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Fragmentos parauma Crítica do Consenso

Entre a tempestade do progresso
e a exigência de justiça

Na nona tese do seu ensaio Sobre o Conceito de História, o filósofo e crítico Walter Benjamin refere um anjo que olha para a história com os olhos escancarados. Vê nela não uma sucessão de conquistas, mas um amontoado de ruínas que crescem a seus pés. Gostaria de deter-se, de acordar os mortos, de recompor o que foi quebrado. Mas uma tempestade sopra do paraíso, prende-se-lhe nas asas e empurra-o inexoravelmente para o futuro. Essa tempestade chama-se progresso. É sob o seu vendaval que ainda hoje vivemos.
O nosso tempo sofre de excesso de cálculo. Nunca houve tanta informação, tanta estatística, tanta previsão, e nunca tão pouca interrupção. Sabemos tudo, compreendemos tudo, contextualizamos tudo, e por isso mesmo nada fazemos. Opina-se com prudência, indigna-se com cautela, protesta-se sem risco. O medo deixou de ser uma emoção, tornou-se um dispositivo. Governa silenciosamente os povos, as palavras e as consciências. Chamou-se «moderação» a esta rendição. Não a moderação evangélica, que liberta do ego e se abre à justiça, mas a moderação como técnica de neutralização do conflito. Uma moderação que tudo torna complexo, tudo relativiza, tudo suspende. Sabendo que em certos momentos históricos, não nomear o opressor é já tomar o seu partido.
Quando ninguém quer incomodar, a injustiça governa em paz. Uma paz falsa, administrada, higienizada. A paz dos cemitérios sociais. É a paz que Benjamin reconheceria como continuidade da catástrofe. O colapso súbito. A normalização do intolerável a impedir avanços e a acumular destroços. E cada silêncio cúmplice acrescenta mais um fragmento às ruínas.
O maior «triunfo» do nosso tempo não é a censura explícita, mas a autocensura interiorizada. Não é o autoritarismo declarado, mas o consenso frouxo que tudo tolera, exceto a coragem. Um consenso que se diz plural, mas teme a palavra profética. Que se afirma democrático, mas desconfia de toda a interrupção. Acredita-se ingenuamente que o tempo resolverá tudo e que o progresso acabará por redimir as injustiças. Os povos parecem terem esquecido que o tempo não salva. O tempo precisa de ser salvo.
A esperança não pode ser otimista, tem de se mostrar trágica e ativa. Não nos pode consolar, deve convocar-nos para a liberdade, exigindo-nos corajosas decisões. Não podemos abdicar desta exigência ética. Não podemos separar justiça de memória. Política de compaixão. Análise de responsabilidade. A redenção pertence aos vencidos.
A pergunta decisiva não é quem somos, mas o que aceitamos. Porque aquilo que hoje se tolera em silêncio torna-se amanhã lei. E nenhuma geração será absolvida por ter visto o anjo da história ser empurrado para a frente e ter escolhido não tentar deter, nem que fosse por um instante, a força da opressão, da exclusão e da injustiça.
Há ainda uma outra figura discreta desta paisagem moral. A dos que, para conservar o lugar que ocupam, aprendem a curvar a linguagem. São os que ajustam convicções como quem ajusta gravatas. Os que retiram do discurso as palavras tornadas perigosas e apagam genealogias ideológicas como se fossem pecados de juventude. Não se trata de amadurecimento, mas de cálculo. A proximidade ao poder exige-lhes uma coreografia de fidelidades sucessivas, sempre provisórias, sempre oportunas. Assim, não raras vezes, ocupam cargos para os quais não estão preparados, nem ética nem intelectualmente, mas que defendem com zelo, confundindo função com identidade. Walter Benjamin reconheceria aqui uma forma subtil de traição histórica, própria dos administradores do presente que sacrificam a verdade à sobrevivência, e a memória à conveniência. São eles que ajudam a tempestade a soprar com mais força, enquanto fingem não sentir o vento.

Henrique Levy *
* Poeta e ficcionista

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