Ao longo dos anos tenho sido um dos que tem defendido que o vinte e cinco de Novembro representou o momento em que Portugal conseguiu recentrar o processo revolucionário e garantir a construção de uma democracia liberal estável. Durante demasiado tempo essa data foi ignorada, quando não deliberadamente afastada da narrativa oficial, o que fragilizou a compreensão pública do seu papel na transição democrática. Recuperar a memória deste episódio não significa reescrever a história, mas sim preservar o seu significado e reconhecer o contributo dos actores políticos e militares que o protagonizaram. Esquecer ou branquear o passado, seja por conveniência ideológica ou partidária, prejudica a qualidade da democracia e limita a capacidade de o país aprender com os momentos decisivos da sua história.
Apesar disso, tentar equiparar o vinte e cinco de Novembro ao vinte e cinco de Abril é uma leitura politicamente exagerada e historicamente indefensável, além de pouco prudente num contexto de crescimento extremista. O vinte e cinco de Abril representou a ruptura total com um regime autoritário, sustentado por um apoio social quase unânime e que se traduziu numa mobilização colectiva abrindo as portas à liberdade e da participação cívica. Foi a base de todo o edifício democrático posterior, o acontecimento fundador que permitiu ao país reinventar-se.
O vinte e cinco de Novembro, embora crucial para impedir uma deriva revolucionária incompatível com o pluralismo democrático, foi uma reacção necessária num contexto de elevada tensão política e militar, mas longe de reunir a mesma legitimidade popular ou amplitude ideológica. Não mudou o regime, mas garantiu que o espírito de Abril não seria desvirtuado. O vinte e cinco de Novembro deve ser lembrado e valorizado como um momento determinante da nossa história democrática, não apenas enquanto episódio militar e político, mas como marco que reafirmou a necessidade de pluralismo e de equilíbrio institucional. Importa preservar a memória dos que tiveram a coragem de agir num contexto carregado de incerteza e tensão, com risco físico pessoal, reconhecendo o papel individual e colectivo de quem assumiu riscos reais para impedir que o país enveredasse por caminhos incompatíveis com a liberdade. Honrar esses nomes é, no fundo, reafirmar o compromisso com uma cultura democrática que não pode ser reduzida a slogans nem a simplificações históricas.
Porém, a recente tentativa de colocar ambas as datas no mesmo plano resulta de uma radicalização simbólica que sectores da direita portuguesa alimentam hoje e que replica os erros que a esquerda cometeu durante décadas ao monopolizar o discurso sobre Abril. Mais recentemente, essa mesma esquerda contribuiu para novas clivagens através de agendas identitárias que fragmentaram o espaço político. Ao seguir esse caminho, a direita arrisca cristalizar uma dinâmica de confronto que tenderá a produzir um efeito inverso ao desejado, reforçando a polarização e conduzindo a uma penalização eleitoral futura. Será um erro político evidente, porém, temo quase inevitável.
Para quem acredita num centro direita moderno, reformista e comprometido com uma economia mais competitiva e com uma sociedade mais aberta, este tipo de revisionismo simbólico não só é contraproducente como impede o debate verdadeiramente relevante. O que fortalece uma democracia é a construção de consensos sobre os pilares que a sustentam, e isso implica reconhecer que Abril é o momento fundador e Novembro o momento de estabilização. Respeitar essa distinção é um sinal de maturidade política e de responsabilidade histórica, qualidades essenciais para um país que quer projectar confiança no futuro.
André Silveira