Temas de Saúde da última semana: a saída dos EUA da OMS e a nova roda dos alimentos americana
A última semana foi marcada pela saída oficial dos EUA da Organização Mundial de Saúde (OMS), efectivada no dia 22 de Janeiro de 2026, após um processo iniciado em 2025, pela administração do presidente Trump. Esta decisão, anunciada pelo Secretário de Saúde Robert F. Kennedy Jr. e pelo Secretário de Estado Marco Rubio, foi tomada devido às restrições impostas pela OMS durante a pandemia, e resultou no fim das contribuições financeiras dos EUA.
Esta saída da OMS permite, na verdade, aos EUA uma maior autonomia em políticas de saúde, reduzindo a influência externa, e uma potencial poupança financeira, ao cessar as suas contribuições. Porém, implica a perda do acesso a dados globais e à coordenação mundial, enfraquecendo as suas respostas a pandemias; também há que ter em conta a dívida pendente dos EUA, e o seu isolamento diplomático. A maior oportunidade decorrente desta decisão para os EUA é o desenvolvimento de parcerias bilaterais alternativas e o poder centrar-se agora em inovações nacionais em saúde pública. As principais ameaças, desta decisão, são os riscos para a segurança global, como alertou a OMS, com impacto em surtos transfronteiriços, e o possível enfraquecimento de programas, como o da vacinação.
Para a comunidade internacional, obviamente que a saída dos EUA da OMS é uma péssima notícia.
Nos EUA, esta semana, houve a retoma de cerca de 5 mil milhões de dólares em subsídios para a saúde pública estatal, gerida pelo Departamento de Saúde e Serviços Humanos (HHS), e avançaram projectos de lei para o financiamento do HHS no ano fiscal de 2026, centrados nas políticas de saúde. Foram também aprovadas proibições sobre o uso de tecido fetal de abortos electivos, nas investigações financiadas pelo HHS.
Já a nova roda dos alimentos dos EUA, lançada a 7 de Janeiro de 2026, sob a orientação de Robert F. Kennedy Jr., representa uma reformulação das diretrizes nutricionais, priorizando proteínas de alta qualidade, lacticínios inteiros, gorduras saudáveis, frutas, vegetais e grãos integrais, enquanto evita os alimentos ultraprocessados. Esta pirâmide invertida coloca a carne, o queijo e lacticínios no topo, substituindo o ícone “MyPlate”. Ora, isto dá um maior destaque a alimentos que podem reduzir a obesidade e as doenças crónicas, indo de encontro às evidências sobre as proteínas e gorduras saudáveis, com uma mensagem clara e acessível, que promove hábitos sustentáveis. Porém, este destaque à carne e aos lacticínios pode contradizer as recomendações para limitar o consumo de gorduras saturadas, levando a críticas de que aqui a política se sobrepõe à ciência, e confundindo os consumidores.
A principal oportunidade decorrente desta “inovação” decorre da integração com programas como “food as medicine”, o que pode aumentar o acesso a nutrição saudável, e à colaboração com as indústrias alimentares para que se façam reformulações. As maiores críticas têm sido dos nutricionistas, pesando também o possível aumento de custos para as famílias de baixo rendimento, e os riscos ambientais devido ao maior consumo de produtos animais.
Por tudo isto que aqui se expôs, seria de reflectir o impacto na Saúde Pública e na Economia desta mudança americana nos Açores.
Já na Europa, na semana passada, observou-se uma diminuição na actividade gripal e da COVID-19. No entanto, os hospitais continuam sob pressão devido ao aumento de norovírus e à onda de frio, com o Serviço Nacional de Saúde do Reino Unido a destacar ter tido uma “semana bastante ocupada por vírus de vómitos”.
Um avanço positivo, esta semana, foi o progresso nas negociações para o Acordo Pandémico da OMS, anunciado a 23 de Janeiro.
Em Portugal, a actividade epidémica da gripe abrandou, com menos casos, menos infecções respiratórias graves e menos hospitalizações, embora persista o excesso de mortalidade, possivelmente ligado a padrões epidemiológicos de finais de 2025.
