“Temos no entanto de salientar, quanto a nós, a situação complicadíssima que rege as relações políticas e económicas entre os Estados Unidos, a Rússia e a China. A invasão da Venezuela por decisão de Trump, permite a Putin admitir estar certo na sua “operação especial” na Ucrânia e “abre o apetite” para Xi, o presidente chinês, consumar a decisão de invadir Taiwan, que reclama ser parte integrante da China.”
Enfim, após as expetativas que criamos para a entrada no novo ano de 2026, cá estamos com a primeira surpresa, a nível internacional, pela decisão de Trump invadir a Venezuela.
Ao criar a situação “demonizando” Maduro, mais propriamente as suas ações como presidente da Venezuela, verifica-se no final que o problema não é(era) o regime em vigor mas sim o presidente do país e respetiva família. Prova disto é o facto de Trump estar agora com um problema associado a um “regime que persiste”, que afirma que está vivo através da ainda vice-presidente do governo, e que afirma a sua decisão de não aceitar Trump como o “protetor/decisor” da politica futura da Venezuela, chegando a exigir a “devolução” do ex-governante para ser julgado na Venezuela.
Após ter preparado, desde agosto do ano transato, um plano de intervenção, Trump identificou como objetivos, os seguintes aspetos: fazer um upgrade em termos da democracia vigente na Venezuela; acabar com o narcotráfico, o qual assumiu existir com o beneplácito de Maduro, tendo iniciado nos últimos meses um “policiamento” do mar das Caraíbas de modo assaz violento e auto justificado com a introdução dos estupefacientes nos Estados Unidos; por último, mas provavelmente o de maior importância, o objetivo de resgatar os ativos americanos na área petrolífera, nacionalizados pelo chavismo, através das decisões politicas sobre a exploração petrolífera venezuelana.
A Venezuela durante décadas viveu em democracia, tendo nos últimos vinte e cinco anos um regime denominado chavismo, identificado inicialmente com a esquerda, degenerando rapidamente para uma governação não democrática e desenvolvendo um elevado nível de corrupção associada à área petrolífera, a prisões aleatórias de cidadãos ao abrigo de duvidosas decisões políticas e com um baixo nível de vida social e económica das populações.
Existem comparações entre aquilo que se passou na Venezuela com as ameaças formuladas durante o primeiro mandato por Trump e com a situação criada por governos americanos no Afeganistão, no Iraque ou mesmo na Síria. Os resultados destas intervenções, tendo por objetivo a criação/manutenção da democracia, deram origem a situações de verdadeiro terror para os habitantes dos países intervencionados e foram sem dúvida verdadeiros fracassos americanos.
Os Estados Unidos estão ainda hoje a pagar, muitíssimo caro, o resultado dos atoleiros que criaram, por exemplo, no Afeganistão e no Iraque. Enquanto tais intervenções ocorreram, a China foi consolidando as suas políticas, atingindo os objetivos por si pré-definidos, de tal modo que atualmente têm um potencial de influência mundial em detrimento da América, nomeadamente a nível económico e financeiro.
Trump, em relação à intervenção que fez na Venezuela, está agora perante uma situação critica com o regime a sobreviver. Primeiro devido à imposição pela assembleia do país de empossar como presidente a ainda vice-presidente do regime de Maduro, como referimos; em segundo, porque Corina Machado, prémio Nobel da Paz, não concorreu ás eleições de 2024 e legalmente não pode ocupar o cargo de presidente; e em terceiro porque González Urrutia, candidato opositor nas referidas eleições (e que se admite ter ganho as mesmas) e a quem não foi dado, como seria natural, a possibilidade de tomar posse e governar a Venezuela de que por direito é o presidente eleito.
