“A presença de Miguel, Gabriel e Rafael no Judaísmo, Cristianismo e Islamismo revela que existe um terreno espiritual comum, uma gramática primordial da relação entre o humano e o divino. Os três arcanjos são sinais da presença do sagrado na caminhada humana.”
Entre os símbolos que atravessam as épocas como chamas que recusam extinguir-se, poucos brilham, na consciência das culturas baseadas nas três religiões do Livro, com a constância de Miguel, Rafael e Gabriel. Os três arcanjos surgem como sentinelas da dignidade humana. O judaísmo, o cristianismo e o islamismo reconhecem os arcanjos como seres de fronteira, ou seja, «homens com asas», «habitantes do entre-mundos», mensageiros de um Deus que não se resigna ao silêncio. A sua universalidade decorre de uma intuição comum, a de que o divino não abandona o humano à violência dos poderes terrenos. Entende-se por «Religiões do Livro» as três religiões monoteístas e abraâmicas, que veneram um único Deus, tendo as suas crenças registadas nos seus textos sagrados, respetivamente a Torá, a Bíblia e o Alcorão.
Miguel, o defensor, é o primeiro sinal dessa promessa. No judaísmo, ergue-se como protetor de Israel. No cristianismo, comanda as milícias celestes contra as forças que esmagam o espírito. No islamismo, vela pela ordem do cosmos e distribui o sustento que impede a injustiça de aniquilar o mundo. Em todas as tradições, Miguel aparece coberto de ferro e luz, não para oprimir, mas para quebrar o jugo que o humano impõe a si próprio. Ele é a espada que corta as desigualdades instituídas pelas sociedades humanas, um arquétipo eterno de resistência contra tudo o que nos humilha. Rafael, o curador, traz outra forma de libertação. No Livro de Tobias, guia, sara e concede paz e discernimento. Revela que curar não é apenas aliviar a dor, mas reconciliar o homem consigo mesmo e com o destino que lhe é devido. Na tradição islâmica, como anjo da trombeta final, é o que desperta a criação, aquele que afirma que ninguém pode permanecer adormecido enquanto a injustiça vigora. A cura e o despertar são, afinal, a operação espiritual que liberta do medo, da cegueira e da mentira. Rafael é o anjo da emancipação interior, o que devolve ao humano a coragem de ser inteiro.
Gabriel, por fim, traz o verbo que incendeia a História. No judaísmo, anuncia segredos. No cristianismo, abre o tempo novo ao dizer a Maria que o impossível se fará carne. No islamismo, enquanto Jibril, dita ao Profeta o próprio Alcorão. Gabriel é a palavra que desce e, como fogo, denuncia, consola, exige. Em todas as religiões, ele destrói o silêncio cúmplice com que tantas vezes se legitima a opressão. A sua mensagem convoca sempre o humano à liberdade, porque nenhuma revelação é autêntica se não for libertadora.
Os três arcanjos são forças éticas. Mensageiros de um Deus que não pactua com a tirania. Atravessam o tempo trazendo à terra o grito de igualdade e justiça social. Afirmam que ninguém nasce para servir, que ninguém está condenado a viver de joelhos. São entidades que existem para libertar o homem do próprio homem, desse velho poder que constrói tronos com o sofrimento alheio.
O voo dos arcanjos abre no céu uma fenda de luz a lembrar às sociedades humanas que o seu destino não é rastejar, mas ascender. Elevam-nos para que possamos erguer os outros. Chamam-nos ao alto para que vejamos melhor a planície onde tantos persistem na batalha pela dignidade usurpada.
E talvez seja por isso que três religiões distintas os conservaram como pilares, reconhecendo secretamente que, acima de dogmas e fronteiras, o divino dobra-se sempre sobre o humano para o libertar. Os arcanjos guardiões do nosso inalienável direito à dignidade. E enquanto a Humanidade não perder de vista o brilho das suas asas, continuará a acreditar que a justiça não é um sonho remoto, mas um horizonte que pulsa dentro de todos nós.
