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Eduardo Ferraz da Rosa: A Lógica das Ideias: Estudos de Filosofia e Crítica Literária (II)

(Conclusão)

A Lógica das Ideias é o eloquente e comovente testemunho pessoal deste devotado combate que Eduardo Ferraz da Rosa se dispôs a travar, em obediência aos seus ideais e em atenção às dinâmicas que a vida social foi exigindo dele. Trata-se de um livro volumoso, quer pela espessura das 570 páginas que o compõem, quer também pela densidade e incitamento que descobrimos nos seus ensaios, crónicas, entrevistas e estudos vários. No seu conjunto, segue um estilo que oscila entre, por um lado, a pose convencional de uma cadência discursiva que corre ao ritmo da exposição doutrinária do pensamento dos autores, da dilucidação dos seus métodos de análise, do esquadrinhar das suas categorias filosóficas, do ordenamento das razões que sustentam as suas conceções, da discussão dos seus argumentos e, até mesmo, da sugestão de ilações para novos percursos e perceções. Em outras ocasiões, porém, num jeito aparentemente mais casual de discorrer e num estilo que junta erudição e empatia, como bem notou Mendo Castro Henriques no prefácio da obra, Ferraz da Rosa desprende-se da marcha compassada da exposição do pensamento dos autores para olhá-los a partir de cima, com um certo distanciamento. Dispondo-se a discorrer livremente, prossegue numa toada sedutora para, como ele próprio admite, ir «deixando propositadamente disseminados ao longo do texto uma série de caracterizações e indicações diretas e indiretas desses núcleos nocionais e respetivos modos de entendimento, conforme os mesmos aparecem e são assumidos na linguagem e nas categorias do pensamento» (42) dos vários autores.
Estes dois registos, que nos parecem matizar a variedade de textos que compõem a obra, conferem-lhe um singular equilíbrio, por reunirem num mesmo volume, a par de uma produção ensaística de teor convencional, um número significativo de textos, em geral de pequena e média dimensão, que oferecem ao leitor uma forma breve, clara e sugestiva de tomar contacto com os mais variados e atuais temas e pensadores que marcam a nossa contemporaneidade. Cumprem assim a alta missão de dar voz ao que se costuma denominar agora por “Ciência Viva”, só que dedicada ao domínio não das ciências positivas, mas da filosofia e da cultura. Muitos dos textos que compõem esta primeira parte do livro têm a graça de não encerrar o leitor no hermetismo de uma grelha teorética de princípios e categorias que se entrelaçam e contendem na edificação do correspondente sistema de pensamento, construindo e desconstruindo conceitos, confrontando argumentos de diversos autores e correntes para, por entre uma dialética de paralelismos e divergências, ir abrindo, no terreno do confronto, clareiras que projetam novos raios de luz. A par da austeridade, muitas vezes fastidiosa para os leitores menos familiarizados com formas mais elaboradas de pensamento, muitos textos, talvez pelo público variado a que inicialmente se destinavam, evoluem de forma desprendida das amarras de uma exposição disciplinada. Como quem sobrevoa uma paisagem, para fixar os seus pontos proeminentes, dando-nos depois, a partir deles, uma visão da totalidade. É como se víssemos uma construção a partir da sua arquitetónica e não olhando os pilares, vigas e alçados que formam a sua estrutura. O procedimento só na aparência se poderá considerar fácil de realizar ou classificar até de ligeiro, porém não será assim, só os espíritos preparados lograrão alcançar esta arte, que dispõe na retaguarda de um longo percurso de proximidade com a obra dos autores. Sem se deixar ficar refém da análise pormenorizada do pensamento ou das conceções deste ou daquele filósofo, um procedimento que retalha o discurso e introduz alguma dispersão, Ferraz da Rosa surpreende-nos, muitas vezes, ao longo do livro, com uma exposição global do seu pensamento, que ajuda a apurar a nossa sensibilidade para se situar com autonomia nos debates que fazem vibrar o nosso tempo. Numa abordagem exemplar e literariamente sedutora, dispõe-se a olhá-los a partir de cima, com olhar fino e apurado, baixando depois sobre eles, para os apresentar no que representam de vital para os dias de hoje.
