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Sazonalidade no turismo dos Açores

Nos Açores, o turismo continua a viver em “duas velocidades”. Os dados de 2025 voltam a confirmar um padrão que o Gabinete de Estatística da União Europeia (Eurostat) descreve como estrutural
na Europa, sobretudo em regiões costeiras e insulares: o verão concentra a procura e o inverno fica com volumes modestos. No arquipélago, agosto voltou a ser o mês “rei”, com 711,5 mil dormidas,
enquanto janeiro se ficou pelas 130,3 mil, uma diferença de cerca de cinco vezes e meia

A fotografia anual do turismo açoriano repete, quase sem desvios, o padrão que o Gabinete de Estatística da União Europeia (Eurostat) descreve como estrutural na Europa: a procura concentra-se no verão e baixa nos meses frios, uma assimetria que tende a ser mais nítida nas regiões costeiras e insulares.
Em 2025, o arquipélago voltou a ter um mês claramente “rei”: Agosto, com 711,5 mil dormidas. No outro extremo, janeiro ficou pelas 130,3 mil. No pico do Verão, a procura foi, assim, cerca de cinco vezes e meia superior à registada no arranque do ano.
O crescimento recente não alterou esse eixo. No conjunto da hotelaria, do alojamento local e do turismo no espaço rural, os Açores somaram 4.509.613 dormidas em 2025, mais 4,5% do que no ano anterior, segundo o Serviço Regional de Estatística dos Açores (SREA). E quando se olha para a época baixa, a conclusão pouco muda: somando janeiro, fevereiro, novembro e dezembro, o “inverno estatístico” fechou 2025 com 599.137 dormidas, o equivalente a 13,3% do total anual.
Também o “efeito julho-agosto” se mantém. Em julho de 2025 registaram-se 638,5 mil dormidas e, com agosto, os dois meses somaram perto de 1,35 milhões, ou seja, cerca de 30% do total anual. É um valor muito próximo do que o Eurostat assinala à escala europeia: 31% das dormidas anuais na União Europeia (UE) ocorreram em julho e agosto de 2024, com 449 milhões em julho e 493 milhões em agosto.
A concentração, aliás, não é uma singularidade açoriana. O Eurostat descreve-a como um traço dominante do turismo europeu e, quando o olhar se detém sobre o mapa, isso torna-se ainda mais claro. Em 2024, uma em cada seis regiões da Nomenclatura das Unidades Territoriais para Fins Estatísticos de nível 2 (NUTS 2) com dados disponíveis concentrou mais de 40% das dormidas anuais nos dois meses de topo, um fenómeno com maior incidência nas regiões costeiras.
Para os Açores, esta comparação tem duas utilidades. A primeira é simples: retira dramatismo ao diagnóstico, porque a sazonalidade não é um “desvio” açoriano, mas o normal europeu em destinos de lazer. A segunda é mais exigente: coloca a discussão onde ela é mais difícil, na dependência das acessibilidades e na forma como a oferta se organiza para responder aos picos.
Os dados do SREA mostram isso com nitidez no alojamento local, o segmento mais flexível da oferta. A capacidade “com movimento de hóspedes” oscila com o calendário: em janeiro de 2025 estavam ativas 8.367 camas; em agosto eram 21.371. A oferta disponível no mercado acompanha, assim, de forma natural, a procura. O reflexo aparece na ocupação: a taxa bruta de ocupação-cama no alojamento local foi de cerca de 18,8% em janeiro, contra 53,7% em agosto. A expansão do parque, sobretudo no alojamento local, tende a aumentar a distância entre o pico e a época baixa e a pressionar a rentabilidade fora da época alta.
É aqui que entra a Associação Internacional de Transporte Aéreo (IATA), não como “termómetro” do turismo, mas como peça do mecanismo. A IATA estrutura a operação em duas épocas, verão e inverno, usadas para planear rotas e capacidade. O verão começa no último domingo de março; o inverno, no último domingo de outubro.
