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A minha lona é maior do que a tua

A depressão Kristin atingiu Portugal com extrema violência. Não quero, nem consigo ironizar nada aqui. Destruição real, desespero cru, desolação sem metáfora possível. Pelo menos cinco mortes foram diretamente atribuídas à tempestade, milhares de pessoas desalojadas, casas abertas ao céu, como feridas expostas à intempérie que, pelos vistos, ainda se segue.
No meio deste cenário, com a população exausta e sem paciência, o país consegue produzir um segundo desastre: o delírio mediático das lonas.
Já não bastava a atuação lenta e desprovida de recursos dos “nossos” responsáveis políticos, cristalizada no vídeo de autopromoção do ministro Leitão Amaro, a “lidar” com a situação, estoico atrás da marca de água – linha mística que separa a vergonha da edição profissional de vídeo. Só faltou aparecer o Batman a fazer de Robin para o ministro.
Eis que, como se fosse preciso ir ainda mais longe, a questão das lonas de plástico prega uma chapada na cara de quem alguma vez ousou pensar que habitamos um país de gente discreta.
Caro leitor, a partir daqui vou descarrilar:
A lona de plástico deixou de ser um objeto, passou a ser argumento. Um símbolo fálico da virtude política. Quem tem mais lona, quem a dá mais depressa, com menos logotipos e, e este “e” é muito importante: quem a dá à frente de mais câmaras.
Tudo começou numa entrevista em direto de André Ventura. Eu estava a assistir em tempo real, cúmplice involuntário do momento da singularidade. Em desespero teatral, a sua linha de pensamento corria numa vertente de ataque, justificado, à ação dos responsáveis: “Ninguém faz nada. Ninguém quer saber destas pessoas.” Seguiu-se a escalada previsível. Ataques ferozes aos adversários: “Nem conseguem arranjar uns blocos de cimento. Nem umas lonas para tapar os telhados.” E foi aqui que se fez luz!
Eu vi nos seus olhos o momento exato em que a ideia nasceu. Enquanto continuava a debitar com a boca, dentro da cabeça o plano já estava traçado com régua e esquadro: arrancar as lonas da campanha para a presidência e espalhá-los pela população. E assim foi, no dia seguinte, pelas internetes, circularam a todo o vapor vídeos de militantes do Chega a arrancar todas as lonas da campanha de Ventura. Tudo isto narrado pela voz dócil do próprio, explicando calmamente como ia salvar a nação uma lona de cada vez.
Mas são precisos dois para dançar o tango, e a questão das lonas só nasceu com a entrada de António José Seguro. Seguro também encontrou o seu caminho para o centro da tragédia. Visitou as zonas afetadas sem ser acompanhado por jornalistas. Pelo menos era isso que dizia a manchete de um afamado jornal nacional, onde uma fotografia (tirada por jornalistas) adornava a primeira página, informando com imponência que Seguro estivera no terreno Sem Cobertura Mediática. Uma imagem perfeita. Seguro sério. Solidário. Discreto. Tão discreto que por sorte o batalhão de jornalistas conseguiu fotografar este iluso e discreto político apenas por milagre.
Por trás disto tudo, a campanha do candidato socialista, entrava numa euforia nervosa de preocupação estratégica. Uma frase ecoou na sala, dita firmemente, mas em tom baixo: “Não podemos ficar atrás na questão das lonas.”
Foi então que desenvolveram um plano engenhoso. Enquanto Ventura arrancava lonas à força, em direto, com suor e microfones, Seguro seguiria pelo caminho oposto: iria oferecer à população afetada uma carrada de lona virginal. Pura, não impressa, sem passado. Entregue pelas mãos certas e piedosas, às entidades certas. Assim foi decidido. A carrada seria entregue Sem Publicidade. Um gesto nobre, humilde, monástico! Infelizmente este ato elevado acabou conspurcado quando, por falência do secretismo humilde de Seguro, a doação acabou anunciada, explicada, fotografada, repetida, dita e escancarada nas capas dos jornais: “Seguro oferece carrada de lona pura, não impressa.”
No fim, ninguém sabe se as casas chegaram sequer a ser cobertas. Ninguém sabe se a cara do Ventura ficou virada para o céu ou para o interior das casas. Ninguém sabe se a carrada de lona veio cortada, dimensionada para a área média dos telhados afetados.
O que se sabe, com absoluta certeza, é que tudo foi devidamente fotografado e documentado. Por um lado, com muita propaganda, por outro Sem Publicidade. No dia 8 de Fevereiro haverá um vencedor, mas atenção, podemos ficar todos a perder.
P.S. O Diário dos Açores celebra hoje mais um aniversário. Fundado em 1870, acompanhou monarquias, repúblicas, ditaduras, autonomias, modas, crises e guerras sempre com a mesma tenacidade de quem vive para informar a população. Existe um ditado chinês que diz: que vivas em tempos interessantes. Que o diário continue, com perseverança e independência, a cumprir o papel ingrato, mas essencial, de registar esses tempos, mesmo quando os tempos não facilitam. Obrigado e Parabéns!

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