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Recensão crítica do livro Educação, Didáticas e Formação de Professores: Complexidades, Literacias e Interdisciplinaridades(s) (I)

O livro Educação, Didáticas e Formação de Professores: Complexidades, Literacias e Interdisciplinaridades(s), coordenado por Emanuel Oliveira Medeiros e editado em 2025, por MIL: Movimento Internacional Lusófono, apresenta um conjunto de oito textos de autores de várias universidades da comunidade lusófona (Portugal, Cabo Verde, Brasil e Timor-Leste) e duas entrevistas a dois professores de Português sobre questões e diálogos transversais entre a Educação, a Filosofia ou a Literatura.
É precisamente, nesta perspetiva abrangente e multifacetada que a obra começa com a reflexão de Artur Manso sobre a “Pedagogia Crítica e Autonomia Pedagógica”, na qual se questiona o papel da escola na sociedade contemporânea, a partir de uma perspetiva crítica e humanista, através de uma análise profunda da pedagogia crítica, desde a sua origem, passando pelas contradições e potencialidades, de uma proposta de educação emancipadora, dialógica e transformadora. Para fundamentar a argumentação de que a escola deve ser um espaço dissenso, onde são incentivados a divergência de opiniões, a discordância e o debate de ideias, o autor recorre a pensadores como Paulo Freire, Ivan Illich, Hegel, Rousseau, e autores da Escola de Frankfurt, como Adorno e Marcuse. Contudo, apresentam-se também as contradições internas da pedagogia crítica, nomeadamente a incoerência teórica, que apresenta a escola ainda como instrumento de reprodução social e de domínio das classes dominantes, baseada em pedagogias libertárias e marxistas que ao apregoarem promessas de igualdade mais não fazem do que acentuarem entre pobres e ricos. De um modo geral, o texto de Artur Manso é uma contribuição valiosa para o debate sobre a pedagogia crítica e o papel da escola na sociedade contemporânea. A sua abordagem crítica, erudita e provocadora convida à reflexão profunda sobre os rumos da educação, desafiando tanto os defensores do status quo quanto os proponentes de reformas para uma visão mais transformadora da escola e da sociedade.
O texto apresentado por Ana Pedro e Carlos Maia faz uma análise detalhada dos conceitos de ensino, de aprendizagem e de educação, aos quais chamam de “três faces da mesma moeda”, para explicar que embora de alcance semântico diversificado, atuam na mesma dimensão pragmática. O termo ensino é entendido “como o processo pelo qual um instruído em saberes os transmite a um aprendiz […] por aprendizagem entende-se aqui a capacidade de usar, em situações idênticas e, sobretudo, análogas, o que foi ensinado” (p. 37), sendo a educação encarada numa perspetiva mais ontológica e de convivência, focada na estruturação do modo de ser da pessoa, sendo o objetivo final do processo. No ensaio discutem-se dilemas contemporâneos, como o conflito entre a necessidade de ensino formal e a apologia da individualidade do aluno e criticam-se propostas que negligenciam a importância do professor e de conteúdos que geram o próprio conhecimento.
Numa outra dimensão, Ana Pedro e Anelize Amaral refletem sobre a Ética e a Formação de Professores em Educação Ambiental do Brasil, reconhecendo através da análise documental de doze teses e dissertações realizadas no Brasil que a crise ambiental contemporânea é, de facto, uma ameaça existencial e uma questão ético-política fundamental. No entanto, o texto argumenta que a Educação Ambiental na formação de professores precisa incorporar uma dimensão ética de responsabilidade para formar indivíduos conscientes e comprometidos com a preservação do planeta.
Na sequência por capítulo, Adir Almeida refere-se a Anísio Teixeira e Arthur Ramos, dois intelectuais que se destacaram pelas suas lutas na educação pública e modernização do Brasil. A discussão foca nas aproximações e afastamentos teóricos entre eles, particularmente em relação ao conceito de cultura e o papel da escola como vector de inclusão social e avanço civilizador. A autora contextualiza a actuação de Anísio Teixeira e Arthur Ramos no efervescente cenário político e social da década de 1930 no Rio de Janeiro, abordando as dificuldades na pesquisa histórica sobre intelectuais e a busca por um projeto de unidade nacional através da educação. O artigo também explora o papel de Ramos na fundação do Serviço de Ortofrenia e Higiene Mental, que visava intervir nas escolas públicas, refletindo as tensões entre o ideal de “civilização” e a persistência do “mito da incompetência popular”.
Ainda no Brasil, Adjovanes Almeida e Rodrigo Magalhães, no artigo “Formação profissional e atuação docente dos professores da disciplina de História do Colégio Pedro III” analisam a formação profissional e a prática docente dos professores de História no Colégio Pedro II (CPII) que trabalham no Programa Nacional de Integração da Educação Profissional com a Educação Básica na Modalidade de Educação de Jovens e Adultos (PROEJA). O texto apresenta uma referência histórica do colégio, desde a sua fundação em 1837 até à sua equiparação a Instituto Federal. Os autores remetem para o plano curricular de História do PROEJA do Colégio Pedro III, focado no mundo do trabalho e cultura, e apresenta-se o perfil de formação e atuação dos professores desta disciplina que procura integrar a prática pedagógica com a valorização das culturas afro-brasileira e indígena.
Do Brasil para Cabo Verde, Carlos Sacadura fala da “Educação e conhecimento na perspetiva da filosofia crítica”. O texto retoma a relevância da filosofia crítica de Kant na educação e na revalorização das humanidades. As reflexões incidem sobre a necessidade de conceber a educação como um processo criativo e construtivo de conhecimento, em oposição à transmissão estagnada. O ensaio propõe uma dimensão ontológica para o currículo, focando no Sentido do Ser e da existência, e advoga pela religação dos saberes para uma cultura integral que supere a fragmentação disciplinar. O artigo termina com uma interessante “nótula sobre a poética cabo-verdiana” enquanto forma de potenciar a reflexão entre a poesia e o espaço filosófico influenciado pelos elementos naturais das ilhas.

(Continua)

Emanuel Oliveira Medeiros*
Professor Universitário

* Doutorado e Agregado em Educação, Especialidade de Filosofia da Educação
Centro de Estudos Humanísticos da Universidade dos Açores
Faculdade de Ciências Sociais e Humanas

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