Quando a tua cabeça começar a “correr” mais rápido do que tu, e o medo se instalar, para um pouco. Respira. Reflete. Nota. “Não estás sozinho”. Na verdade, o medo é uma emoção básica cuja principal função é alertar-nos para o perigo, seja ele real ou não, isto é, percecionado. Surge muitos vezes quando somos confrontados com algo novo: um desafio diferente, uma mudança inesperada, uma decisão importante ou simplesmente uma situação que nos afasta da zona de conforto. Não porque exista uma ameaça real, mas porque interpretamos o desconhecido como tal. O nosso “sistema de alarme” interno dispara com a maior rapidez. E, tal como eu, como tu, tantas outras pessoas já passaram por isso.
Ainda assim, porquê o “medo”? Ao longo da vida, surgem medos, por vezes, não os ditos reais- como um cão raivoso atrás de nós (situação em que o nosso corpo se prepara para agir ou, por outro lado, fica imóvel), mas os medos ditos “silenciosos”: se estamos a fazer a escolha certa, se somos capazes, se o caminho que seguimos faz sentido, (…) e outros tantos “se”. Pensamentos que aparecem quase automaticamente e que, de mãos dadas com a nossa ansiedade, antecipam cenários que muitas vezes nunca chegam a acontecer. E, mais uma vez, o “medo” não tem culpa – apenas está a desempenhar a sua função protetora.
O importante é refletir e perceber que, independentemente da fase da vida em que nos encontramos, da idade que tenhamos, da profissão que exerçamos ou de uma nova situação que iremos vivenciar, a certa altura o nosso “alarme” dispara. E é nesse momento que devemos parar e tomar consciência do que estamos a sentir. Dar conta. Porque faz parte. E faz parte tolerar o desconforto, mesmo quando ele incomoda. Depois, cabe-nos ponderar e perceber se nos sentimos capazes de enfrentar esse “perigo” — que, muitas vezes, não passa de um receio de tentar, de não saber a resposta ou de não controlar o que se sucede. É precisamente aí que, mesmo com medo, após essa análise refletida, arriscamos. Porque é dando esse passo, saindo da zona de conforto e tocando no desconhecido, que “descobrimos” outras tantas emoções e sensações agradáveis que até valeram a pena o desconforto.
Para ti, que estás a ler este pequeno texto, espero, ainda que de forma simples, que entendas que o teu “alarme interno” pode tocar a qualquer momento. E isto não te torna frágil ou estranho, torna-te humano. Não estás sozinho – nunca estiveste.
A ti, medo, obrigada.
Fique bem, pela sua saúde e a de todos os açorianos!
Um concelho da delegação Regional dos Açores da Ordem dos Psicólogos Portugueses.
Filipa Botelho Ponte