«Se bem me lembro» …
Foi com o alvorecer das ideias liberais que surgiram nos Açores as primeiras gazetas, as quais – mesmo na sua face agitada, romântica e no meio de grandes pugnas e confusas políticas – começaram a desbravar os espíritos, mas numa altura em que alfabetismo imperava, a palavra cultura era privilégio de uma minoria e não tinha o poder aliciante, nem a acessibilidade dos nossos dias.
Transcorrido, praticamente dois séculos desse alvorecer de ideias, surgia a Imprensa; e, creio continuar a ser necessário que os estudiosos continuem a fazer um balanço da sua açcão política, social e educativa, pois ali foram equacionadas todas as contingências por que tem passado, a entrega pela sua sobrevivência, a decidida contribuição para o progresso e valorização do Arquipélago.
Ainda é através dessa Imprensa que os escrevem a história contemporânea insular, encontrarão muito facilitada a sua missão; e, nisso a Universidade dos Açores tem um lugar proeminente, pois é nas páginas dos jornais insulares que desfilam os principais acontecimentos, os anseios e esforços que levaram à realização de empreendimentos, de triunfos alcançados e muitas das pretensões resolvidas.
A ilha de São Miguel teve sempre honrosas tradições jornalísticas:
– Em 18 de Abril de 1835, o deputado Manuel António Vasconcelos, fundava, em Ponta Delgada, o semanário «Açoriano Oriental»; e, durante um longo período de vida, o jornalista Manuel Ferreira de Almeida assumiu a direcção e propriedade, mantendo-o com naturais dificuldades, muita carolice, mas com espírito cívico, dedicação a esta sua terra…
… até que, para salvar essa herança histórica do jornalismo nacional e insular, decidiu passá-lo a um grupo financeiro/social capaz de lhe dar a continuidade editorial iniciada pelo seu fundador, mas com os ditames do tempo que ocorriam nos Açores e em Portugal.
O tempo ditou-lhe novos horizontes, passou a diário; e hoje, com os seus bonitos 190 anos de publicação, continua na defesa e reivindicação dos interesses e dos valores açorianos.
– Foi também em Ponta Delgada que Manuel Augusto Tavares de Resende, em 5 de Fevereiro de 1870, fundou o «Diário dos Açores», desde logo considerado o criador do diarismo insular.
O fundamento editorial do jornal era abrangente aos Açores, já antevendo uma autonomia que lhe desse «folga» ao centralismo nacional, permitindo-nos definir os nossos destinos, como povo.
Na Redacção, rodeou-se de individualidades ligadas ao primeiro movimento autonomista e, muitos anos depois, ainda pude ouvir o testemunho da sua única filha, já sexagenária, mas na altura com 15 anos, D.Maria do Carmo Carreiro Resende, sobre o que observara, à sua volta, nos fugidios momentos, por ali e seu pai a tratava de «secretária» …
Morreu novo, sem sucessor (masculino) à vista, pelo que foi seu sobrinho neto, Manuel Resende Carreiro que a família indicou para a assumir a direcção da empresa, logo que terminou o curso liceal, numa carreira jornalística que se prolongou por muitos anos; e, por seu falecimento, substituído por seus filhos, doutores Carlos e Manuel da Silva Carreiro.
Passou a ser conhecido como um jornal de família – tão raro então, como nos nossos dias – mantendo a linha editorial iniciada por Tavares de Resende, seguida por seu Pai e continuada até aos alvores da Revolução do 25 de Abril, por sua filha e sobrinha, Maria Isabel Amaral Carreiro, que fez tudo quanto pode para o manter.
Foi o meu tempo no jornalismo…
Ali, assisti e senti, o que era trazer à luz do dia, sempre e continuamente, um jornal diário com história: manter-se quanto pode na mesma linha editorial, pois em tempo de censura, era preciso saber contornar o que se escrevia, sempre que se pugnava pelos ideais regionais, o bem-estar dos açorianos e também dos «novos» destinos autonomistas.
