A Professora Alice Costa podia, como tantas mulheres da sua época, ter seguido discretamente a sua carreira docente e nada mais. Mas não. Desde que a conheço, tinha eu os meus dez ou onze anos, foi sempre alguém que se destacava muito para lá do horário escolar. Talvez por eu ser miúdo e viver fascinado por tudo o que fosse desporto e ela ser professora de Educação Física. Ou talvez porque havia nela qualquer coisa que simplesmente não se ensinava. Energia pura. Daquela que parecia vir das famosas pilhas que nunca acabam.
De dia dava aulas. Ao fim da tarde enchia o pavilhão com sessões de ginástica abertas à população da Praia da Vitória. Estamos a falar dos anos 90. Não havia ginásios por todo o lado, nem planos de treino personalizados, nem a cultura de bem-estar que hoje nos é tão familiar. Na altura, alguns sortudos conseguiam arranjar as míticas cassetes VHS da Jane Fonda na Base Americana. Nós, por cá, tínhamos a versão ao vivo e a cores. A Professora Alice.
Recordo-me de assistir a uma dessas aulas e ficar cansado só de olhar. A voz firme, a energia contagiante, aqueles incentivos que ecoavam pelo pavilhão inteiro e faziam levantar até quem vinha só acompanhar. Era impossível não ser arrastado por aquele entusiasmo. Era impossível não admirar aquela força.
Mas a Professora Alice nunca soube viver a meio gás. Criou o clube ADREP na EBI Francisco Ornelas da Câmara, começando pela patinagem de velocidade. Tinha um talento raro para juntar pessoas, mover vontades e fazer nascer projetos onde muitos nem sabiam que eles podiam existir. Lembro-me como se fosse hoje dela estacionada junto à Zona Verde da Praia, porta da bagageira aberta e o carro cheio de patins para distribuir. Era o início dos anos 90 e nada era fácil como agora. Faltavam recursos, sobrava vontade. E vontade era algo que nunca lhe faltou.
Para ela, o desporto era muito mais do que competição. Era uma ferramenta para criar comunidade, promover saúde e abrir horizontes. Organizou torneios de jogos de verão, dinamizou atividades para toda a gente e até conseguiu montar um insuflável de polo aquático na própria baía. Imaginem o que é chegar à Praia num dia de verão e ver montado um campo de polo aquático. Nos Açores. Na Praia da Vitória. Nenhum de nós sabia bem como aquilo se jogava, mas isso nunca impediu ninguém de experimentar. E era essa a magia que ela trazia. Transformava o improvável em possível.
E não se ficou pelo desporto. Muito longe disso. Ainda no ativo, assumiu a direção do CAD, o Centro de Apoio à Deficiência. Lembro-me bem de ouvir as dúvidas que lhe colocavam. Mas ó Alice, achas mesmo que precisamos de um centro e de um edifício para isto na Praia. Pois bem. Hoje esse centro existe. É bonito, funcional e, acima de tudo, está cheio. A capacidade já mal chega para a procura. Porque a Professora Alice sempre viu o futuro antes de todos nós. Porque ela sabia que a dignidade não espera pela oportunidade perfeita.
E como se tudo isto não bastasse, continua ativa na LADA, a Liga dos Amigos dos Doentes dos Açores. Continua a dar o seu tempo, a sua presença e a sua energia a quem mais precisa. A reforma não lhe tirou o ritmo. Apenas lhe deu outro palco.
Finalizo este artigo com um grande obrigado à Professora Alice Costa. Tenho a certeza de que este meu obrigado vale por centenas. Todos aqueles que cruzaram caminho com ela, nas aulas, no desporto, no associativismo ou no apoio social, sabem bem o impacto que ela deixou. Se hoje tivéssemos mais pessoas como a Professora Alice, estou convicto de que viveríamos numa sociedade mais atenta, mais ativa e certamente mais generosa.
Obrigado, Professora Alice. Por tudo o que fez e por tudo o que continua a inspirar.
Carlos Pinheiro