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O estigma ainda existe — mas mudou de percepção

Dizemos frequentemente que hoje já se fala de saúde mental “sem tabus”. É verdade que o silêncio absoluto ficou para trás, mas acreditar que o estigma desapareceu é uma ilusão confortável. O preconceito não se evaporou; apenas se tornou mais educado, mais discreto, mais difícil de apontar. E talvez por isso seja ainda mais perigoso.
Durante anos, o estigma da depressão era explícito e quem padecia dela, vivendo com ansiedade, ou outra perturbação psicológica, era rotulado como fraco, instável ou inapto. Hoje, a sociedade aprendeu a usar uma linguagem mais suave, mas não necessariamente mais compreensiva. Por um lado, aceita‑se que alguém “não esteja bem”, desde que isso não perturbe o ritmo de trabalho, a produtividade ou a imagem de eficiência que todos somos pressionados a manter. Por outro, a vulnerabilidade é tolerada, mas apenas em pequenas doses e, de preferência, com prazo de validade.
Criou‑se uma espécie de “estigma polido”: ninguém critica abertamente, mas muitos esperam que o sofrimento seja discreto, rápido e oportunamente superado. Quem precisa de mais tempo ou não encaixa na narrativa inspiradora da recuperação imediata continua a ser visto como problema. A mensagem implícita é clara: podes ter dificuldades, mas não deixes que se note demasiado.
Ao mesmo tempo, as redes sociais trouxeram uma nova camada de complexidade. A saúde mental tornou‑se tendência, e o sofrimento, um assunto partilhável. Há até quem transforme ansiedade e exaustão em estética, criando uma versão higienizada da dor que pouco tem a ver com a realidade de quem enfrenta perturbações sérias. Esta romantização, embora pareça empática, acaba por banalizar experiências profundas e reforçar a ideia de que o sofrimento deve ser “bonito”, controlado e comunicável.
O estigma mudou na sua perceção, mas não na sua essência. Continua a existir sempre que alguém hesita em pedir ajuda, por medo de ser apontado com fragilidades, ou sempre que um trabalhador evita mencionar que está em burnout para não comprometer a carreira, ou sempre que tratamos a saúde mental como slogan motivacional e não como direito fundamental.
Se queremos atingir um progresso real, precisamos de mais do que discursos de circunstância, ainda que possam ser bem‑intencionados. Precisamos sim de criar espaços onde a vulnerabilidade não seja tolerada apenas quando é conveniente, mas verdadeiramente acolhida. Só assim deixaremos de disfarçar um preconceito antigo, com palavras modernas.
Fique bem, pela sua saúde e a de todos os açorianos.
Um conselho da Delegação Regional dos Açores da Ordem dos Psicólogos Portugueses.

Marta Ávila Amaral*
*Psicóloga clínica na Unidade de Saúde da Ilha de São Miguel

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