Um grupo de cidadãos democratas, conotados com o PPD- PSD, encabeçado por Américo Natalino Viveiros, num gesto de cidadania que muito os nobilita, decidiram adquirir a empresa e, com esperança no amanhã, o Jornal continua bem vivo, por vezes, numa acutilância que incomoda…
– Continuando nesta honrosa senda jornalística, um grupo de cidadãos, no rescaldo da I Guerra Mundial, juntam-se à volta e à voz, dos doutores José Bruno Tavares Carreio e Francisco Luís Tavares – um autonomista assumido, mesmo funcionário publico; e um republicano, empresário de transportes marítimos, «Carregadores Açorianos» – para fundar, em 1 de Maio de 1920, um novo jornal diário – o «Correio dos Açores».
Matutino na sua publicação, aparece no centro de toda uma tempestade política, social, económica, apresentando-se como um jornal apostado em defender causas, apoiar a Autonomia e, como colaboradores, uma boa equipa de jornalistas e pensadores.
Passou por várias fases de empreendedorismo patronal, até ao 25 de Abril de 1975; e, se bem que a sua linha de rumo nunca fosse alterada – para que não desaparecesse do tablado regional, pois era representativo e de necessária publicação – é adquirido e constituída uma nova empresa – «Gráfica Açoriana», com capitais particulares, sob direcção do jornalista Américo Natalino Viveiros.
Hoje atingiu o 105º ano de publicação, o que se integra no honroso galardão da Imprensa Insular, apesar das muitas dificuldades por que nestes tempos continua a passar, mas sempre firme na defesa dos valores que continua a defender e a pugnar.
– Ainda quanto à continuidade da Imprensa Insular, em 29 de Outubro de 1944 surge em Ponta Delgada, um outro jornal diário – «Açores», fundado por «Mestre» Cícero de Medeiros, um homem que nasceu para o jornalismo, preferindo deixar para trás muito do seu conforto pessoal e de família, para concretizar o sonho da sua vida.
Também de publicação matutina, o aparecimento do «Açores» galgou vida nova nos contextos local e regional, num ideal de promover informação plural e comprometida com o desenvolvimento cultural e social dos açorianos, dando voz às várias correntes de opinião.
Foi também o Jornal dos concursos, de incentivar as festas do Natal: do «polícia-sinaleiro», das «meninas do Asilo», dos «Gaiato», do Padre Elias…
O senhor Cícero de Medeiros era um Homem encantador, na palavra, na convivência e na cultura que irradiava.
Encontramo-nos muitas vezes em cerimónias públicas; e era nos baixos da sua casa, na Redacção do «Açores», que partíamos para esses destinos numa viatura do Governo Civil…
… e um dia, naquela simplicidade que lhe era habitual, disse-me: Pavão, preciso usar o jornalismo da «tesoura» para completar uma notícia da reportagem que fizeste para o «Diário»!
Após muitos anos de publicação, teve o mesmo destino dos seus colegas: foi adquirido pela empresa do «Açoriano Oriental», que quis manter o título, mas como jornal diário…
…e o «Açores» passou a ser uma revista semanal de carácter informativo/social–aliás disseram-me que era o pensamento inicial de «Mestre» Cícero de Medeiros, antes do jornal, mas com maior dimensão, ao que foram as revistas «Os Açores» e «Insula».
Depois, constituiu-se em nova empresa, que agora o administra e dirige o seu rumo editorial, sempre o mesmo: a defesa dos Açores e da sua Autonomia, ao ritmo destes novos tempos!
Manter três jornais diários num meio como o nosso – onde muitos que podiam assiná-lo, preferem lê-lo no café – foi uma tarefa hercúlea, mas com previsões esperançosas quanto ao futuro; e, felizmente, estamos hoje a celebrar o «Diário dos Açores», que inicia os 157 anos de publicação…
… e também junto, em saudação fraterna, os jornais que por aqui e na Região continuam a publicar-se, num espírito de continuidade em melhores dias, mesmo com a internet, os selfs, a inteligência artificial a fazer-lhes «frente».
Parabéns ao seu director, Dr. Paulo Hugo Viveiros e todos os que no «Diário» trabalham e colaboram: que continuem, rumo ao bicentenário…
Parabéns, meu trisavô!
Rubens Pavão