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Banalidades da nossa vida

Às vezes sou cirandada por uma perplexidade interrogativa que me desassossega e me confunde: o que é preciso para se começar a escrever uma estória (como se a resposta me pudesse chegar devolvida por um eco imaginário em lufadas concêntricas e esclarecedoras)?
Sim, o que é preciso?
E sabem a conclusão a que cheguei? Pois bem: banalidades, digo-vos eu. Nem mais que banalidades, meus amigos.
Não será a vida que nos coube a cada um de nós tecida de banalidades, recheada das coisas mais prosaicas e desprovidas de sentido? E sendo a escrita uma forma de arte que tão bem a espelha, está tudo dito.
Daí que fazer o papel esperar, alimentar o suspense de ir adiando todos os dias a escrita sempre à espera de que hoje ainda não, talvez amanhã, não vale a pena, meus amigos, acabe-se com o vazio, a indecisão e o sofrido da espera. Um daqueles fios condutores que une e carateriza toda a teia dos humanos no seu trajeto de vida, serve na perfeição. E há, sem dúvida, uma infinidade desses fios caraterizadores, ou não fossemos nós de uma complexidade assustadora e o tecido humano um digno produto final.
E quanto a mim, aquele que mais sobressai dentre todos os outros, é um que dá pelo nome de Solidão. Uma banalidade, como vos disse.
A Solidão, meus amigos, existe em qualquer lugar do mundo.
Em qualquer lugar do mundo pode uma pessoa tateá-la, cheirá-la, abraçá-la, sentindo-a das mais diversas formas, incluindo a de a assumir em pactuação de inevitabilidade e desafio.
Não é uma inevitabilidade qualquer, convenhamos. É a So-li-dão.
Como ela se desdobra nos mais diversos ângulos e círculos que aparamos de peito aberto, porque a Solidão faz parte de nós desde o momento em que nos assumimos como seres conscientes e responsáveis.
Seria desejável que não trouxesse consigo tamanho peso e tamanha angústia. Seria desejável, pensamos nós, e talvez o digamos mesmo em voz alta, sabendo embora ser esse o preço de existir. Conscientes também da previsibilidade destas rabugices de humanos, sempre insatisfeitos mas igualmente hábeis em minorar inexorabilidades e o peso delas.
A verdade é que começamos cedo a dar provas de uma habilidade que não tem outro objetivo a não ser o da libertação e despojamento de tal fardo. Digamos que é um processo ainda incipiente e instintivo no recém-nascido quando ele, ao enfrentar a inospitalidade do mundo cá de fora, se refugia na calidez do sono e do mamar. Mais tarde a fruição dos sentidos tornar-se-á mais apurada permitindo-lhe outros gozos, outros escapes.
Mas o exorcismo por excelência obtê-lo-á através do Amor. Já os gregos sabiam da leveza desses instantes de fusão com a divindade. Quem para então se lembrar de soletrar a Solidão?
Poderá dizer-se com verdade que outro tanto acontece quando enveredamos pelos caminhos da Espiritualidade e da Arte. Nesses momentos de exaltação ou de entrega serena sentimo-nos roçados em proximidade com o divino.
Do que ela é capaz, esta banalidade que apelidámos de Solidão. Como pode pesar na vida de cada um. O poder que ela tem.
Há mesmo quem diga (Shopenhauer) que ela é “a sorte de todos os espíritos excecionais”.
Maria Luísa Soares

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