidências… ilustre Secretária… honrado… estimado… Excelentíssimo… excelentíssima… meritíssimo… Magnânimo… e mais cinco… “A problemática em discussão urge ação assertiva. Devemos considerar a gestão dos resíduos como uma problemática em que a ação assertiva é essencialmente importantíssima!” Erupção de palmas.
Seguiram-se mais três intervenções cada uma mais rica em apresentações de cargos. O Cajó, em pânico rabiscava o seu bloco de notas tentando, de alguma forma, arranjar algo coerente para dizer. Mas as listas não batiam certo, os títulos variavam, era Doutor, Engenheiro? O seu bloco de notas era agora um emaranhado de títulos entre setas e rabiscos indecifráveis.
Finalmente chegou à sua vez, e caminhou em direção ao palco como quem vai para a guilhotina. O seu nervosismo era percetível entre as filas de fatos da frente. O power point, pré-carregado, brilhava no quadro branco… inútil sem as devidas apresentações. Subiu ao palanque, respirou fundo, abriu a boca:
DIGNÁSSIMO PRESIDENTE e EXCELENTÁSSIMA ENGENHEIRA… O riso explodiu naquela sala, uma cacofonia de sons humilhantes. O Cajó carregou-se de raiva. Toda aquela preparação e dedicação. Reduzido a uma anedota. Quando o riso morreu, ergueu a cabeça e disse: “Até agora, ainda ninguém disse nada de jeito”. Se os canapés fossem servidos por agora, evaporavam no vácuo criado pelas bocas abertas. Um silêncio redondo serviu de cenário para uma apresentação competente: gráficos, propostas e soluções. No fim recebeu as suas palmas, e os dignatários, mesmo não tendo sido devidamente destacados não desapareceram por combustão espontânea. Ao descer o palco, percebeu o seu maior erro – esqueceu-se que vive na terra do “Quem é teu Pai?”.

Philip San-Bento Pontes

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