Os 800 milhões de euros que a Vinci está a investir no aeroporto Humberto Delgado, em Lisboa, foram apresentados como a chave para aumentar a capacidade da infraestrutura da capital. Mas, nas declarações do presidente da Vinci Airports, fica também uma mensagem clara para as regiões periféricas: o grupo francês garante que quer manter e reforçar a estratégia de voos diretos para destinos como os Açores.
Numa entrevista ao Jornal de Negócios em que detalha o plano de expansão de Lisboa – com uma segunda fase de obras prevista entre 2027 e 2030, destinada a aumentar o número de movimentos horários –, o responsável sublinha que a “missão presente” da concessionária é otimizar o aeroporto da capital, mas sem concentrar aí todo o tráfego.
“A missão presente é otimizar o aeroporto para acolher os passageiros, sem nunca deixar de ter voos diretos no Porto, Faro, Madeira ou Açores. É uma opção da ANA incentivar as companhias aéreas a irem diretamente para aí, ou mesmo para Cabo Verde, e não que todos os que queiram voar para esses locais tenham de parar em Lisboa.”
Ao colocar os Açores no mesmo patamar de referência de destinos como Porto, Faro ou Madeira, a Vinci sinaliza a importância da ligação direta ao arquipélago na sua estratégia para a próxima década.
A aposta em mais voos ponto a ponto – em vez de obrigar todas as ligações a passarem por Lisboa – é apresentada pela concessionária como uma solução para reduzir o congestionamento na capital, mas tem um impacto direto na acessibilidade aérea dos Açores: reforça a atratividade do destino junto de companhias que queiram operar rotas diretas; pode contribuir para diminuir a pressão sobre as ligações via Lisboa, frequentemente criticadas por lotação e irregularidades; valoriza o papel dos aeroportos açorianos na rede nacional e atlântica da ANA/Vinci.
Na mesma entrevista, o presidente da Vinci explica que quanto maior for a oferta de voos diretos para destinos como Açores ou Madeira, menor será o número de aeronaves a sobrevoar Lisboa e menor o congestionamento no Humberto Delgado.
“Quanto mais voos diretos oferecermos, menos voos haverá sobre Lisboa e menos congestionamento deste aeroporto.”
Esta lógica coloca os Açores como parte da solução para o problema estrutural da capacidade aeroportuária da capital: ao desviar tráfego de ligação para rotas diretas, os aeroportos açorianos ganham peso estratégico na rede.
O responsável da Vinci sublinha ainda que o esforço de investimento em Lisboa – estimado em 800 milhões de euros, para ganhar apenas mais quatro movimentos por hora durante cerca de dez anos – está a ser feito em paralelo com a preparação do novo aeroporto Luís de Camões e com a política de incentivar ligações diretas a outros destinos nacionais e atlânticos.
Para os Açores, esta orientação significa que, num cenário de forte pressão sobre a capacidade de Lisboa, a ANA/Vinci assume publicamente que não quer recentralizar o tráfego na capital, mas antes promover rotas diretas para o arquipélago, conclui.
Resta agora perceber de que forma esta estratégia se traduzirá em novos voos, operadores e ligações ao exterior, e qual será o papel do Governo Regional dos Açores e das companhias que operam no arquipélago na concretização desta opção estratégica anunciada pela concessionária dos aeroportos nacionais.
