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(A)venturas eleitorais

“É sem dúvida um reflexo de medo, pelo que possa afetar a democracia portuguesa, que levará mais cidadãos a votar e/ou mesmo ponderarem em quem.”
Pouco mais de uma semana passou sobre a primeira volta das eleições presidenciais e perante os resultados estamos em plena campanha eleitoral para a segunda fase que, como decidido pela comissão responsável pelas eleições, ocorrerá no próximo domingo.
Os resultados, no que respeita à primeira volta das presidenciais, não me surpreenderam.
Os concorrentes da zona de elite do total das candidaturas, em número de cinco, obtiveram cerca de 94% dos votos no todo nacional, significando que o grupo dos restantes pretendentes ao “trono” presidencial não conseguiram convencer quase ninguém acerca do seu potencial como concorrentes. Democraticamente devemos admitir ser importante a sua presença na campanha, apesar de em termos de ideias politicas a desenvolver numa hipotética presidência serem praticamente nulas. Melhor seria não terem gasto imenso dinheiro nesta ambição, mas estão no seu direito e em alguns casos conseguiram tirar nos do marasmo de ideias das equipes de elite.
Não nos devemos admirar pois parte dos concorrentes de “elite”, na maior parte do tempo de campanha, esqueceram estar a candidatar-se às presidenciais e desenvolveram o quase total das intervenções como se de legislativas se tratasse, para além de “lavarem roupa suja” sobre a vida profissional e pessoal dos outros concorrentes. Se isso fosse política, tinham ganho quase todos.
Tenho de admitir que tirando José Seguro os outros quatro concorrentes do grupo principal, não apresentaram as qualidades necessárias e suficientes para serem candidatos, quanto mais hipotéticos ocupantes do lugar de supremo magistrado de uma república que embora muito mal tratada ainda é e será uma democracia.
Marques Mendes apresentou-se arrogantemente como quem sabe que esteve uma década em campanha para eleições, aproveitando a boleia de um canal privado de comunicação audiovisual e a sua ligação aos “donos” do partido social democrata e especialmente a Marcelo Rebelo de Sousa, tendo lugar no conselho de estado, situações que lhe possibilitaram avançar publicamente, em várias ocasiões, com assuntos políticos nas intervenções televisivas, como que demonstrando ser alguém importantíssimo.
Foi a partir da entrada na campanha por parte de Luís Montenegro e dos onze ministros do atual governo – em obediência ao primeiro ministro – que tudo se desmoronou para Marques Mendes, simultaneamente enquanto Montenegro desapareceu de “fininho” da cena de campanha, saindo pela “porta apertada das traseiras” da mesma.
Gouveia e Melo aproveitou a boleia da “Covid 19” e com a imagem de grande decisor e eloquente almirante “deslumbrou-se” e assumiu que os valores percentuais elevados constantes das sondagens iniciais e a ajuda da comunicação social, lhe garantiam chegar a presidente. Encarregou-se o tempo e as sensaboronas intervenções públicas do almirante, que participou na “lavagem de roupa suja” perante Marques Mendes no debate (quebrando a tradicional imagem de elegância cavalheiresca dos oficiais da marinha) de evidenciar a sua enorme falta de conhecimento/prática da vida politica.
Cotrim Figueiredo, na sua pseudo elegância presenteira, assumindo-se como o “enfant terrible” da política nacional, tentou por todos os meios e convites – a Passos Coelho, Montenegro e outros políticos – ter o apoio que lhe faltava, chegando mesmo a identificar-se como um potencial líder de direita eleitoralmente órfã, chegando a afirmar que não conseguiu ir à segunda volta das eleições ou mesmo ganho à primeira, porque Montenegro não o apoiou. O desespero do resultado da sua votação, levou-o a perder a compostura e a imagem de “enfant terrible”, cheio de graçolas.
André Ventura, afirmando não querer ser presidente da república, foi mostrando o que é e ao que vinha/vem. Causou confusão, fez falsas afirmações, foi arrogante chegando a ser inconveniente e levou o seu séquito e juventude “venturiano” a colocá-lo obrigatoriamente no topo das preferências, assumindo-se como o único líder do centro direita. Para a segunda volta, de modo vergonhoso, o líder do partido Chega, em plena sessão da Assembleia da República, pediu a Montenegro, como se de um pedinte se tratasse, que declarasse o apoio a Ventura.
Já ouvimos Ventura afirmar, nesta fase da campanha, que o poder é seu e que esta era uma “luta entre fascistas e não fascistas”, sem conseguir como sempre faz nestas alturas, identificar quem é quem. Antevejo que vai conseguir o que pretende ou seja não ser eleito de modo a não deixar os seus seguidores “órfãos” daquele que em quase 100% do tempo e atuação é o próprio partido. A hipotética eleição para a presidência, quanto a mim, permitiria a própria “morte” do Chega, pela ausência do todo poderoso “padrinho” nacional.
Seguro, aparecendo por iniciativa própria, conseguido identificar ao que vinha e sem alaridos ter mostrado possuir as qualidades para ocupar o lugar a que se candidatou, consegue que os eleitores votem nele. Fica a frase dita por uma eleitora do norte de que ele é “a pessoa real, para o País real”.
Por convicção ou receio, diria mesmo pavor, Seguro consegue congregar apoios declarados de grande parte dos políticos de outros partidos e eleitores de renome que não se revêm em Ventura ou nas ações politicas do partido. Montenegro é uma exceção demonstrando que uma das suas virtudes não é, nem nunca será, a frontalidade nas decisões que assume, demonstrando cuidado com dependência que tem do partido de Ventura.
O sonho de vitória eleitoral de Ventura será concretizado se obtiver mais de dois milhões de votos, ultrapassando os de Montenegro nas últimas legislativas e assim poder afirmar publicamente ser o líder do “centro direita”. Que se cuide Montenegro se tal suceder.
Não posso deixar de passar sem referir o que se passou nos Açores. A taxa de abstenção na Região, para as presidenciais, foi de 57,9%, tendo votado cerca de 94 mil habitantes. Em seis dos concelhos regionais a taxa de abstenção situou-se num intervalo entre 64,8 e 60,4%, sendo o da Ribeira Grande aquele que apresentou a taxa mais elevada neste escrutínio.
A baixa participação eleitoral, na continuação do que sucedeu nas legislativas de 2024, pode ter a sua justificação em fatores que caracterizam a Região como sejam a dispersão geográfica da população, as caraterísticas demográficas – nomeadamente a elevada taxa de envelhecimento – e os aspetos socioeconómicos e culturais, para além da sempre presente falta de atualização dos cadernos eleitorais a nível nacional, onde até os mortos são potenciais votantes.
Por motivos óbvios acredito que a abstenção tenderá a ser mais baixa, embora não significativamente, nesta segunda volta das eleições presidenciais refletindo em parte a necessidade que os cidadãos terão em “mostrar”, a Ventura e seu grupinho “venturiano”, que numa democracia de modo algum se “encaixam” atuações de falsa propaganda e afirmações como aquelas que o seu partido tem por hábito fazer.
É sem dúvida um reflexo de medo, pelo que possa afetar a democracia portuguesa, que levará mais cidadãos a votar e/ou mesmo ponderarem em quem. Cuidem-se os políticos regionais – principalmente Bolieiro e César – e assumam que têm no imediato de refletir/trabalhar sobre a situação que ocorreu na votação presidencial em termos de votantes no Chega e com a abstenção, em especial em S. Miguel, se não querem passar no futuro para a oposição.

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