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Ficar à janela ou a predação cognitivada velhice: aprender a ser só na era Digital

“A solidão mede-se pelos estalos dos móveis à noite quando a poltrona em que me sento de súbito desconfortável, enorme, (…) e um pingo de torneira que atravessa o escuro desde a cozinha aqui ou um gonzo de janela, quase vivo, a bater não sei onde, e qualquer coisa, encostada ao caixilho, a repetir o meu nome (…)”António Lobo Antunes (2022), “O Tamanho do Mundo”

Nos idos anos da década de 1990, proliferavam na televisão programas de discussão sobre a internet e seu futuro, como se fossem clubes de leitura de romances de Isaac Asimov. Num episódio do programa “Falatório” da RTP, assistimos condescendentes, deste lado do futuro, Clara Ferreira Alves questionar sardonicamente Mariano Gago sobre a excessiva promessa da inteligência binária de motores de busca como o Google. Dificilmente podemos, hoje, assistir a esses debates sem termos a frase de Arthur C. Clarke, segundo a qual “qualquer tecnologia suficientemente avançada será indistinguível de magia”, a tocar como música de fundo. Nada nos poderia corroborar esta proposição mais do que este nosso tempo de algoritmos, Open AI e deepfakes.
Já todos passámos por isto: um tio que nos envia um vídeo de um animal afazer algo fisicamente impossível, uma avó que partilha nas redes sociais um vídeo de uma situação claramente encenada, uma mãe que partilha uma frase com a estética de um coach atribuída falsamente a Fernando Pessoa, um pai que partilha nas redes sociais um texto atroador escrito por um anónimo numa cave esquecida como se fosse uma peça de jornalismo de investigação. Se é certo que o impacto sociopolítico e na saúde da internet e das redes sociais nas nossas crianças e adolescentes tem sido devidamente alvo de preocupação, o seu impacto nas populações sénior tem sido, como muitos outros aspetos nesta população, quase inteiramente esquecido.
A crescente sofisticação de algoritmos de inteligência artificial, capazes de criar e direcionar mensagens que são autênticas fotografias, ainda que desbotadas, da nossa alma, e de explorar fragilidades socioemocionais como a solidão ou a náusea existencial, torna os idosos particularmente vulneráveis a narrativas manipuladoras de campanhas políticas que lucram com a distorção dos factos, e de interesses económicos que lucram com a vampirização dos idosos. Se é certo que uma atitude neoludita não nos ajudará a responder aos desafios do envelhecimento progressivo da população mundial, não podemos deixar ao abandono tecnológico uma população tendencialmente com baixa literacia digital, e para quem o scroll infinito nas redes sociais funciona como uma forma de ficar àjanela de casa a ver a vida da vila a passar. Alocarmos fundos e desenvolvermos medidas para reduzir a solidão e dotar os nossos idosos de capacidade crítica no mundo digital predador é não apenas um imperativo ético, mas também uma necessidade protetora da nossa saúde democrática.
Fique bem, pela sua saúde e de todos os Açorianos!
Um conselho da Delegação Regional dos Açores da Ordem dos Psicólogos Portugueses.
Sérgio Andrade Carvalho *
*Investigador Doutorado CINEICC
Professor Auxiliar Convidado Faculdade de Psicologia e da Ciências
da Educação da Universidade de Coimbra

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