O resultado é um mercado que funciona por temporadas. E a transição é visível nos dados europeus: a Organização Europeia para a Segurança da Navegação Aérea (EUROCONTROL) assinala que, em outubro de 2025, o sistema começou a refletir a passagem ao horário de inverno, com redução de voos programados face a setembro. Para territórios insulares, esta engrenagem pesa ainda mais, porque o avião não é apenas mais um meio de transporte. Em vários destinos europeus fortemente dependentes do lazer, o transporte aéreo domina as entradas intra-UE com 96% em Chipre e Malta, 88% na Irlanda, 85% na Grécia e 78% em Espanha (insular).
No próprio dossiê regional, o Eurostat é explícito: as regiões mais remotas, incluindo as regiões ultraperiféricas, “sofrem flutuações sazonais” e são “totalmente dependentes de ligações aéreas”.
Na hotelaria, na restauração e no rent-a-car, a sazonalidade não é uma anomalia, é o modelo de negócio em grande parte da Europa. Um relatório da Autoridade Europeia do Trabalho (AET) sobre o setor de hotéis, restaurantes e catering (HORECA) mostra como esse modelo entra diretamente no mercado de trabalho. No conjunto da UE, os trabalhadores com contrato temporário representavam cerca de 11,5%; no HORECA, a proporção aproximava-se de 20%.
O mesmo relatório descreve instrumentos criados para lidar com os picos. Em Espanha, por exemplo, os contratos “fixos-descontínuos” formalizam trabalho intermitente associado à sazonalidade; na Croácia, surge a figura de “trabalho sazonal permanente” e um subsídio associado, desenhado para cobrir o período de menor atividade.
A mobilidade laboral faz parte deste ecossistema e a Autoridade Europeia do Trabalho (AET) estima que existam entre 650 mil e 850 mil trabalhadores sazonais móveis dentro da União Europeia. No turismo europeu, essa circulação de mão de obra é particularmente dinâmica, acompanhando os picos de procura entre regiões e épocas do ano. Há trabalhadores que passam a época alta no sul da Europa, em destinos balneares e urbanos, e que, terminado o verão, continuam ativos no setor turístico no norte do continente, nomeadamente em estâncias de neve. Para as regiões insulares, porém, este ajustamento é mais difícil, devido à menor dimensão do mercado, à limitação do tipo de oferta turistica e à menor capacidade para atrair trabalhadores ao longo de todo o ano.
Do lado empresarial, a Confederação Europeia da Hotelaria, Restauração e Cafés (HOTREC) tem insistido num princípio operativo: manter uma equipa base e reforçá-la com contratos temporários, sazonais ou a tempo parcial quando a procura dispara, como forma de garantir continuidade sem carregar custos fixos durante todo o ano, um pragmatismo com custos de estabilidade laboral, que nos Açores é pouco enquadravél.
Os dados recentes da EUROCONTROL mostram que o crescimento do tráfego europeu tem sido impulsionado pela procura turística e de lazer, com melhor desempenho dos países do sul da Europa e maior dinamismo do segmento low cost. Em 2024, este segmento representava 34% dos voos europeus e crescia mais do que o segmento mainline; em 2025, passou a 35,2%, ultrapassando pela primeira vez as companhias tradicionais em quota de voos.
O passageiro, ou turista, associado às low cost viaja sobretudo em rotas intraeuropeias, de curto curso e ponto a ponto. A própria literatura oficial europeia sobre low cost sublinha que este modelo assenta em voos maioritariamente short-haul, operação simplificada e foco no custo, enquanto a EUROCONTROL descreve o segmento como fortemente presente em rotas curtas e com elevada produtividade operacional.
