Como decide o eleitor liberal quando o seu projeto não está no boletim de voto?
A primeira volta das presidenciais de 2026 deixou uma mensagem clara. João Cotrim de Figueiredo, com os seus 16%, mostrou que há uma fatia importante de Portugal que deseja reformas e uma nova atitude política. No entanto, o desfecho eleitoral colocou-nos perante uma escolha que, para muitos de nós, é difícil e cinzenta: António José Seguro contra André Ventura.
Para quem defende a Iniciativa Liberal, e especialmente para nós nos Açores, este não é um momento de certezas absolutas, mas de reflexão. A autonomia ensinou-nos que a política é a arte do equilíbrio e do respeito institucional, e é sob esse prisma que devemos olhar para esta segunda volta.
António José Seguro é um rosto familiar do sistema político. Representa uma visão de Estado mais presente e interventiva, que embora procure a estabilidade e a moderação, acaba muitas vezes por ser um travão às reformas profundas de que acreditamos que o país precisa. Votar em Seguro não é necessariamente concordar com o seu modelo económico — que tantas vezes cria soluções pesadas, como vimos na complexidade do subsídio de mobilidade — mas sim reconhecer nele um perfil institucional previsível e respeitador das regras do jogo.
Por outro lado, André Ventura personifica a vontade de rotura e o protesto de muitos portugueses. O seu projeto assenta numa crítica forte ao status quo, mas traz consigo uma imprevisibilidade que nos faz hesitar. Para um liberal, o estilo de confronto e a retórica de polarização são difíceis de digerir, pois acreditamos que a democracia se constrói com argumentos e não com muros. O risco aqui não é a mudança em si, mas a forma como essa mudança pode afetar a serenidade das nossas instituições e as relações de equilíbrio que tanto prezamos.
Nesta segunda volta, a questão deixa de ser sobre “o candidato ideal” e passa a ser sobre “o modelo de convivência democrática”. Os liberais distinguem-se pela capacidade de análise crítica e pela recusa em ver a política apenas a preto e branco.
A 8 de fevereiro, cabe a cada um decidir, em consciência, que caminho oferece menos riscos à nossa liberdade de continuar a lutar pelo que acreditamos. Entre um modelo que conhecemos bem, com todas as suas limitações, e um modelo novo que nos suscita dúvidas sobre a estabilidade futura, não há escolhas certas ou erradas. Há apenas a responsabilidade de votar naquele que, no nosso entendimento, menos nos afasta do Portugal moderno e aberto que João Cotrim de Figueiredo tão bem representou.
Venicio da Costa Ponte *
* Vice Coordenador IL Açores