Delcy Rodriguez, a ainda vice-presidente, foi indigitada presidente da Venezuela (pelo menos interinamente e até novas eleições) pese embora Trump tenha afirmado que “não” e numa fase posterior desse o “dito por não dito”, consentimento. Aliás nada de novo com esta situação, dadas as numerosas afirmações/decisões tomadas pelo presidente americano e que se caraterizaram por serem atabalhoadíssimas ou no mínimo duvidosas numa mente sã.
A instabilidade politica está patente no país e com a existência de armas distribuídas por Chaves e posteriormente por Maduro a grupos de influência, nomeadamente ligados ao narcotráfico, temos uma situação a que apenas falta adicionar um indutor para que o “barril de pólvora” possa deflagrar numa guerra civil.
Assumir uma segunda intervenção americana, desta vez contra o regime, não é o mesmo que justificar o ataque à família Maduro. De salientar que na economia da Venezuela está bem patente o apoio, em termos de milhares de milhões de dólares, na área petrolífera e da extração de minerais e formação militar, por parte da China e Rússia. Tudo isto para além de existirem no país conhecidos movimentos terroristas associados ao Irão, os quais atuam no médio oriente, e cubanos.
No entretanto não devemos esquecer o duvidoso passado governativo de Trump, o qual recentemente mandou deter e extraditar para os Estados Unidos o presidente das Honduras de nome Juan Hernández, tendo como objetivo responder por acusações federais de tráfico de drogas e posse de armas. Condenado a 45 anos de prisão, Hernández foi perdoado por decisão de Trump, que lhe concedeu uma amnistia completo. No entretanto, as autoridades hondurenhas emitiram um mandato internacional de prisão contra o ex-presidente das Honduras, o qual se encontra ativo, por fraude e lavagem e dinheiro. Será que o mesmo virá a acontecer no futuro, perante a condenação e prisão da familia Maduro e como decisão de Trump?
Temos no entanto de salientar, quanto a nós, a situação complicadíssima que rege as relações políticas e económicas entre os Estados Unidos, a Rússia e a China. A invasão da Venezuela por decisão de Trump, permite a Putin admitir estar certo na sua “operação especial” na Ucrânia e “abre o apetite” para Xi, o presidente chinês, consumar a decisão de invadir Taiwan, que reclama ser parte integrante da China. Estão os três a olhar entre si, para o que faz cada um e lhes servirá de justificação para satisfazer os exacerbados desejos bélicos.
Mas será tudo isto resultado de decisões políticas definidas individualmente por cada presidente ou fundamentalmente estas ações resultam apenas do facto de quererem uma hegemonia económica que os posicione, na escala dos três países, como o mais importante mundialmente.
Trump e Putin procuram usufruir (chamar-lhe-ia roubar) ao máximo as riquezas naturais existentes nos países que invadem – o primeiro na Venezuela com o petróleo, ouro, diamantes e outros minerais; o segundo com as terras ucranianas denominadas “ricas”. Quanto a Xi já avisou que irá “exercer o seu direito sobre Taiwan” no decurso de 2027, igualmente pelas possibilidades económicas aí existentes, nomeadamente a maior fábrica mundial produtora de chipes.
Taiwan conta com o acordo de proteção com os Estados Unidos, o que de certo condiciona o desejo de invasão pela China. Estou certo de que este acordo, por parte da América, se manterá até finalizarem o projeto de construção, já em execução, da maior fábrica americana mundial de chipes. Concluído o investimento americano e a China decidido invadir Taiwan, estou a ver Trump esquecer o seu acordo de proteção e assistir sentado no sofá da sala oval. Quando muito irá tentar ganhar mais uns biliões de dólares vendendo mais material bélico a Taiwan.
Ainda só passaram seis dias desde o início do ano de 2026. Que surpresas nos reservarão estes “donos do mundo” durante os restantes trezentos e trinta e nove? São muitos dias para conseguirem estar sossegados! Deveriam para estarem ocupados, jogar entre os três à “roleta russa”. Talvez assim o mundo tivesse hipótese de descansar um pouco.
J. Rosa Nunes
Prof. Doutor