Quando um conflito grave é deixado por resolver, ele não desaparece, apenas muda de forma, recalcado mas vivo, regressando no tempo como uma ferida que nunca cicatrizou. O racismo implementado nas antigas colónias portuguesas, e em grande parte do continente africano sob dominação europeia, é um desses conflitos estruturais que não foi verdadeiramente enfrentado. Foi varrido para debaixo do tapete da narrativa nacional, diluído pela retórica da «lusofonia fraterna», pelos mitos de um colonialismo «brando», e pela pressa de celebrar independências sem assumir responsabilidades.
Mas a história é obstinada. O que não se resolve repete-se.
Filosoficamente, o racismo colonial é a negação do princípio de igualdade ontológica entre seres humanos. Não é apenas uma prática, trata-se de uma estrutura mental que afirma que há vidas mais vidas que outras. Sem desconstruir este fundamento, metafísico e moral, nenhuma sociedade transcende verdadeiramente o seu passado.
O problema não é apenas político. É civilizacional. E o que não se enfrenta ao nível do pensamento reaparece como sombra no comportamento social.
Politicamente, o problema regressa porque o Estado português nunca fez o trabalho de casa. Não houve um processo de verdade e reconciliação, nem um exame profundo das políticas coloniais, nem um reconhecimento sistemático das violências cometidas. Os Estados independentes, por sua vez, tiveram de se construir em cima de sociedades traumatizadas, com fronteiras arbitrárias, divisões étnicas alimentadas pelos colonizadores, e economias concebidas para servir a metrópole, não os povos locais. Os impasses estruturais como a pobreza, conflitos internos, desigualdades étnicas são heranças directas da dominação colonial e da sua lógica racial.
Socialmente, o racismo ressurge na forma de discriminação quotidiana, desigualdades persistentes, marginalização e violência simbólica. Aparece na diáspora africana em Portugal, muitas vezes remetida para os trabalhos mais precários, para os bairros periféricos, para a invisibilidade. Aparece na dificuldade colectiva em olhar o passado com verdade. E aparece, também, na forma como sociedades africanas lidam com a sua própria pluralidade étnica ou com modelos de organização importados à força.
Onde não há cura, há repetição.
A persistência do racismo é o sinal mais visível de que o colonialismo não acabou: apenas mudou de nome, pois nenhum conflito nascido de uma estrutura de dominação desaparece por decreto. Ele exige trabalho de memória, coragem política e transformação social. Exige ouvir os que foram silenciados. Exige restituir dignidade onde foi negada. Exige reconhecer a violência e, sobretudo, responsabilizar-se por ela.
Só quando uma sociedade enfrenta o seu passado sem medo é que o futuro deixa de ser uma repetição traumática do mesmo erro. Enquanto Portugal e os países africanos não puderem dialogar entre iguais, com verdade, sem paternalismos e sem revisionismos, o passado continuará a projectar-se no futuro como uma sombra longa.
A justiça histórica é a condição mínima para que o racismo deixe, finalmente, de reaparecer, instalar-se e reger a sociedade portuguesa, bem como toda a complexidade das várias sociedades que formam a Europa.
Henrique Levy