Há um ruído de fundo no mundo. Vem das guerras, dos discursos inflamados, da erosão das democracias e da ameaça climática. Abre-se o telejornal como quem abre uma janela para um incêndio. O medo já não é visita, é a paisagem. Circula entre nós, infiltra-se nas conversas e instala-se nos corpos.
Uma das emoções mais primitivas, foi ele que ensinou os nossos antepassados a fugir, a esconder-se, a sobreviver. O medo é a sentinela que nos afina os sentidos, acelera-nos o coração e prepara-nos para a ação. Sem ele, atravessaríamos estradas sem olhar, confiaríamos em demasia, morreríamos cedo. Porque há um medo que protege e que nos orienta. E há outro que nos limita e consome.
O problema começa quando o medo deixa de responder ao real e passa a governá-lo. Quando já não sinaliza o perigo, mas produz muros. Quando deixa de ser reação e passa a ser identidade. Ter cautela diante do mar quando não se sabe nadar, é sabedoria. Silenciar-se sistematicamente por receio do olhar alheio é amputação.
Nas fobias, o medo torna-se tirano. Não avisa, ordena. Não informa, isola. Pode parecer pequeno visto de fora — um elevador, um animal, um espaço aberto, uma palavra. Por dentro, é absoluto. Exaure, limita, rouba oportunidades, instala a vergonha. Importa dizê-lo com clareza, nenhum medo é ridículo para quem o habita.
Para combater o medo temos de começar por reconhece-lo. Nomear. Falar. A validação não elimina o medo, mas retira-o do silêncio, e o silêncio é o seu principal aliado. Evitar sistematicamente o que assusta tende a fortalece-lo, por isso, a exposição gradual, consciente e respeitadora do ritmo individual, é uma das vias mais eficazes para o enfraquecer. Não é forçar, é aproximar, é acender a luz quando está escuro e ir corajosamente à procura do monstro. Porque talvez ele nem seja assim tão forte ou assustador. Construir experiências onde o corpo aprende, devagar, que nem toda a antecipação se cumpre.
A relação é outro antídoto. Pequenos grupos. Presenças seguras. Conversas regulares. O medo cresce no isolamento e reorganiza-se no vínculo. O apoio emocional consistente não é distração, é regulação. É no encontro que o sistema nervoso reaprende a diferença entre ameaça e possibilidade.
Não reforçar o medo é uma responsabilidade coletiva. Nem através da desvalorização, que humilha, nem através da fuga, que confirma o mundo como intrinsecamente perigoso. Entre o alarmismo e a negação, existe um trabalho exigente, a distinção entreperigo real e ameaça construída.
Talvez cuidar da saúde mental, hoje, seja também isto, recuperar o direito a viver num mundo complexo sem o reduzir a um campo de batalha. Devolver ao medo o seu tamanho e função. Nem senhor absoluto, nem inimigo a abater — apenas um sinal entre outros, numa geografia emocional que tem de ser habitável. De preferência, agradável!
Fique bem, pela sua saúde e a de todos os açorianos.
Um conselho da Delegação Regional dos Açores da Ordem dos Psicólogos Portugueses.
Joana Amen*
*Psicóloga clínica e psicoterapeuta