A gente não precisa de saber das matemáticas
e daquelas rezas que ela bota da boca…
a gente somos filhos de pescadores,
o destino da gente é o mar…
Corre nas redes sociais, o desabafo de um rapaz de 13 anos, que expõe, de forma quase brutal, a fratura profunda entre a escola e aqueles que ela deveria servir. Revelando um sentimento de deslocação, como se a escola fosse um território estrangeiro, onde a linguagem, os saberes e as expetativas não pertencem aos filhos do povo, mas à elite que moldou a instituição à sua própria imagem. O que aqui se denuncia é claro: a escola, tal como foi construída, não foi pensada para todos. Foi organizada segundo valores, ritmos e conteúdos definidos por uma classe dominante que sempre viu a educação como instrumento de reprodução do seu próprio poder. A escola falha porque não sabe dialogar com os saberes do povo, porque não se integra na vida da comunidade, porque nega dignidade ao conhecimento que nasce do trabalho, do mar e da terra. Os filhos das classes constantemente excluídas sentem que não pertencem à escola. Não porque lhes falta capacidade, mas porque a escola nunca se preparou para lhes pertencer. E porque há que educar e isso falha, também. Muitos jovens chegam ao espaço escolar carregando mundos diferentes, saberes práticos, memórias familiares, uma relação com o trabalho e com a vida que não cabe nos manuais nem nos discursos da sala de aula. E o sistema, em vez de acolher essas identidades, trata-as como marginais, como se fossem formas imperfeitas de humanidade.
Nas redes sociais correm as palavras cruas, quase desesperadas, com que um rapaz traduziu o seu mundo. Não se trata de um desabafo de rebeldia gratuita, mas de quem percebeu, cedo demais, que a escola que temos não lhe pertence. Que o seu lugar não está nas aprendizagens da sala de aulas, mas sim no mar, na labuta, no quotidiano invisível das famílias cansadas, fragilizadas pela pobreza e pelo abandono de promessas de igualdade.
Nos Açores, este grito, individual, ecoa numa estatística terrível. A Região continua a liderar os indicadores de pobreza e desigualdade. Em 2023, 24,2% da população estava em risco de pobreza, valor muito acima da média nacional. A privação material severa, a precariedade laboral, a ausência de perspectivas concretas, estruturam uma paisagem de exclusão onde a escola raramente atua como escudo ou porta de escape. E quando se fala de educação, os dados confirmam o drama: 19,1% dos jovens açorianos abandonaram pelo menos um nível de ensino sem o concluir. Um proporção bem superior à média nacional de 16,8% Ainda que a taxa de abandono precoce tenha recuado nos Açores para 21,7% em 2023, continua três vezes maior do que a de muitas regiões do continente. No ano letivo 2023/2024 foram registados 1.815 casos de retenção e desistência escolar na Região, com 323 alunos a não renovar matrícula no 12.º ano. Estes números não são meramente estatísticos. São vidas que se dissolvem, sonhos que se estilhaçam, futuros arrancados antes de sequer começarem. Este abandono não ocorre por acaso, nem por preguiça ou falta de interesse. Ele resulta da persistente exclusão social. Da pobreza que tolhe escolhas, da precariedade que mina dignidades, da desvalorização histórica das crianças que nascem em famílias sempre ostracizadas. A escola pública, idealizada como espaço de ascensão e igualdade, transforma-se muitas vezes em instrumento de reprodução da desigualdade. Exige saber académico, currículo abstrato, ritmos padronizados e universais, esquecendo quem vive em função do mar, da terra, da dureza da labuta, da instabilidade do rendimento ou numa constrangedora pobreza.
A escola, tal como existe, não conversa com a vida de grande parte dos jovens que a frequentam, ignora a cultura popular, os saberes práticos, a experiência do trabalho, a ancestralidade coletiva. É urgente transformar essa escola. Mas não apenas com programas de «reintegração», «combate ao abandono» ou «reforço escolar». Essas medidas são bem-vindas, mas, como informam as estatísticas, insuficientes. O que o arquipélago precisa é de Currículos contextualizados, que valorizem a cultura açoriana, os saberes do mar e da terra, as histórias das comunidades. Torna-se cada vez mais urgente, incrementar políticas de apoio real às famílias, combate à pobreza, garantia de rendimentos dignos, emprego estável. Só assim a escola deixará de competir com a urgência da sobrevivência. É essencial a criação de serviços de inclusão social, orientação e acompanhamento durante a escolaridade, sobretudo em zonas com maior vulnerabilidade, para que o abandono não seja a única saída possível. Infra-estruturas e recursos adequados. Não podemos adiar mais o reconhecimento dos saberes do mundo do trabalho, da pesca, da agricultura, da construção, como parte legítima da formação, valorizando trajetórias e identidades, abrindo caminhos reais de futuro.
A educação não pode ser privilégio de quem já tem estabilidade. A escola deve ser o espaço de afirmação dos que nasceram com menos, não de exclusão dos que vivem com menos. Que a voz deste jovem e de tantos outros, que pensam da mesma forma, não seja ignorada. Que se transforme em motor de uma mudança profunda. Que os Açores deixem de ser o arquipélago dos números tristes. Que a escola se reinvente como casa comum, como possibilidade real.
Espero que os responsáveis pelas políticas educativas não adormeçam sobre o grito. O destino da gente é o mar…
A sociedade açoriana devia empenhar-se em transformar a escola no ponto de partida de outros destinos.
Henrique Levy *
* Poeta e ficcionista