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A “desertificação noticiosa”

Aos poucos, o país foi-se apercebendo da dimensão material e humana do rasto que o “Kristin” deixou na Região Centro do País.
A falta de comunicações e as dificuldades de mobilidade foram as principais razões, mas o inveterado centralismo das grandes cidades não permitiu que os media, produtores de informação, se lançassem imediatamente para o terreno para conhecer os efeitos da catástrofe e fazer ver aos responsáveis a desgraça que tinha ocorrido no “interior”.
Nos últimos dias, ouvi um morador do Pedrogão reclamar pelo abandono a que a população de uma aldeia martirizada pelos incêndios de 2017 estava sujeita, afirmando ao jornalista da SIC que ele era a primeira pessoa de fora a querer inteirar-se do que ali se passara.
O isolamento das populações e o abandono à sorte a que muitas se viram votadas é o grande drama que levam os mais idosos a deixar tudo e juntar-se aos familiares. Uma nonagenária de pequena aldeia que vivia só, interrogada sobre a eventualidade de acompanhar a filha que viera de França para socorrer a mãe, desabafou: “o meu maior medo é estar sozinha.”
Esta é a imagem mais destacada que fica das reportagens emitidas pelas Televisões: o abandono, a solidão, a impotência face aos elevados estragos que afetam os mais idosos, as famílias, as empresas.
O reconhecimento de que as autoridades no cimo da cadeia do poder não conhecem a situação das populações do interior, contrasta com o apreço demonstrado com as corporações de bombeiros: eles estão próximos e acorrem, de pronto, nos momentos mais críticos. Pelo contrário, os governantes do poder central levam tempo a decidir sair dos gabinetes e quando o fazem, preocupam-se mais em afirmar o cargo que ocupam. Manifestam uma enorme dificuldade em ouvir, têm sempre pressa e reservam, normalmente, para mais tarde a solução, por mais simples que seja.
Estas constatações redundam, normalmente, no descrédito que muitos cidadãos, sobretudo do interior, manifestam em relação às medidas anunciadas para fazer face à reconstrução de habitações e empresas afetadas pela catástrofe do Kristin.
A falta de meios de comunicação social e de profissionais de informação nos concelhos do interior do continente, leva a que a resolução das dificuldades e dos problemas aí existentes, demorem ainda mais.
Num artigo publicado no jornal público de 4-02-26 o ex-ministro Pedro Adão e Silva, responsável pelo setor da Comunicação Social, afirmou: “Mais de metade de Portugal está em risco de ficar sem cobertura noticiosa. (…) São 83 os concelhos nos quais não há jornalistas de rádio, nem imprensa publicada com periodicidade regular e 87 os concelhos ameaçados de irem pelo mesmo caminho. Este deserto noticioso tem consequências: sem comunicação social local, as notícias independentes escasseiam e são substituídas por informação tutelada pelo poder municipal; abre-se espaço para a disseminação de informação nas redes sociais, o que cria condições favoráveis à proliferação de desinformação, alimentada por plataformas cujo modelo de negócio privilegia a popularidade e a interação, em lugar da verificação dos factos e do rigor.” E acrescenta: “imaginem que tínhamos jornalistas locais conhecedores do território e capazes de informar com rigor logo na manhã de quarta-feira. Não teria feito diferença? Sim, a atenção pública teria sido outra, a mobilização de recursos mais rápida e as respostas mais eficazes.”
A “desertificação noticiosa” que afeta o interior do continente atinge também algumas ilhas dos Açores, devido, sobretudo ao encerramento de jornais e à pouca presença de jornalistas em rádios locais.
Ainda há dias foi anunciada a interrupção de mais uma série do jornal “O BALUARTE de Santa Maria”, fundado em 1977 por Arsénio Puim.
Na ilha de Gonçalo Velho tem-se mantido desde 1947 a estação emissora do “Clube Asas do Atlântico” que desempenhou uma notável função de apoio às populações das Ilhas Terceira, Graciosa e São Jorge, nos dias que se seguiram ao terramoto de 1980.
Nos últimos anos, o “Asas” modernizou os seus equipamentos de transmissão e continua a ser a voz do povo de Santa Maria junto da opinião pública regional. Mas nem todas as rádios locais o são e é tão importante que o sejam.
Enquanto uns jornais vão desaparecendo, outros vêm à luz do dia.
Em São Miguel, surgiu em 2014 o “Diário da Lagoa”. É um jornal mensal em papel, feito por jornalistas. Em primeira análise foca a atualidade do concelho da Lagoa, mas divulga também, no seu sítio (https://diariodalagoa.pt/) a atualidade informativa que interessa a outros leitores espalhados pela diáspora.
No mesmo sentido foi fundado em 2011, nas Velas, ilha de São Jorge, o jornal “O BREVES”. É um projeto informativo, propriedade da Associação dos Amigos para a Divulgação das Tradições da Ilha de São Jorge (AADTISJ). Inicialmente, teve uma edição mensal. Dado o acolhimento dos leitores passou a publicar um semanário impresso em papel (https://www.obreves.pt/).
Um ano após a sua fundação, O BREVES (Breves-TV – A TV online que mostra São Jorge ao mundo) abriu outra edição em suporte digital, com recurso ao vídeo, que lhe permite uma apreciável penetração, não só junto dos consumidores residentes em São Jorge, mas também na diáspora jorgense da América do Norte.
A crise na imprensa escrita tem-se feito sentir em algumas ilhas.
Ainda não há muito, na ilha das Flores, encerraram os dois jornais “As Flores” (2011) e “O Monchique” (2015).
No Faial, o diário “O Incentivo” suspendeu a sua publicação em papel, em janeiro de 2024, prosseguindo a sua atividade em plataforma digital.
Já antes, na Terceira, a Diocese de Angra encerrara o diário A UNIÃO, após 120 anos de existência. Ao contrário mantém-se nas bancas o quinzenário “Jornal da Praia” e o matutino “Diário Insular”.
As ilhas de Santa Maria, Graciosa, Flores e Corvo, já não dispõem de qualquer órgão de imprensa escrita. Sabendo-se da importância dos jornais como fontes históricas das localidades, eles são igualmente repositórios de opiniões, de relatos sociais e festivos, de iniciativas empresariais, que permitem analisar, numa determinada época, as vivências e mentalidade das comunidades onde se inserem.
É uma lacuna grave, a “desertificação noticiosa” a que estão submetidas as populações longe dos centros de decisão, ignoradas nos seus anseios e problemas, o maior dos quais é o acesso aos cuidados de saúde.

José Gabriel Ávila *
* Jornalista c.p. 239 A
http://escritemdia.blogspot.com

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