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Peixe do meu quintal

Importância geoestratégica
dos Açores
Ao longo dos séculos e pela impossibilidade de a mobilidade humana alcançar enormes distâncias sem que através dos percursos houvesse a obrigatoriedade de paragens pelo permeio, as navegações marítimas tentavam encontrar poisos ou bases nas quais os reabastecimentos básicos fossem adquiridos – água, víveres, descanso, etc.. Essas paragens eram demarcadas e registadas para eventuais viagens e ficavam conhecidas nos meios navegantes como de extrema importância em toda a cartografia praticada.
Desde muito cedo que o Arquipélago dos Açores tomou essa primordial importância.
Embora o intervalo temporário tenha apagado muitas pegadas dos povos da antiguidade na sua passagem pelas Ilhas Açorianas, é possível saber hoje que povos como os Fenícios, por muitos considerados os maiores navegadores da antiguidade, pioneiros na construção naval e conhecidos pela invenção da quilha e calafeto e difusores do alfabeto, comércio de púrpura e expansão pelo Atlântico. Chegaram a permanecer algum tempo nalgumas Ilhas. No entanto, as pesquisas indicam que provavelmente derivado à distância – que naquela altura era muito difícil alcançar de forma regular – ou acidentes naturais, levaram os Fenícios a desistirem de qualquer colonização. Se deixaram pessoas para trás, o tempo se encarregou de as fazer desaparecer no oceano imenso (século XIII a XII a.C.). Isto terá sido há mais de três mil anos.
Depois e durante séculos, as Ilhas quedaram-se isoladamente sós. As guerras, as conquistas, os impérios, enfim, o desenrolar civilizacional, envolvia os continentes mundiais, sem tempo para se dedicarem a pequenos e isolados territórios, cuja modesta riqueza a explorar era insignificante e até desconhecida. Com o passar de gerações e contextos, a memória coletiva foi esquecendo as breves aventuras dos Fenícios ou de outros povos que terão feito tentativas aventureiras às Ilhas Atlânticas, como os viquingues, reconhecidos pelas suas navegações, incluindo incursões e explorações, embora mais tardios na cronologia geral da antiguidade.
E chegamos – troteando os séculos – ao século quinze da era cristã e ao Infante D. Henrique de Avis, quinto filho de D. João I e da inglesa Filipa de Lencastre. A este Príncipe se deve – e todos estão de acordo nisto – se deve as “descobertas intencionais”, para utilizar o termo de José Hermano Saraiva. Descobertas metódicas e científicas e não ocasionais. E neste contexto, já o Infante D. Henrique compreendeu a magna importância da geografia das Ilhas açorianas, chegando mesmo a pedi-las a seu irmão, o rei D. Duarte, o qual as concedeu. Passou a ser o Donatário (proprietário) das Ilhas. É que D. Henrique sabia que, Ilhas localizadas em tão vasto espaço atlântico, davam naturalmente uma grandeza a Portugal que até então não tivera. Além disto, o Infante era administrador da Ordem de Cristo, descendente forçada por Roma, da riquíssima Ordem dos Templários e estes tinham conhecimentos sobre a existência de terras ‘do outro lado do atlântico’ desde cerca de 1130. Ora D. Henrique tinha, pelo menos, duas razões para saber disto em 1419 quando começou pela Ilha de Porto Santo e em 1425 nas explorações da Ilha da Madeira.
A primeira razão, a sua influente posição na Ordem de Cristo, como herdeiros da Ordem dos Templários; A segunda razão, seu irmão o Infante D. Pedro, que viajava por toda a Europa e tinha contatos e acessos importantes a todo o tipo de informações. No regresso, o Infante Pedro passava tudo o que sabia, a seu irmão Henrique. Era com toda esta recolha de dados, que D. Henrique planeava cientificamente, rodeado de cientistas náuticos e cosmógrafos. Nas décadas que se seguiram, Portugal passou a ser uma potência marítima mundial, ao ponto de dividir o novo mundo com Castela, no Tratado de Tordesilhas (7 de junho de 1494).
Passados alguns séculos, em que a importância geoestratégica dos Açores se manteve com mais ou menos relevância, segundo os contextos bélicos de cada era, chegamos aos dias de hoje e de como o mundo novo de D. Henrique se transforma na potência atual denominada Estados Unidos da América do Norte. Novamente os Açores assumem o seu papel histórico e prestam o seu contributo às causas beligerantes dos novos conquistadores. Aqui, não se trata de qualquer Direito Jurídico ou Internacional. Trata-se de Portugal reconhecer que o seu lugar no mundo de hoje, seria irrelevante sem as Ilhas Atlânticas que a visão henriquina profetizou.
É incontornável, a situação de suprema importância estratégica dos Açores para Portugal. E cada vez mais, será de inteira justiça que Portugal reconheça essa realidade, tratando os Açores de igual para igual e não menosprezando a sua existência.
O primeiro presidente da RAA, João Bosco Soares da Mota Amaral, costumava dizer: “Portugal tem de reconhecer os Açores, não como um território de Portugal, mas como Portugal no Atlântico”.
José Soares

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