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16 Dias de Ativismo pelo fim da Violência Contra as Mulheres

Não sou contra, desde que fique entre quatro paredes: Parte 1

A oportunidade de conhecer um pouco mais sobre as questões que importam às pessoas LGBTQIA+ – e que devem importar a todas as pessoas – desafiou-me a ser mais uma gota a contribuir para a reflexão sobre como olhamos para estes seres humanos que a muitos causam estranheza, desconforto e necessidade de se distanciar.
Frequentei, recentemente, uma formação, dinamizada por Helder Bértolo, da Associação Opus Diversidades, que me fez refletir sobre os desafios acrescidos que uma pessoa LGBTQIA+ tem de ultrapassar no seu processo de socialização.
No último século, temos vindo a assistir a uma transformação da estrutura das famílias. A título de exemplo, temos: o divórcio; a entrada da mulher no mercado de trabalho remunerado; a secularização do casamento; a criminalização da violência intrafamiliar; o “Poder Parental” é substituído pelas “Responsabilidades Parentais”; dá-se uma separação entre a relação conjugal e a parental; e o reconhecimento da monoparentalidade e da homoparentalidade.
É neste contexto de transformação que acolhemos o conceito de “género” para significar o que se espera de um homem ou de uma mulher a nível de papéis sociais, comportamentos e atributos, e que podem variar no tempo e no espaço, ou seja, o género é socialmente construído.
A história tem sido profícua em testemunhar a discriminação de outros povos, das mulheres, das pessoas negras, das pessoas LGBTQIA+, na prática, de quem é diferente, de quem é “estranho”. O Estado tem a obrigação de oferecer o contraditório a crianças que vivem em famílias onde dominam ideais baseados no racismo, na xenofobia, na violência, na homofobia, na transfobia e na bifobia. Todas as crianças têm o direito de aprender que ser diferente não é motivo para se transformar num alvo de ódio e de violência. Não interessa se a cor da pele ou o seu idioma são diferentes, se a roupa é diferente, se a maquilhagem ou o penteado são diferentes, não interessa por quem se sente sexualmente atraído ou como expressa a sua identidade de género.
As pessoas LGBTQIA+ vivem na invisibilidade. São obrigadas a isso, porque a sociedade as empurra para um quarto escuro, onde não sejam vistas, ouvidas ou sentidas: “Desde que não sejam extravagantes…”; “Desde que as trans tenham a aparência de mulheres bonitas… Agora, se for um homem vestido de mulher, isso é uma aberração!”

“Já passou pela tua cabeça que eu não sou uma rapariga?”

A expressão “Trans” refere-se a transgénero. A pessoa não se identifica com o seu corpo. Há um sentimento de vazio, de se olhar no espelho e não se reconhecer no sexo com o qual nasceu. É importante ouvir o testemunho de outras pessoas trans, porque faz com que outras pessoas, em circunstâncias semelhantes, se identifiquem. Para além disso, permite que outras pessoas compreendam os desafios que as pessoas trans que têm de enfrentar.
E se uma pessoa adolescente amiga sua lhe perguntasse: “Já te passou pela cabeça que eu não sou uma rapariga? ”E revelasse que se identifica como homem? O que mudaria na sua relação? Distanciar-se-ia? A necessidade de distância do que não conhecemos leva-nos a acentuar preconceitos, a incentivar a exclusão de quem não fez uma escolha, simplesmente nasceu com um corpo com o qual não se identifica.
A perceção do género acontece por volta dos 2 ou 3 anos de idade e é a partir desta fase que as crianças começam a sentir desconforto, porque lhes é exigido que se apresentem (roupa, brinquedos, gostos e interesses) de acordo com o sexo à nascença. É frequente a necessidade de mudar o nome, mas nem todas as pessoas trans pretendem fazer cirurgias ou tratamentos hormonais. Não podemos exigir, por exemplo, que as mulheres trans façam este tipo de intervenção para “caberem” nos parâmetros definidos socialmente associados a uma mulher CIS. Outra das dificuldades das pessoas trans é conseguir um emprego e, se o conseguem, são alvo de discriminação.
Expressão de género

A expressão de género refere-se à forma como nos vestimos, utilizamos objetos de adorno e não tem qualquer influência na orientação sexual. Desde cedo, associa-se o azul ao bebé e o rosa à bebé, no entanto, nem sempre foi assim. As crianças, há 100 anos atrás, vestiam branco e, na primeira infância, tanto rapazes como raparigas usavam vestidos. Considerando outros exemplos: não são só os homens escoceses que vestem saias; os saltos altos foram concebidos para os homens de elevado estatuto social; a maquilhagem masculina pode recuar até ao tempo dos faraós e os exemplos poder-se-iam multiplicar.

Qual a importância das Letras LGBTQIA+?

O objetivo da sigla LGBTQIA+ é dar visibilidade e não “rotular”.Quando não nos conseguimos identificar com quem nos rodeia, isso gera muito sofrimento. Quando conhecemos pessoas que se sentem como nós, isso contribui para a nossa identidade e para o nosso sentimento de pertença.

Insulto

Alguns dos piores nomes que uma mãe ou um pai pode chamar a alguém é “paneleiro”, “fufa”, “bicha” de modo pejorativo. Então, as pessoas não heterossexuais acham que são um insulto, o que traz implicações a nível do auto-conceito e da auto-estima.

Invisibilidade

As pessoas LGBTIQA+ não têm visibilidade. Frequentemente, não se assumem, porque receiam penalização no emprego, marginalização da família e a crítica social. Optam por esconderem-se, de modo a protegerem-se do sofrimento, mas esta decisão também traz muito sofrimento.

Isolamento

Expressões como “Eu não sou homofóbico, mas…”; “Eu até tenho amigos gays.” ;“Ele/a até é bonito, é pena ser gay.”; “Ele é homossexual, mas é simpático.” revelam o quão subtil pode ser a discriminação. Perguntas como “Quando é que casas?”; “Então ainda não tens namorada?” Estas questões são colocadas, por vezes, desde a infância. Pergunta-se, por exemplo, a crianças do primeiro ciclo se já têm namoradas e se dão beijos às escondidas. “Sais ao teu pai, um garanhão”. Tudo isto contribui para o isolamento das pessoas que não se identificam com estas perguntas.
As manifestações de carinho entre homossexuais continuam a ser vistas como uma agressão, porque estão a “impor” a sua orientação sexual. Se um homem heterossexual der um beijo na boca da esposa ou disser que foram passar o fim de semana fora da ilha, está a impor a sua orientação sexual? De que forma isto integra? Não integra, segrega.
Outras questões relevantes para as famílias, principalmente para as mães e pais, são: “Onde é que eu errei?”; “Só pensas em ti, és um egoísta.”; “Isso é uma fase”; “É moda”; “Não vales nada” “Faz-te um homem”. Por mais que venha de um lugar de amor, transmitir a preocupação com o medo da discriminação, também faz doer. É importante investir na visibilidade. É a maior prova de amor.

Sandra Furtado*
* Socióloga
Centro de Apoio à Mulher de Ponta Delgada

Campanha 16 Dias pelo Fim da Violência contra as Mulheres 2025

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