Passado o Natal e Ano Novo, desmontadas as luzes e com os primeiros ecos do Carnaval já a fazerem cócegas ao ambiente, dá vontade de fazer aquele balanço da quadra, um misto de solenidade improvisada e ironia inevitável. Caso contrário, a vida nos Açores ficava demasiado séria e ninguém tem tempo para isso.
O Natal, para variar, fez-se discreto por estas bandas. Nada de tempestades cinematográficas, furacões com ambições de protagonista ou danos daqueles que obrigam os açorianos a inaugurar novas expressões para descrever o mau tempo. Dentro do possível, tivemos um Natal sossegado, o que aqui já se aproxima de milagre.
Claro que a crise sísmica na Terceira apareceu para lembrar que moramos em cima de um puzzle geológico que gosta de se mexer quando lhe apetece. E o maior abanão do início do ano nem sequer veio do solo. Veio da notícia relâmpago de que os Estados Unidos teriam atacado a Venezuela. Um choque seco e rápido, aquela sensação tão familiar quanto abrir a conta bancária uns dias depois do ordenado. O tremor não está na Terra, está no espírito.
Por estas ilhas, o habitual rumor açoriano, que começa num murmúrio tímido e se transforma num eco generalizado quase sem darmos por isso, entrou rapidamente em modo de fantasia. Se a Venezuela tinha sido alvo de um ataque, por que motivo os Açores não poderiam entrar na mesma lógica? É verdade que não temos petróleo, mas a Base das Lajes, para alguns raciocínios mais criativos, parece servir de equivalente simbólico.
Num abrir e fechar de olhos, a Venezuela voltou a ser tema de conversa nos cafés, algo que não acontecia desde os dias infindáveis da história do ferry Atlântida. O famoso navio, apresentado por Carlos César como futura referência do transporte regional, acabou por transformar-se numa espécie de lenda moderna. Toda a gente dizia conhecer a história, poucos chegaram a ver o barco, ninguém o utilizou e, no final, Vasco Cordeiro acabou por lhe negar entrada.
E ainda assim, décadas depois do naufrágio político do Atlântida, o PS Açores surgiu novamente a defender o transporte marítimo de passageiros. Ironias do destino. À velocidade a que certas decisões andam por estas ilhas, talvez os 16,9 nós do Atlântida fossem hoje considerados alta velocidade. O barco, coitado, acabou na Venezuela, uma nota de rodapé digna de partilhar espaço com a epopeia dos computadores Magalhães.
Quanto a Donald Trump e companhia, goste-se ou não do estilo, talvez valesse a pena colocar a imaginação ao serviço de coisas mais úteis do que teorias de invasão. Vejam bem as possibilidades. Talvez nos devolvessem o Atlântida, talvez a SATA descobrisse finalmente o significado da expressão “plano de negócios” e talvez até alguém desse um jeito nas dívidas que por cá brotam como hortênsias. Convenhamos: sem petróleo venezuelano e sem milagres, certos números não batem certo, mesmo rezando muito a todos os santos.
Espero não ter provocado urticária política a ninguém. Mas com o Carnaval terceirense à porta, é bom lembrar a regra de ouro desta época: é Carnaval, ninguém leva a mal, especialmente quando entre piadas e exageros se dizem verdades que, de outra forma, custariam bem mais a engolir.
Carlos Pinheiro