A 25 de Janeiro, foi anunciada a abertura de novos centros de saúde, geridos privadamente, que cobrirão mais de 250 mil utentes em regiões com baixa cobertura de médicos de família.
A Comissão Europeia aprovou o oitavo pedido de pagamento de 1,1 mil milhões de euros sob o NextGenerationEU, apoiando as reformas no sector. Portugal, incluindo os Açores, foi classificado como um dos melhores e mais seguros lugares para os reformados, destacando-se aqui a qualidade do nosso sistema de saúde.
Homenagem da semana (em jeito de anti-homenagem)
A ingratidão e a maledicência são dois vícios enraizados na natureza humana, e no mais humano dos povos, o português.
A ingratidão é um defeito que revela a fraqueza de carácter, e está desligada dos princípios éticos fundamentais. Goethe, dela, disse: “a ingratidão é uma forma de fraqueza. Jamais conheci um homem de valor que fosse ingrato.” A ingratidão não é, pois, um mero esquecimento, mas uma incapacidade de valorizar o apoio alheio, comprometendo a dignidade pessoal. Victor Hugo, conhecido pela sua profundidade humanista, acrescentou: “Os infelizes são ingratos, isto faz parte da infelicidade deles.” A ingratidão é, assim, um ciclo vicioso, alimentado pela insatisfação interna.
Já Padre António Vieira, no século XVII, explorou a ingratidão em relação ao tempo e à ausência: “O tempo e a ausência combatem o amor pela memória, a ingratidão pelo entendimento e pela vontade.” Através dos seus sermões, destacou bem como a ingratidão destrói os laços afectivos. A ingratidão não é algo isolado, mas está ligada ao egoísmo, e enfraquece a coesão social.
A maledicência (o acto de falar mal dos outros, frequentemente sem fundamento, propagando danos à reputação alheia), por seu lado, foi condenada por ser uma forma de preguiça moral e um instrumento da inveja. “A ociosidade é a mãe da maledicência, da calúnia e da intriga.” A falta de ocupação produtiva leva à disseminação das falsidades, preenchendo os vazios com a maldade verbal. Madame de Staël, uma pensadora francesa do século XVIII, disse: “Calarei os maldizentes continuando a viver bem; eis o melhor uso que podemos fazer da maledicência.” A maledicência, embora prejudicial, pode ser neutralizada pela integridade pessoal, mas tem o potencial de perturbar as comunidades. Na Bíblia, em Provérbios, somos advertidos para a língua perversa: “A língua perversa será cortada”, mostrando o julgamento divino sobre tais actos. A maledicência não só atinge o alvo, como corrompe o falante, fomentando um ambiente de desconfiança mútua.
Aqueles que se dedicam à ingratidão e à maledicência de forma constante enfrentam riscos profundos, tanto pessoais como sociais. Em primeiro lugar, pelo isolamento: como alertou Goethe, a ingratidão revela fraqueza, leva à perda de aliados e à degradação das redes de apoio. Uma vida marcada pela ausência de gratidão torna-se solitária, perpetuando um ciclo de amargura, como Victor Hugo descreveu. Já a maledicência degrada a credibilidade própria. Quem calunia persistentemente é visto como não sendo confiável. Ora, todas estas práticas alimentam a ansiedade e a paranoia, pois o maldizente acaba por projectar as suas inseguranças.
Se a ingratidão se manifesta pela ausência de reconhecimento ou retribuição por benefícios recebidos, a maledicência envolve a difamação deliberada, a calúnia ou a disseminação de rumores prejudiciais. Ambas são vícios que minam a harmonia humana e a integridade individual. Quem se dedica a eles a tempo inteiro corre riscos, como o isolamento, a perda da sua reputação e o sofrimento interno.
Cultivar a gratidão e a discrição cria condutas mais éticas, e contribui para uma sociedade mais justa e compassiva. Uma sociedade melhor, que não é certamente aquilo que procuram aqueles que sistematicamente se dedicam àqueles vícios.
Mário Freitas*
* Médico de Saúde Pública e de Medicina do Trabalho