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Os tempos que aí vêm

1. A situação de insegurança que se vive no Médio Oriente, criada pela invasão do Irão pelos Estados Unidos e Israel, ainda agora está no início, mas já se adivinham nefastas consequências sociais, económicas e militares para os diversos países envolvidos ou não no conflito. Até nós, que mourejamos neste Arquipélago Atlântico, seremos atingidos pelos seus efeitos, e muito longe estamos do teatro das operações.
O certo é que, de um momento para o outro, devido às potencialidades dos arsenais militares envolvidos, já não vivemos descansados com a presença das forças do nosso parceiro norte-americano.
De um momento para o outro – sabe-se lá – a pacatez deste pequeno mas conceituado destino turístico pode ser afetada, devido à utilização pelos EUA da Base das Lajes. Isso prejudicará o arquipélago que, paulatinamente, se destacava nas preferências dos operadores turíticos e dos visitantes e a economia insular conhecerá uma quebra ainda maior do que a que está a ser constatada.
Não pode esperar-se que, de um momento para o outro, os Açores atinjam a mesma e constante procura ao longo do ano. Isso só acontece em destinos há muito consagrados. Noutros como as ilhas gregas e a Sicília, na época baixa, a grande maioria das unidades hoteleiras encerra e só em alguns casos funciona para o chamado turismo de congressos, segmento a que muitos países e regiões se candidatam como forma de rentabilizar a oferta de instalações existente.
Em muito poucos anos demos passos importantes no setor turístico. A oferta hoteleira açoriana cresceu em todas as ilhas, nos vários segmentos, nomeadamente no turismo em espaço rural e no alojamento local. Há notícia da construção de novas unidades hoteleiras e do crescimento do comércio de restauração e similares. Todavia, todo o setor se depara com dificuldades na contratação de mão de obra, preparada e competente para o desempenho das respetivas funções, a que não são alheios os baixos salários.
Como se tudo isto não bastasse, e que afeta os investimentos recentemente efetuados com apoios privados e comunitários, estamos perante uma crise de contornos económicos previsíveis mas não totalmente comprovados.
Se o conflito no Médio Oriente se prolongar, as consequências refletir-se-ão nos destinos mais frágeis e inseguros, como o nosso. Ao contrário, se as desejadas alterações no regime iraniano forem bem sucedidas e aceites pela população – o que dificilmente se consegue – pode acontecer que os fluxos turísticos da América do Norte e da Europa mantenham a opção pelo destino Açores.
Perante a instabilidade social e económica em que vivemos, vale a pena os açorianos repensarem o seu processo de desenvolvimento e a sua atividade económica.
A História Económica Açoriana tem vivido de ciclos de crescimento e declínio, alguns mais bem sucedidos que outros. Os mais recentes tiveram a ver com a agro-pecuária – produção e transformação do leite – e pecuária -produção de gado bovino para exportação.
Nos últimos anos a indústria turística deu um salto exponencial e arrastou consigo a indústria da construção civil, o comércio e serviços e o setor do emprego. Tudo isto dependente do imprescindível clima de paz e do bom desempenho das economias.
Que os responsáveis das nações tudo façam para incrementar o entendimento entre os povos e não usem as armas como primeira e principal força para atingir o bem-comum e a paz.

2. O Governo visitou esta semana a ilha do Pico. Há décadas que essa norma estatutária é cumprida e, que me lembre, em todas as deslocações dos Executivos, a Saúde constou das agendas apresentadas pelos Conselhos de Ilha. Significa esta insistência que o problema não foi nunca examinado e resolvido como devia.
Há anos, foi prometido que as novas instalações do Centro de Saúde de São Roque teriam a valência de partos, mas tal não aconteceu.
Depois contruiu-se um novo Centro de Saúde na Madalena e julgava-se que fosse o início de uma nova resposta do SRS aos doentes picoenses, dotada das especialidades mais requisitadas pelos utentes da “Ilha Maior”. Tal não veio a acontecer e os internamentos passaram a ser, na grande maioria, para doentes terminais ou de passagem para um dos três hospitais de referência.
Nem as consultas de especialidade ali ocorrem, pelo que os picoenses continuam a ter de passar o canal para esse efeito, mesmo que seja para conhecer o anestesista de uma cirurgia que não se sabe quando acontecerá, e que podia ser efetuado através de uma teleconsulta.
Ao contrário do que afirmou o Presidente do Governo não existiu em 2025 “um reforço significativo da atividade assistencial na Ilha” pois “cerca de 42% das consultas foram nas áreas da fisiatria e da medicina interna” – especialidade do Centro de Saúde da Madalena que é acometida a um clínico do Hospital da Horta.
Se quem informou J.M.Bolieiro não tivesse escondido os dados das restantes especialidades ter-se-ía constatado que o número de consultas era irrisório face às deslocações diárias de doentes ao Hosp. Da Horta, onde eles não têm qualquer prioridade no atendimento.
Importa, pois, em abono da verdade, dizer que, em 2025 e relativamente ao ano anterior, realizaram-se na Ilha do Pico, segundo dados do SREA, menos 13.642 consultas de medicina geral e familiar: 97.411 em 2024 e 83.769 em 2025. Este retrocesso no atendimento dos utentes picoenses aconteceu ao longo do ano, sem que fossem tomadas medidas para inverter a situação.
A indiferença face à inexistência de médicos de família para 4.500 utentes – um terço da população picoense – é deveras preocupante, pois sabe-se da demora que o processo de recrutamento de pessoal médico habitualmente tem.
É por isso que, ao contrário do que afirma Governo, é cada vez mais urgente a criação do Centro Hospitalar Faial-Pico e de uma Unidade de Saúde conjunta, cujos profissionais complementariam a falta que agora se regista, sem se saber se será ou não preenchida.
É uma reforma necessária do SRS que tem de ser executada rapidamente, mesmo contrariando interesses de classes.
No continente, este tipo de prestação de cuidados hospitalares de saúde beneficiou as populações.
Nos Açores, há ou não coragem para seguir os bons exemplos e alterar o funcionamento hospitalar a bem das populações mais desprotegidas?
Fica a pergunta, para uma resposta corajosa e urgente.

José Gabriel Ávila *
* Jornalista c.p. 239 A
http://escritemdia.blogspot.com

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