Há, além disso, um traço sazonal muito claro. O “turista low cost” europeu, por estar fortemente ligado ao lazer, reproduz o mesmo padrão de concentração temporal da procura turística. O Eurostat mostra que, em 2024, 50% das viagens longas, de quatro ou mais dormidas, dos residentes da UE ocorreram entre junho e setembro, e que agosto concentrou 17% dessas viagens longas. Na oferta de alojamento, julho e agosto concentraram 26% das chegadas anuais e agosto representou 16% das dormidas na UE, com o pico de verão a ficar perto de quatro vezes acima de janeiro em noites passadas em alojamento turístico.
Do lado da procura turística europeia, o enquadramento do Eurostat ajuda a perceber porque este perfil encaixa nas low cost. Em 2024, os residentes da UE fizeram cerca de 1,2 mil milhões de viagens turísticas com dormida, das quais 89,7% por motivos pessoais e 92,2% dentro da própria União Europeia. Ou seja, o grosso do mercado turístico europeu é precisamente um mercado de viagens pessoais e intraeuropeias, o terreno natural onde as low cost são mais fortes.
É um perfil que se estende também a destinos regionais e insulares e que tende igualmente a concentrar-se nos meses mais tradicionais de férias, existindo, porém, uma quota de turistas que optam pela época baixa atraídos pelos preços promocionais das companhias, para viagens, essencialmente, de curta duração. Este segmento, tem tido uma particular importância, nos Açores, na época baixa e tem vindo muito dependente de uma única companhia low cost que, entretanto, abandona o mercado açoriano.
De uma forma global, estes turistas tendem a ser relevantes para destinos secundários, regionais e periféricos, onde as low cost operam com frequência em aeroportos secundários ou menos congestionados, contudo podem abrir e fechar mercados com rapidez. O EPRS assinala que na época baixa as low cost melhoram acessibilidades e ajudam a dinamizar economias locais e destinos fora dos grandes hubs, existindo margem para trabalhar a época baixa.
O Eurostat aponta que os turistas com 65 anos ou mais apresentam um padrão menos sazonal e viajam relativamente mais na primavera e no outono, precisamente os períodos em que muitos destinos tentam alongar a época com produto e comunicação dirigida. E a Comissão Europeia, no documento de transição para o turismo, refere que uma larga maioria de europeus diz estar disponível para alterar hábitos por razões de sustentabilidade, incluindo viajar fora da época alta.
A discussão, porém, já não é apenas económica. O Eurostat avisa que a concentração em poucos meses pode ter impactos ambientais, nos resíduos, na água e na energia, e impactos sociais, no mercado de trabalho, na qualidade do serviço e no apoio das comunidades. Noutra análise regional, o mesmo organismo nota que, em regiões onde cresce a oferta de alojamento de curta duração, a acessibilidade da habitação pode tornar-se um problema premente, com menos arrendamento de longa duração, subida de preços e pressão sobre infraestruturas.
E há ainda o tema do transporte. O Eurostat regista que o subsetor dos transportes aéreos foi o único grande subsetor de combustão de combustíveis a aumentar emissões entre 1990 e 2023: mais 25%, o equivalente a mais 210 milhões de toneladas de dióxido de carbono equivalente. Ao mesmo tempo, a aviação internacional subiu de 7% para 12% do total das emissões dos transportes, regressando a esse patamar de 12% em 2023, depois da quebra provocada pela pandemia.
No plano mais local do bem-estar, o Eurostat assinala também que os aeroportos continuam a ser fontes importantes de poluição sonora localizada e que 18,2% da população da UE, cerca de 82 milhões de pessoas, declarou sofrer perturbação por ruído em 2023.
No fim, o que os dados oficiais sugerem é que a sazonalidade turística nos Açores não é um “caso de exceção”, mas antes um alinhamento com a tendência europeia, em geral, e com a realidade dos destinos insulares, em particular, onde o verão concentra a procura e o inverno mantém volumes modestos. A capacidade adicional, com o aumento sistemático de camas, ajuda a acomodar os picos de turistas no verão e contribui para elevar os rácios anuais de turistas e de dormidas, mas pode, por si só, contribuir também para um aumento de camas vazias na época baixa.

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