A dado momento da nota introdutória ao livro A Lógica das Ideias, Ferraz da Rosa debate este problema da heterogeneidade de áreas e até dos géneros e estilos dos textos reunidos. Toma como sua a pergunta de Nemésio sobre o que poderá dizer um autor sobre a sua obra. Estou em crer que a resposta se há de encontrar no simples olhar do seu percurso de vida, feito de leituras e de escrita que é sempre a forma do pensamento irromper no silêncio meditativo de um estudo persistente. É neste sentido que interpretamos a resposta que o autor avança para dar razão porque reuniu num mesmo volume textos de filosofia e de crítica literária. É que eles partilham de um mesmo universo hermenêutico, ou como no próprio escreve: «as categorias analítico-conceptuais e interpretativas presentes nos estudos filosóficos, e mesmo na crítica literária (…) decorrem todas do pensamento e da intencionalidade do mesmo sujeito epistemológico». O autor não muda de pele quando se ocupa de filosofia ou quando faz análise literária, mas transporta sempre consigo os sedimentos filosóficos, culturais, existenciais que a sua vasta mundividência foi dando acolhimento e que Mendo Castro Henriques, no penetrante prefácio a que já aludimos, caracterizou como sendo constituído, entre outras dimensões, por duas em particular, que fazem Ferraz da Rosa «um filósofo do humano e da transcendência».
[…]
O cuidado com o ser encontra-se no centro da reflexão, colocando-nos perante o que é importante pensar. A atividade conheciiiva, que nasce do contacto direto com o mundo, com os outros e connosco mesmos, coloca-nos perante a questão de saber se as nossas perceções correspondem a alguma realidade ou se não passam de uma ficção enganosa. Joga-se neste primeiro contacto uma experiência que ultrapassa a simples recolha das aparências diretamente percebidas, mas põe em andamento todo um labor discursivo empenhado em traduzir por meio da linguagem a densidade do enigmático sentido dessa experiência. Torna-se notório neste momento a estreita aproximação ao caminho aberto por À Porta do Ser e por Linguagem e Ser de José Enes que ocupam os dois primeiros grandes ensaios do livro, em que Ferraz da Rosa se detém com muita acribia na análise do denominado método da análise expectante que nada mais é, no fundo, que um esforço para reconduzir as nossas categorias conceptuais e linguísticas ao sentido original da experiência sensível e que a linguagem procura traduzir. Esta refontalização do conceito à sua matriz primitiva, que se conhece pelo nome de sentido do sentido, está longe de ser um jogo de palavras vazio, mas procura remeter-nos para a experiência primitiva em que o ser das coisas e do eu se revelou de forma incondicional, mas de que a discursividade humana se foi afastando, ao ponto de a perder de vista.
Todavia, o caminho que Eduardo Ferraz da Rosa vislumbra na ontologia contemporânea não se reduz a uma dimensão epistemológica ou noética, se quisermos utilizar o vocabulário de Enes, mas abre-se simultaneamente para a transcendência, quer numa perspetiva místico-teológica, quer numa perspetiva ética, como dão testemunho os diversos ensaios que exploram estas duas dimensões, com destaque para os que dedica a Simone Weil e Antero de Quental, assim como os que versam temáticas da Antropologia, da Ética e da Metafísica.
Estamos perante um livro que tem tanto de sugestivo como de aliciante e que, apesar da complexidade dos temas que aborda, consegue não deixar de envolver o leitor numa experiência de pensamento capaz de interpelar os que ousarem iniciar a sua leitura. Resta-me, ao terminar, felicitar o autor, prezado amigo e colega Eduardo Ferraz da Rosa, por mais esta compilação dos seus ensaios, no seguimento de outros já publicados, como Os Sinais da Escrita, de recorte Nemesiano, recém-publicado, e O Risco das Vozes, com mais algum tempo de vida, e agradecer aos presentes o acolhimento que se dignaram dispensar-me.

José Luís Brandão da Luz
(Professor Catedrático)

Emanuel Oliveira Medeiros*
Professor Universitário

*Doutorado e Agregado em Educação, Especialidade de Filosofia da Educação
Centro de Estudos Humanísticos da Universidade dos Açores
Faculdade de Ciências Sociais e Humanas

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