Contagem decrescente, brindes e promessas de mudanças preenchem os dias que nos levam ao novo ano, marcados por expectativas, balanços pessoais e pela esperança de que o que vem a seguir possa ser melhor.
O Ano Novo costuma provocar um momento de balanço e preparação que desperta esperança e a sensação de um novo começo. Este período convida à reflexão sobre o ano que terminou, às aprendizagens feitas, às conquistas alcançadas e aos desafios enfrentados. Para muitas pessoas, representa uma oportunidade de redefinir prioridades, estabelecer intenções e imaginar mudanças desejadas, funcionando como um marco simbólico que reforça a motivação, o otimismo e a vontade de seguir em frente.
Mas, para muitos, a passagem de ano traz desafios que torna difícil viver o momento com leveza. O final do ano pode trazer pressão, ansiedade e frustração quando os objetivos não foram atingidos, reforçando a ideia de que é “obrigatório” estar feliz. Este período vem frequentemente acompanhado de expectativas elevadas. Deixar para trás o que foi negativo, recomeçar, melhorar a vida pessoal ou profissional e cumprir metas e, quando a realidade não corresponde a esse ideal, surgem sentimentos de tristeza, ansiedade, frustração ou irritação. Para quem enfrenta lutos recentes, conflitos familiares, dificuldades financeiras ou um cansaço emocional acumulado, a passagem de ano pode tornar-se particularmente difícil.
Depois da euforia, chega o dia seguinte. As rotinas regressam e instala-se, por vezes, uma sensação de vazio ou de pressão difícil de explicar. A ideia de que deveríamos estar motivados e cheios de planos para o novo ano pode gerar culpa ou insatisfação, especialmente quando sentimos que não cumprimos as expectativas próprias ou sociais.
Na prática clínica, é comum ouvir pessoas que se sentem sobrecarregadas por esta pressão para recomeçar. A ideia de que “deveríamos estar entusiasmados com o ano novo” invalida emoções legítimas e impede que se fale abertamente sobre elas. Nem todos os finais de ano são momentos de felicidade e festa. Nem todos os planos são fáceis de concretizar. E nem todos os sentimentos se alinham com a celebração.
Cuidar da saúde mental nesta altura passa por ajustar expectativas, respeitar limites e permitir que cada pessoa viva a sua transição à sua maneira. Estar bem não significa cumprir todos os objetivos, nem forçar estados emocionais que não existem, significa escutar o que se sente e procurar apoio quando necessário.
Talvez este novo ano possa começar com um gesto simples, mas poderoso: aceitar que nem todos os finais de ano são vividos com felicidade plena e que isso não nos torna menos dignos de cuidado, compreensão e respeito. Assim, torna-se fundamental apostar no autocuidado, definir metas realistas e validar todas as emoções.
Fique bem, pela sua saúde e a de todos os Açorianos!
Um conselho da Delegação Regional dos Açores da Ordem dos Psicólogos Portugueses.
Rita Miranda*
*Psicóloga Clínica, Mestre em Psicologia Clínica e da Saúde e especializada
em Terapia Cognitivo-Comportamental.
Trabalha com crianças e jovens no CDIJA e é fundadora do Move Dance Crew, unindo dança, juventude e saúde mental.