Herdámos um mundo de esperança, mas corremos o risco de deixar às gerações vindouras um planeta fragmentado e em colapso. Entre guerras que julgávamos extintas, uma emergência climática sem precedentes e uma ordem global que se desmorona, a política tradicional parece ter esgotado as suas respostas. Estaremos ainda a tempo de evitar a descida ao caos ou precisamos de um novo renascimento intelectual?
Nasci na década de 1950, num mundo que emergia de duas guerras catastróficas. A minha geração cresceu alimentada pela esperança de que a Humanidade, após tanto sofrimento, aprenderia finalmente a construir um futuro assente na paz e na cooperação.
Durante décadas, acreditei que a razão prevaleceria sobre as crises. Hoje, pela primeira vez, esse otimismo parece estar seriamente ameaçado.
A era do pós-guerra trouxe conquistas extraordinárias: a criação das Nações Unidas, avanços científicos que revolucionaram a medicina e o desmantelamento de impérios coloniais. Por algum tempo, a unidade global pareceu um destino alcançável.
Contudo, a história raramente é uma linha reta. O otimismo da minha juventude colidiu com uma realidade dura: o mundo está novamente fragmentado e as forças que nos dividem ganharam um novo fôlego.
Um planeta sob pressão extrema
Atualmente, enfrentamos crises múltiplas e simultâneas. As alterações climáticas deixaram de ser alertas distantes para se tornarem manchetes diárias de eventos extremos.
Embora a recente COP28 tenha sublinhado a urgência de abandonar os combustíveis fósseis, os compromissos continuam a ser voluntários e carecem de fiscalização eficaz.
Paralelamente, um modelo económico focado no consumo desenfreado e no lucro imediato continua a aprofundar as desigualdades e a desgastar a sustentabilidade do planeta.
O regresso da confrontação geopolítica
No plano geopolítico, o cenário é cada vez mais explosivo. A invasão da Ucrânia pela Rússia destruiu a ilusão de uma Europa estável e o interminável conflito israelo-palestiniano continua a alimentar ciclos de violência sem solução à vista.
No continente americano, eventos dramáticos como a recente detenção e extradição do ditador venezuelano Nicolás Maduro pelos EUA acentuam a instabilidade e as tensões ideológicas regionais.
Com a crescente assertividade da China e a polarização extrema nos Estados Unidos, assistimos a um recuo global das normas diplomáticas e democráticas.
O mundo parece ter abandonado a via da cooperação em favor de um caminho de confrontação direta e imprevisível.
Este fracasso da governação não é um conceito abstrato; é algo pessoal. Ao olhar para o meu neto de seis anos, pergunto-me que mundo o espera: um planeta paralisado pelo colapso ecológico e pelo nacionalismo, ou um lugar onde ainda vamos a tempo de mudar de rumo?
Para lá das estruturas políticas atuais
Recuso-me a ceder ao desespero, mas estou convencido de que a solução não virá das estruturas políticas existentes, demasiado presas a interesses instalados.
A mudança deve surgir de forças intelectuais e culturais que transcendem fronteiras: académicos, artistas e cientistas capazes de desenhar um novo modelo de governação global que priorize a Humanidade e não os interesses de nações ou partidos.
Isto não é uma utopia, mas uma necessidade vital. A alternativa é a descida ao caos, onde os conflitos por recursos e os regimes autoritários se tornam a norma. Precisamos de um movimento global que defenda:
A preservação ambiental como um princípio inegociável;
Modelos económicos sustentáveis que combatam a exploração e a desigualdade;
Sistemas políticos transparentes que resistam à maré do populismo;
Educação para a cidadania global, promovendo o pensamento crítico contra a desinformação.
Um novo renascimento moral
A tecnologia, por si só, não basta. Precisamos de um renascimento moral e intelectual, um despertar para a realidade de que a nossa sobrevivência depende da unidade.
A história ensina-nos que as grandes crises podem ser catalisadoras de transformações profundas. As guerras mundiais deram origem a instituições que moldaram o século XX; as crises atuais exigem uma resposta ainda mais audaz.
É tempo de os visionários assumirem a liderança e elaborarem o plano para uma nova era, na qual a Humanidade se governe como um só povo, unido pela responsabilidade partilhada.
Pelos nossos netos e pelas gerações vindouras, não podemos falhar.
Luís Silva*
*Fazedor de coisas