António José Seguro venceu as eleições presidenciais. André Ventura perdeu-as. Não se julgue, no entanto, que o socialismo deixou de constituir uma ameaça à governação em Portugal, nem se acredite que a extrema-direita esteja derrotada para sempre. Agora que temos um governo estável e uma governação moderada, ninguém deseja revisitar as trapalhadas de novos Sócrates ou Costas nos próximos anos. Se houver boa gestão e crescimento económico, Portugal encontrará a tão desejada estabilidade. E é pouco provável que Belém se transforme repentinamente num mosteiro socialista, ou que Seguro assuma o papel de diácono ao serviço da esquerda perdida.
Seguro, recém-chegado ao Palácio de Belém, ainda sem tempo de escolher a moldura para a fotografia oficial, e já há quem, nos media, debata se a sua presidência deverá ser demasiado cautelosa, demasiado confiante ou, talvez, excessivamente natural. Entretanto, nas discretas salas do Largo do Rato, há quem prepare argumentos com o mesmo cuidado com que se afiam facas de cozinha: silenciosamente, mas com clara intenção de decapitar a liderança do PS.
Quanto a Ventura, não se iluda quem pensa que uma derrota o deixará entregue ao silêncio contemplativo. O populismo raramente desaparece; recolhe-se, reorganiza-se e volta a emergir com a mesma persistência de sempre. E, como só o Chega sabe, não faltarão vídeos, “lives”, declarações inflamadas e, talvez, um ou outro apelo dramático à nação — tudo devidamente preparado para impacto imediato.
E assim seguimos: com um Presidente novo, uma oposição ruidosa e a eterna promessa de que “agora é que vai ser diferente”. A democracia portuguesa continua a ser um palco onde uns entram, tropeçam e gesticulam, enquanto outros fazem apartes e tentam roubar o protagonismo ausentando‑se das reuniões de concertação social — previsivelmente mais devido à folia do que à política. No meio de tudo, permanece o público — atento, dividido entre o entusiasmo e o cansaço —, mas fiel ao espetáculo.
Mas, enfim, Portugal não seria Portugal se não nos oferecesse, dia após dia, material fresco para rir… e suspirar por mais.
Luís Soares Almeida