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Saúde (do) Pública(o) (59)

Um mundo em mudança

“A Região Autónoma dos Açores teve uma semana de boas notícias: o Governo Regional anunciou um investimento superior a 9 milhões de euros na requalificação e aquisição de equipamentos para o Hospital da Horta, na ilha do Faial.”

Temas de Saúde da última semana: a preparar o próximo Inverno

Na última semana a saúde pública registou uma evolução positiva na maior parte do mundo ocidental: a época gripal, que foi particularmente intensa este inverno, entrou claramente em fase de declínio. Ao mesmo tempo, surgiram alertas ambientais e notícias sobre investimentos que prometem melhorar o acesso aos cuidados de saúde.
A “super gripe” de 2025-2026 continua a ser o tema dominante nos EUA. O subtipo A(H3N2) mantém níveis elevados de transmissão, com dezenas de milhares de novos casos semanais, centenas de hospitalizações e um número significativo de mortes, sobretudo em crianças e idosos. No entanto, os dados mais recentes do Centers for Disease Control and Prevention (CDC) mostram os sinais claros de declínio por todo o país.
A 27 de Fevereiro, a Organização Mundial de Saúde divulgou a composição recomendada para as vacinas contra a gripe da época 2026-2027, com actualizações importantes, a fim de enfrentar as variantes em circulação.
Já o European Centre for Disease Prevention and Control (ECDC) confirmou, na semana epidemiológica 8, o recuo generalizado dos vírus respiratórios. A gripe está em diminuição na maioria dos países e o vírus sincicial respiratório (VSR), que pressionou os serviços pediátricos em Janeiro, também perdeu força.
Duas importantes notícias positivas marcaram a semana: a Agência Europeia de Medicamentos (EMA) aprovou a primeira vacina combinada contra a COVID-19 e a gripe para adultos com 50 ou mais anos, e a Comissão Europeia reforçou a vigilância de casos isolados de gripe aviária em humanos (um caso em Espanha, sem transmissão pessoa a pessoa).
Em Portugal continental, a epidemia gripal está claramente em declínio, depois do pico de Janeiro. A Direção-Geral da Saúde (DGS) reportou a redução de casos, de internamentos e de infeções graves. Entre 24 de Fevereiro e 3 de Março, as atenções voltaram-se para a qualidade do ar: uma massa de poeiras do deserto do Sara provocou um alerta oficial, com recomendações especiais a idosos, crianças e pessoas com problemas respiratórios.
A Região Autónoma dos Açores teve uma semana de boas notícias: o Governo Regional anunciou um investimento superior a 9 milhões de euros na requalificação e aquisição de equipamentos para o Hospital da Horta, na ilha do Faial.
Com a chegada da Primavera, os especialistas antecipam o fim da época gripal em Abril e Maio, tanto nos EUA como na Europa e em Portugal. Espera-se uma redução significativa da pressão sobre os hospitais e um regresso gradual à normalidade nos serviços de urgência.
Nos EUA, o foco vai deslocar-se para as doenças crónicas e para a preparação da próxima época gripal, com as novas vacinas recomendadas pela OMS. Na Europa, a prioridade será a implementação das vacinas combinadas COVID-gripe e o reforço da vigilância de vírus emergentes (como a gripe aviária H5N1, o mpox e o vírus Oropouche), que os especialistas identificam como potenciais ameaças para 2026.
Em Portugal, o segundo trimestre deverá trazer avanços concretos na redução das listas de espera e na digitalização do SNS. O Orçamento do Estado para 2026 prevê aumento de verbas para a saúde, e as autoridades esperam que a campanha de vacinação contra a gripe (que decorre até abril) tenha contribuído para mitigar impactos futuros.
Até Junho, o grande desafio será manter a vigilância sobre novos vírus e aproveitar o período mais calmo para reforçar estruturas e prevenir futuras crises. Com os investimentos em curso e vacinas mais eficazes no horizonte, as perspetivas são de maior resiliência – desde que a prevenção e a cooperação internacional continuem a ser prioridade. A saúde pública, mais uma vez, mostra que a antecipação e a preparação são as melhores ferramentas contra as ameaças que virão.

Homenagens da semana

Esta semana, com a escalada do conflito no Irão – devido às persistentes ameaças à integridade do Estado de Israel e ao Ocidente, que levaram a acções coordenadas dos EUA e Israel, que resultaram na morte do líder supremo Ali Khamenei e de dezenas de altos responsáveis do regime do Irão –, e com os ataques (não provocados) iranianos aos países vizinhos neutrais (Iraque, Kuwait, Qatar, Bahrein, Emiratos Árabes Unidos, Arábia Saudita), o risco para a saúde pública é imenso.
Hospitais danificados, milhares de feridos, interrupção de serviços médicos essenciais, risco de surtos de doenças infecciosas e uma crise humanitária que pode atingir dezenas de milhões de pessoas na região. Face a este cenário, a homenagem mais justa e urgente vai para quem está na linha da frente, arriscando a própria vida para salvar outras.
O Crescente Vermelho (equivalente da Cruz Vermelha) merece a maior homenagem esta semana.
Desde o primeiro dia das acções, as suas equipas mantiveram-se operacionais apesar de várias instalações terem sido danificadas ou evacuadas. Reportaram já 500 mortos, mas continuam a prestar socorro imediato, a evacuar hospitais, a distribuir medicamentos e a montar postos de emergência improvisados.
Estes homens e mulheres – médicos, enfermeiros, socorristas e voluntários – trabalham 24 horas por dia em condições extremas, sem garantias de segurança, sabendo que o sistema de saúde iraniano já estava degradado antes da actual situação. A sua actuação impede que o número de vítimas inocentes seja maior e prepara o terreno para a resposta humanitária que inevitavelmente virá. Também as equipas de emergência da Organização Mundial de Saúde (OMS) merecem homenagem. A OMS activou imediatamente o seu mecanismo de resposta a emergências no Médio Oriente. Esta semana coordenou o envio de mantimentos médicos críticos, definiu planos de contingência para surtos (cólera, sarampo, infecções respiratórias) e apelou repetidamente à proteção dos hospitais como espaços invioláveis. O seu trabalho silencioso mas essencial está a preparar a resposta global ao que aí vem: ondas de refugiados, colapso de serviços de saúde e riscos de saúde pública transfronteiriços.
Esta acção dos nossos aliados, EUA e Israel, pode prolongar-se semanas ou meses, o Estreito de Ormuz está ameaçado (com um impacto directo nos preços globais e no acesso a medicamentos), e o risco de uma crise humanitária de proporções regionais é real. Nestes momentos, não são os políticos ou os generais que salvam vidas – são os profissionais de saúde que ficam quando todos os outros podem fugir.
A estes heróis anónimos – persas, árabes, internacionais –, que continuam a tratar feridos sob o som das sirenes e dos mísseis, a minha profunda gratidão e respeito. Eles não escolhem lados. Escolhem vidas. E esta semana, mais do que nunca, merecem ser recordados e apoiados.

Mário Freitas*
* Coordenador Regional de Saúde Pública

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