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O Futuro já chegou.Falta agora o currículo

A ausência de educação digital agrava desigualdades
e limita o futuro dos jovens

Num tempo em que todos os caminhos parecem ir dar à inteligência artificial (IA), é necessário perguntar se estamos realmente a preparar os jovens para o mundo digital em que já vivem. A resposta, infelizmente, parece não ser a que gostaríamos. O currículo de Tecnologias da Informação e Comunicação (TIC) no 2º e 3º Ciclos do Ensino Básico (5.º ao 9.º ano) que é ensinado nas escolas portuguesas permanece inalterado desde 2018. Quer isto dizer que o currículo atual não contempla IA que já cria textos e imagens, toma decisões, produz conteúdos e influencia comportamentos. Neste momento, estamos a ensinar muito menos do que a realidade exige, e infinitamente menos do que o futuro exigirá. Ou seja, é urgente a atualização do currículo de TIC.
Além disso, importa perguntar se os professores estão preparados para ensinar estes novos temas. Ensinar IA, privacidade digital, ética tecnológica, verificação de fontes ou literacia algorítmica exige formação específica e contínua. Sem isso, qualquer tentativa de modernização curricular fica pela metade. A OCDE no seu relatório Students, Digital Devices and Success (2024), sublinha que literacia digital, pensamento crítico e verificação de fontes são competências essenciais para mitigar riscos e preparar os alunos para um mundo mediado por algoritmos. Estas competências devem estar no currículo e na formação de professores, e não apenas em atividades suplementares. O mesmo relatório insiste que combater desigualdades digitais exige mais do que distribuir equipamentos: exige acesso universal à internet de qualidade, professores com competências digitais atualizadas, literacia digital como base transversal do currículo e políticas que garantam equidade entre escolas e regiões. Sem isso, continuaremos a agravar desigualdades em vez de as reduzir.
Na Áustria, país onde resido, o Ministério da Educação definiu a IA como uma oportunidade para as escolas e desenvolveu uma estratégia nacional que combina investigação, prática pedagógica e formação de professores. Criaram-se escolas-piloto onde docentes e investigadores trabalham em conjunto para experimentar ferramentas de IA em contexto real, recolher evidência e produzir materiais de apoio. Foi implementado um programa estruturado de formação contínua, incluindo cursos universitários, seminários especializados e um curso online nacional sobre IA, aberto a todos os professores. Além disso, plataformas oficiais como a Eduthek disponibilizam recursos validados sobre IA, e o pensamento computacional e noções básicas de IA foram introduzidos logo no ensino primário.
Se a IA e a tecnologia são parte inevitável da vida contemporânea, então o mínimo que podemos fazer é preparar a próxima geração para navegar esse mundo com autonomia, ética e espírito crítico. E isso só acontecerá se atualizarmos o currículo e dermos aos professores a formação necessária para o ensinar com segurança e profundidade. O currículo ficou para trás. Os professores não têm de ficar. E os alunos muito menos.
E, caro leitor, não devemos cair na tentação de acreditar que a IA resolverá os problemas na educação. Se recorrermos à IA como resposta para tudo, corremos o risco de que a resposta da IA para tudo seja simplesmente 421.

1 Em The Hitchhiker’s Guide to the Galaxy (À Boleia pela Galáxia, na edição portuguesa), publicado em 1979, Douglas Adam descreve uma Terra que, na verdade, é um supercomputador gigante, criado por outro supercomputador. O Deep Thought (nome do supercomputador) tinha sido construído para fornecer a resposta à “Pergunta Fundamental sobre a Vida, o Universo e Tudo o Resto”, que, após eras de cálculos, foi simplesmente dada como “42”.
José Basílio
Analista de Dados Sénior

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