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Casa dos Segredos Presidencial

Caro leitor, por mero acaso tive acesso a esta realidade paralela e escrevo aqui como um humilde jornalista, limitado a relatar os factos tal como foram observados. Encontro-me vinculado por uma deontologia rígida que me impede, sob pena de descrédito profissional, de me desviar da veracidade do que a seguir descrevo.
Por exemplo, neste universo em questão, o nome mais comum entre os homens é Cajó, e todas as pessoas têm seis dedos em cada mão (a seguir ao fura bolos e o mata piolhos ainda têm o rebenta balões, que têm uma unha característica capaz de romper membranas plásticas facilmente). Nesta realidade paralela os Presidentes da República não são eleitos por debates, programas eleitorais ou slogans marcantes. São escolhidos da única forma que o povo realmente aceita como verdadeiramente democrática: vencendo a Casa dos Segredos.
Ainda assim, nada disso me surpreendeu tanto como duas outras constatações: primeiro, Marcelo Rebelo de Sousa é, nesta realidade, a Voz; segundo, por mais incrível que pareça, os candidatos presidenciais são exatamente os mesmos.
Pensando bem, talvez as diferenças não sejam assim tão flagrantes. Tirando os seis dedos, os Cajós e o facto de a Voz não aparecer constantemente nas fotografias, é quase tudo igual.
A cerimónia inaugural do concurso decorre com grande pompa e circunstância. A apresentadora do programa, Cristimas Carpinteira, tem uma voz agradável e radiofónica. Luzes, vídeos e grafismos vão dando a conhecer os participantes de uma forma estilizada. A plateia em êxtase, abraça este sufrágio com alegria descomplexada. Dançam ao som de música pumba (pimba, na nossa realidade) com movimentos aleatórios e exuberantes.
À semelhança do formato original da nossa realidade, alguns segredos são revelados logo à entrada dos candidatos. Outros são mantidos em mistério, devidamente guardados para oferecer suspense e subir as audiências. Marcelo Rebelo de Sousa, observa tudo do alto, insatisfeito por não aparecer, mas sempre pronto para um comentário, por mais banal que se possa imaginar que seja.
O primeiro concorrente a entrar é António José Seguro. Cristimas anuncia o seu segredo após uma pausa prolongada para efeito dramático: “Fiz um transplante de personalidade que correu mal.” A câmara aproxima-se do concorrente que acena, com educação, perante uma audiência emocionada. Intrigado, fiz o que qualquer jornalista responsável faria: consultei a revista Caras desta realidade alternativa. Segundo a publicação, para este tipo de cirurgia ser bem-sucedida, explica um especialista, seria necessário ter uma personalidade à partida. Um pormenor que, por lapso, não foi verificado antes do procedimento.
Os restantes candidatos são devidamente apresentados e cedo começam as antipatias dentro da casa. André Ventura, cinco minutos após a entrada na casa carrega no botão dos segredos. Sem hesitar, desvenda o segredo de um colega participante, vociferando assistido de cuspo projetado: “Marques Mendes é o cúmplice da Voz”. Este era óbvio até para mim, visitante de uma realidade paralela. Confesso que tive de me esconder bem durante estes dias, não fosse identificado, pelo Ventura, como um imigrante interdimensional.
A primeira expulsão na casa foi a de Catarina Martins. Passou os primeiros dias isolada, a falar para um corredor longo que devolvia um eco alto. A produção considerou, após 72 horas, que não reunia condições psiquiátricas para continuar em jogo. Mais tarde veio a descobrir-se que não se tratava de um eco, mas sim de Jorge Pinto, candidato do Livre, que se encontrava escondido no fundo do corredor. Foi uma descoberta perturbadora. Não conseguiram de facto, ao longo de dias de conversa contínua, perceber que não se tratava de ecos num corredor, tal era a semelhança discursiva e ideológica dos candidatos. Triste…
O episódio mais marcante desta edição da Casa dos Segredos Presidencial, envolveu vários candidatos e uma despensa vazia. Tudo começou quando António Filipe, do PCP, decidiu esconder toda a comida da casa. Fê-lo com método, e boa intenção, afirmando que mantimentos seriam redistribuídos de forma justa, faseada, de acordo com as necessidades objetivas de cada e mediante de deliberação coletiva futura. Durante dois dias ninguém comeu.
No terceiro dia o Almirante Gouveia e Melo, utilizando o seu treino militar, entrou em ação e lançou uma operação de reconhecimento. Rapidamente descobriu que o candidato do PCP, estava a consumir tudo às escondidas. O confronto que se seguiu gerou uma confusão tremenda. Perante as provas irrefutáveis do Almirante, António Filipe limitou-se a responder: A fome é transitória, mas o princípio é eterno. Uma enorme cena de pancadaria culminou no candidato Cotrim de Figueiredo a descobrir o segredo do candidato do PCP: “Eu sei que o comunismo não funciona, mas agora é tarde demais.” O candidato liberal subiu de imediato na aprovação pública, ultrapassando Gouveia e Melo que por agora ocupava todo o seu tempo a jogar à sueca com Marques Mendes. Ambos faziam renúncias repetidamente, e Marques Mendes usava os trunfos todos no início do jogo.
Infelizmente violência do concurso levou o Presidente da República em funções, Manuel João Vieira, a terminar o concurso por decreto.
Marcelo suspirou, antecipando o regresso à irrelevância, conclui:
“Eu sou a Voz. Estamos bem amanhados…”

Philip San-Bento Pontes

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