Para compreender a estatura simbólica dos mensageiros Miguel, Gabriel e Rafael é preciso regressar às fontes dos textos matriz do judaísmo, do cristianismo e do islamismo. É nesse chão comum de revelação, que se desenham as silhuetas ardentes das três entidades que não pertencem ao tempo e, no entanto, atravessam a história. Da pluralidade das três tradições, emerge a verdade luminosa de que os arcanjos não são enviados para sustentar tronos, mas para os julgar. Não descem ao mundo para perpetuar estruturas de domínio, mas para as derrubar. Trazem consigo o eco celeste de que o ser humano nasceu para ser livre, para viver sem o peso das opressões que ele próprio fabrica.
Miguel, com a espada erguida, não combate homens, mas tiranias. É o Arcanjo que separa o poder da violência e ensina que nenhuma autoridade é legítima se não for serva do bem comum. Gabriel, cujo nome significa «força de Deus», anuncia uma nova ordem moral, em que a palavra divina recorda ao humano que a verdade não é privilégio, mas alimento universal. Rafael, “Deus cura”, vem restaurar a dignidade dos pobres, a esperança dos aflitos, o corpo coletivo ferido por desigualdades impostas por tiranos.
Nas três religiões com Livro, estes seres de luz não pairam afastados do mundo, antes, descem à poeira dos caminhos humanos para resgatar da terra aquilo que nela nos sufoca. São, em todas as tradições, mensageiros da igualdade, defensores da justiça, arautos de uma liberdade que não é apenas espiritual, mas profundamente humana, a libertação do jugo que, por crueldade, o homem coloca sobre o seu semelhante.
A mais alta pedagogia dos três arcanjos é lembrar-nos a humanidade só ascende, quando se recusa a pactuar com a desigualdade e que os arcanjos continuam a descer porque ainda não terminámos de subir.
Para compreender a universalidade moral e espiritual de Miguel, Gabriel e Rafael, é necessário regressar às suas origens, às raízes comuns que atravessam os veios subterrâneos de uma mesma nascente. Antes de pertencerem a qualquer sistema teológico, os três arcanjos pertencem à imaginação espiritual da Humanidade, onde o sagrado se insinua como sonho e como esperança. Depois, cada religião ergueu os arcanjos à sua maneira, nunca lhes retirando a função, primordial, de mediadores, mensageiros e libertadores.
E talvez por isso Miguel, o mais guerreiro, o mais solar, o mais próximo da ideia de combate justo, tenha deixado a sua marca nos Açores. A ilha de São Miguel não é apenas um topónimo religioso. É uma metáfora geográfica. Uma terra que emergiu do fogo, moldada pela força, persistente no meio do Atlântico, só poderia receber o nome daquele que, nas três religiões, combate com dignidade e justiça. Miguel é o arcanjo da resistência, e São Miguel, a nossa ilha, irrompeu como um altar natural à resistência da própria vida, à coragem dos que a povoaram, dos que aqui com coragem se juntaram e lutam contra todas as vicissitudes, resistiram e lutaram contra uma indizível exploração e sem hesitar, armados de resiliência e sagacidade que ultrapassam os limites humanos, enfrentaram tempestades e sombras de toda ordem, preservando incólume o culto libertador do Divino Espírito Santo, nele guardando o que ainda é puro, o que ainda é possível, o que ainda é semente e fonte eterna de coragem e esperança.
De Jerusalém a Meca, de Roma a São Miguel, a cada passo, os arcanjos acendem no coração humano a lembrança de que nenhuma opressão é destino, nenhum silêncio é definitivo, nenhuma sombra é eterna e que chegará o dia em que a liberdade não será uma promessa adiada, mas uma casa construída por todas as mãos, em que a justiça deixará de ser súplica para se tornar fundamento, em que cada criança, em cada terra e em cada fé, crescerá sem medo e sem fome. Nesse dia os arcanjos poderão finalmente descansar. Porque a humanidade terá aprendido, enfim, a erguer-se por si mesma e a caminhar unida, na construção da paz, da fraternidade, da igualdade e da justiça social.
Henrique Levy *
* Poeta e ficcionista