Há livros que não se limitam a informar, convocando-nos para sentir. Human Nature, da cientista do clima Kate Marvel, é um desses raros textos — 304 páginas — que cruzam ciência e emoção, dados e mitos, rigor e poesia. Publicada em junho de 2025 pela Ecco/Harper Collins, a obra propõe nove emoções como lentes para compreender a biografia da Terra em tempos de mudança climática: maravilha e cólera, culpa e medo, luto e surpresa, orgulho, esperança e força de pertença. Não são apenas estados de alma, mas ferramentas de cidadania, modos de resistir à indiferença e de reencontrar sentido num mundo em transformação.
Marvel escreve a partir de uma sólida experiência como investigadora de modelos climáticos, e recusa a linguagem fria da estatística isolada. Em vez disso, convoca histórias de vulcões e sequoias, imperadores romanos e filmes medíocres, bruxaria e física, para mostrar que a crise climática não é um gráfico distante, mas uma narrativa que nos atravessa. A sua clara e bem tecida proposta leva-nos a compreender que não se pode enfrentar o aquecimento global apenas com cálculos. É preciso reconhecer que sentir é também uma forma de pensar.
A maravilha surge como primeiro gesto. Ao admirar a complexidade da Terra, os oceanos que respiram, as florestas que persistem, reconhece-se que o planeta não é apenas recurso, mas mistério. Nos Açores, onde o mar molda a memória e a identidade, esta maravilha é quotidiana. Mas Marvel lembra que o assombro não basta e que se necessita sentir uma aversão intensa contra os indivíduos e grupos que lucram com a destruição, como contra os sistemas que perpetuam a dependência de combustíveis fósseis.
Segue-se a culpa, inevitável quando percebemos que todos participamos, de algum modo, em práticas insustentáveis. Mas a autora insiste que a imputação não deve paralisar para transformar-se em responsabilidade inadiável. O medo e o luto, por sua vez, são emoções que muitos indivíduos evitam, mas Marvel defende que só encarando a perda — de espécies, de paisagens, de modos de vida — podemos agir com lucidez.
Curiosamente, há espaço para surpresa e orgulho. Surpresa pela resiliência inesperada de comunidades e ecossistemas; orgulho pelas conquistas humanas que mostram que a mudança é possível. E, no final, esperança e força de pertença, não como ilusões, mas como forças radicais. Esperança que nos impede de desistir, força de pertença que nos liga ao mundo e uns aos outros.
Mais do que literatura, esta cartografia emocional é pedagogia para tempos de crise. Ao integrar emoções na narrativa científica, Marvel aproxima o discurso climático das pessoas comuns, tornando-o acessível e urgente. A sua escrita é descrita como esperançosa, dolorosa e, por vezes, divertida — porque até na tragédia há espaço para humor, que também se pode interpretar como resistência. Ao longo da história, o humor foi veículo subtil mas incisivo de protesto contra a indiferença e a falta de iniciativa nos momentos decisivos da experiência humana.
Para comunidades como a açoriana, dispersa entre ilhas e diásporas, esta abordagem tem ressonância particular. O Atlântico é testemunha de vulnerabilidades e de resiliências. O mar que alimenta também ameaça. A terra que acolhe também treme. Sentir estas contradições é parte da identidade coletiva. Ao ler Marvel, percebemos que a luta contra a crise climática não se limita a uma perspetiva técnica, abrangendo uma realidade cultural, simbólica e profundamente humana.
Num tempo em que discursos políticos frequentemente reduzem o ambiente a números ou slogans, Human Nature devolve-nos a dimensão ética e afetiva da questão. Não se trata de escolher entre ciência e emoção, mas de reconhecer que ambas são indispensáveis. A ciência oferece-nos o diagnóstico, e a emoção dá-nos a energia para agir.
Marvel não promete soluções fáceis. O seu livro não é manual de políticas públicas nem guia de consumo verde, constituindo todavia um convite a sentir com honestidade, a aceitar que a tristeza, a raiva ou o medo não são fraquezas, mas sinais de que nos importamos. E, ao cuidarmos da Terra, cuidamos também de nós próprios.
Talvez seja esta a mensagem mais radical: a esperança não é ingenuidade, mas sobretudo coragem para assumir um compromisso sem sentimentalismos, na consciência bem fundada que o ativismo expressa. Num planeta em mudança, estas forças são tão necessárias como qualquer tecnologia.
Nos Açores, onde cada geração aprendeu a viver entre a beleza e a ameaça, o pensamento de Kate Marvel decerto ecoa com profunda convicção porque sentir já é inseparável da noção de resistência. Resistir, afinal, é a forma mais humana de habitar o mundo.
Manuel Leal