É incrível o quão depressa passa um ano. O tempo tem essa característica curiosa: quanto mais o vivemos, menos o sentimos. Esconde-se atrás do tédio da vida passageira e escorre-nos pelos dedos sem que a conta seja dada. Caro leitor, lembre-se como um ano demorava uma eternidade quando tinha dez. As estações pareciam intermináveis, o verão nunca mais chegava, as férias grandes uma miragem distante. Quando um ano passava, aos dez anos de idade, equivalia a 10% da sua vida. Era impossível não o sentir. Hoje, se por acaso soma cinquenta primaveras, esse, um ano, é apenas 2% da sua existência. Um piscar de olhos. Um ano encolhe com a idade. Não é poesia. É matemática.
Mas então devemos combater a passagem de um ano?
Devemos procurar travar o tempo?
A pergunta para Nietzsche era outra, e bem mais desagradável: conseguiria viver este ano outra vez? Com os mesmos dias repetidos, a mesma rotina, as mesmas conversas, o mesmo cansaço. Com todos os bons momentos a fugir e os maus que parecem não acabar. Se este ano se repetisse eternamente, reagiria como?
Com alívio? Desespero? Com alegria?
Consigo pressentir em si, caro leitor, uma reação negativa à questão. Talvez devêssemos então olhar para o tempo não como um vilão, mas como um espelho. Um que não acelera nem abranda, mas que simplesmente nos devolve, com frieza, a atitude que temos perante ele.
É também verdade que há uma aceleração peculiar do tempo que só acontece quando surgem crianças nas nossas vidas. Um filho não envelhece em silêncio. Cresce sem pedir licença, sem travar para acompanhar o ritmo do nosso tempo. Ontem o meu filho cabia na palma da minha mão… e eu pensava que era para sempre. A maré virou. Agora remo contra ela, a tentar acompanhar ritmos que não são meus, mas que são, incontornavelmente, da minha responsabilidade. O tempo agora é deles e avança em sprint, o meu uma maratona. Talvez seja isso que um bom pai deve fazer. Não abrandar o tempo, mas abandonar o seu compasso.
Um ano… é incrível como passou depressa. Mas agora, vendo bem, se calhar é relativo. Não era isso que dizia o Einstein? Que a passagem do tempo não é a mesma para todos.
Quem por aí tem um ano controlado e amestrado?
Onde o comprou?
Não conheço ninguém assim, mas não pretendo ser cínico. Acredito que existem aqueles que distorcem o tempo a seu favor, que o aprenderam a lidar com ele e que o aceitam tal como é. Os estoicos falavam disto sem romantismo: não devemos controlar o tempo, mas a relação com ele. Não exigir que modere quando dói, nem que perpetue quando é bom. Apenas estar onde se está. Não temer o fim, mas aceitá-lo e lembrá-lo. Se calhar o ano até nem tenha passado depressa, é possível que o tenhamos perdido porque o atravessámos com pressa.
Não me parece que seja relativo.
Caro leitor, obrigado por ter chegado até aqui. Imagino que não tenha sido fácil de engolir tanta filosofia barata, mas peço que me acompanhe no exercício final. Talvez o truque não seja que o tempo passe mais devagar, talvez até não seja aceitá-lo estoicamente. Este próximo, um ano, não tem sequer de ser perfeito.
Que seja habitável!
Um ano vivido de tal forma que a ideia de o repetir não assuste. Com cansaço, rotinas, falhas, mas também com presença suficiente para que, se alguém nos perguntasse se aceitaríamos vivê-lo outra vez, a reação imediata não fosse um não por instinto.
Um ano que, com tudo o de bom e mau, não precise de ser descrito como x % da sua vida.
Caro leitor, que seja um ano que não se importe de repetir eternamente.
Philip San-Bento Pontes