Nas próximas eleições presidenciais, ficar em casa não é um gesto neutro.
Ao contrário do que muitos pensam, a abstenção não é um protesto silencioso, é apenas ausência – e a ausência nunca decide nada. Quando não votamos, entregamos a outros o poder de escolher por nós. E quem decide são, muitas vezes, minorias mais organizadas e barulhentas, que acabam por impor a sua vontade sobre uma maioria cansada, desiludida ou distraída.
A democracia não cai de um dia para o outro. Vai-se gastando aos poucos, quando as pessoas deixam de acreditar que vale a pena participar. Cada ponto a mais na abstenção é um ponto a menos na legitimidade de quem é eleito. Um presidente escolhido por metade do país tem uma força. Um presidente escolhido apenas por uma minoria mobilizada, governa ferido na asa. Numa eleição uninominal como é a presidência da república, a percentagem eleitoral tem um papel muito importante na legitimidade de quem é eleito.
Há quem diga: não me revejo em nenhum candidato. É uma dúvida legítima. Mas a democracia adulta vive justamente da capacidade de escolher entre opções imperfeitas, ou um mal menor. Acontece na política como acontece na vida.
Votar não é uma declaração de amor eterno.
Votar é escolher, num determinado momento, quem melhor protege a Constituição, as liberdades, o Estado social, a convivência mínima entre todos. Escolher, como acontece nesta eleição, um candidato que ameaça instituições e direitos e outro que, com todos os defeitos, respeita regras e limites. A abstenção não é neutralidade, é uma ajuda indirecta, mas certeira ao pior cenário.
Num tempo em que cresce o discurso do ódio, a desinformação e o populismo fácil, o voto é o último travão que está nas mãos de cada cidadão. Cada cruz num boletim é um basta à arrogância dos que se julgam donos do povo, um não a quem quer dividir portugueses entre bons e maus, e um sim à ideia simples de que nenhum poder está acima da lei.
Quando os moderados se calam e os democratas se acomodam, os extremistas agradecem.
Não vale a pena queixarmo-nos, depois, dos políticos e dos partidos. O momento de dizer sim ou não é o dia do voto, não o dia seguinte, nas redes sociais ou no café. Será, simplesmente, andar sobre leite derramado.
Por tudo isso, na próxima ida às urnas, a escolha é dupla e clara: escolher um candidato e escolher se queremos ou não continuar a viver em democracia plena. A primeira decisão é individual, a segunda é coletiva. Não votar é abdicar das duas. Dizer não à abstenção é afirmar que Portugal não pertence aos indiferentes, mas a quem, mesmo cansado, mesmo desconfiado e desiludido, tem a coragem de sair de casa, de pensar, de escolher e marcar o seu voto.
A democracia não pede heroísmos, pede apenas presença.
As presidenciais de 18 de janeiro de 2026 foram marcadas como um momento histórico, num país já fragilizado por anos de instabilidade e fragmentação. Por isso, escolher bem e não se abster não é um detalhe: é decidir se a democracia portuguesa se regenera ou se desliza mais um passo no sentido da deslegitimação e do autoritarismo.
O Presidente da República é a figura-chave do equilíbrio entre poderes, num sistema marcado por governos minoritários e fragmentação partidária. Terá de ser, por tudo isso, alguém que consiga unir a comunidade e ser uma figura institucional prestigiada que afaste o espectro da discórdia e da gritaria e, antes, fortaleça a coesão nacional e os bens da liberdade.
António Simas Santos