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Pós-verdade

A pós-verdade, foi eleita como a palavra do ano 2016, sendo definida não como uma simples mentira, mas como um adjectivo que define a ideia de que “os factos objectivos têm menos influência na formação da opinião pública do que os apelos à emoção e às crenças pessoais”.
De facto, 2016 foi um ano especial marcado pelo referendo do Brexit e a primeira eleição de Donald Trump. Ocorrências onde a veracidade das afirmações importou menos do que a sua sintonia emocional com o eleitorado.
Contudo, a pós-verdade não é apenas um fenómeno político, é uma crise profunda de desinformação. Uma era aonde a verdade deixou de ser um padrão de ouro para validar argumentos e passou a ser uma opção num menu de “realidades” à escolha.
Após-verdade é o resultado de uma incompatibilidade entre a psicologia humana ancestral e a tecnologia algorítmica moderna, criando um ecossistema onde a coesão social e a própria democracia estão em risco.
O cérebro humano não evoluiu para procurar a verdade científica, mas para garantir a sobrevivência social e a pertença de grupo, mantendo uma tendência cognitiva de procurar, interpretar e recordar informações que confirmem crenças pré-existentes, ignorando evidências contraditórias. Na era da pós-verdade, isto não é um erro do sistema, mas o seu combustível principal.
A “verdade” tornou-se um marcador de identidade. Aceitar a “verdade” do nosso grupo político ou social é um acto de lealdade, aceitar os factos do “inimigo” é traição. Impedindo, por essa via, o diálogo racional e promovendo a cristalização de posições.
A democracia exige um conjunto comum de factos para funcionar. Se não concordarmos com dados básicos (como a taxa de desemprego, as alterações climáticas ou os resultados de uma eleição, a título de exemplo), não poderemos debater soluções, apenas poderemos combater realidades.
O resultado é a polarização extrema e a instabilidade institucional, onde as eleições não são vistas como disputas políticas, mas como batalhas existenciais entre o bem e o mal.
Os algoritmos, a base essencial da comunicação actual, alimentam os utilizadores com conteúdos que reforçam as suas visões, isolando-os de contraditório. O utilizador deixa de habitar uma realidade partilhada e passa a viver num “universo paralelo” de factos selecçionados.
A área da saúde tem sido, provavelmente, a vítima mais visível desta intoxicação informativa. Durante a pandemia e nas campanhas de vacinação, a desinformação sobrepôs-se ao consenso científico. A confiança nas instituições científicas tem sido, e continua a ser minada por narrativas emocionalmente carregadas, nas redes sociais. Sendo o exemplo das declarações de Trump e do seu secretario da saúde, paradigmáticas de como a ignorância e o uso do medo se têm sobreposto às evidencias científicas. Basta a ver o modo intransigente como tantos idosos, entre nós, recusam a vacina do covid!
“A pós-verdade é uma doença – uma profunda crise do conceito de verdade – que urge combater. Reflecte uma transformação profunda no modo como o debate político se organiza. Num mundo assim, o que desaparece não é apenas a verdade, mas também as pré-condições da política.”
O pensamento crítico é a única defesa duradoura contra a manipulação emocional.
A pós-verdade não é um acidente histórico passageiro, mas um sintoma da transformação profunda na forma como a humanidade processa, actualmente, a informação. O desafio do nosso tempo — para governantes e cidadãos— não é tentar impor uma verdade única, mas restaurar a confiança nos processos que nos permitem distinguir o verdadeiro do falso. Sem esse consenso básico, a política torna-se impossível e a sociedade fragmenta-se em tribos hostis.
A reconquista da verdade exige, portanto, um acto de cidadania, um esforço consciente para duvidar do que nos conforta e de valorizar o que é factualmente verificável. Este é, sem dúvida, o maior repto que a inteligência artificial (IA) nos coloca e, simultaneamente, um teste à nossa capacidade de afirmar a nossa condição de seres pensante que conseguem aliar o pensamento à emoção e, desse modo, derrotar o primado dos dados, puros e duros.
“A pós-verdade é o pré-fascismo”.
António Simas Santos

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