Remetendo para o 3º trimestre de 2014, a revista “The Economist” pôs, recentemente (13 de dezembro), o crescimento económico português em 1º lugar, num conjunto de 36 países a nível mundial. O governo das direitas, consertado com as direitas extremas, rejubilou e não se cansou de deitar cá para fora tais resultados. O jornalista Pedro Tadeu, na revista “Abril Abril”, divulgou, pela mão de Eugénio da Fonseca dois dias depois no jornal Público, mais números referentes aos mesmos 36 países. E o que diziam esses números?
No produto interno bruto (PIB) por cabeça, referente a 2024, Portugal estava em 28º lugar, só acima de 8 países, com muito menos de metade (41 884 dólares anuais) dos valores dos primeiros (Luxemburgo e Irlanda – cerca de 120 000 dólares ano). No salário médio bruto anual, descia para o 29º lugar. No rendimento médio familiar, descia mais ainda para o 30º lugar. E no índice de Gini, para a desigualdade da distribuição dos rendimentos, era o 8º pior país.
Conclusão: Apesar dos maiores valores (propagandeados) da sua evolução económica, bastaram dois dias para ficar demonstrado que Portugal é afinal um dos países mais pobres da União Europeia.
Um país em que o salário mínimo líquido mensal é de 774 euros, e onde 2,5 milhões de trabalhadores não chegam a ganhar 1 000 euros mensais. Um país onde mais de 17% dos seus trabalhadores empobrecem a trabalhar. Um país onde metade dos 2,5 milhões de pensionistas do regime geral da S. Social recebeu em 2024 menos de 462 euros por mês. Um país onde em simultâneo com estes números negativos para milhões de portugueses, meia dúzia de acionistas das 16 maiores empresas meteu ao bolso 3,5 mil milhões de euros.
Entretanto alguns números do mesmo tipo foram divulgados na passada semana relativamente aos Açores anunciando uma queda na taxa de risco de pobreza de quase 7 % entre 2023 e 2024. Ela foi apresentada como a maior descida desde 2019, com um pequeno senão: os sociólogos desta área ainda não identificaram as causas concretas desta melhoria. Dá para duvidar por ventura se o próprio governo das direitas, aliado às extremas, conseguirá fazer melhor que os sociólogos, quanto mais não seja por ausência de razões identificadas para esta evolução…
Para lá dos índices enganadores, com margem de erro considerável, que só mostram a parte dos rendimentos e não também a do custo de vida; das alterações às regras nacionais de atribuição das prestações sociais, ou da possível instabilidade temporal destes valores, que poderão ajudar a explicar esta descida, o certo é que teimosamente, num dos países mais pobres da UE como é Portugal, os valores dos diversos índices que determinam essa condição, continuam a ser ainda mais graves na Região, estando aliados a fragilidades estruturais, principalmente aos baixos níveis dos números da educação e da qualificação profissional e empresarial, bem como às muito fortes desigualdades designadamente na distribuição dos rendimentos, embora não só.
E por esse mundo? Não faltam as promessas liberais de criação de riqueza, cada vez mais inimiga do ambiente, num consenso que junta direitas, extremas direitas e sociais democratas (que se apelidam de “socialistas”, em diversos casos) mas o certo é que na habitual divulgação anual do seu relatório, no passado dia 12 do corrente, a inglesa OXFAN, uma confederação internacional de 19 organizações e mais de 3000 parceiros, nos diz que a riqueza dos cinco homens mais ricos do mundo mais que duplicou desde 2020, de 405 mil milhões de dólares passou para 869 mil milhões (14 milhões de dólares por hora) em 2024, enquanto quase 5 mil milhões de pessoas ficaram mais pobres. Diz-nos ainda que 70% das maiores empresas do mundo são dirigidas por um único ultra milionário como diretor executivo ou principal acionista …
Mário Abrantes