“Estamos sujeitos, como qualquer outro território mundial, a possíveis atos de terrorismo, mas para minimizar tal poderemos considerar estar no meio do Atlântico e termos controlo, espero eu, dos acessos ao nível das fronteiras.”
Sinto-me seguro! Não por o futuro presidente da República ser quem é e de nome Seguro, mas porque, apesar de todo o movimento militar americano na Base das Lajes e o perigo que tal pode significar, o presidente do governo regional, o “grande líder” José Manuel Bolieiro, através da comunicação social regional ter garantido que os residentes nos Açores podem estar descansados porque é seguro que a sua utilização não originará qualquer retaliação por parte dos iranianos.
Afirmou estar em contato “permanente” com o primeiro-ministro Montenegro, num diálogo de entendidos(?) sobre o que está a ocorrer no médio oriente, mostrando uma dinâmica dialogante como se qualquer um deles possuísse capacidade humana ou mesmo politica para exercer pressão reivindicativa, quando nem verbalmente conseguiram mostrar um “poucochinho” de oposição ao que Trump “anda” a mandar fazer.
Neste intimo diálogo (de surdos, como se costuma dizer) passou longe de Bolieiro as reuniões que Montenegro manteve com o seu “séquito”, onde poderia exigir ou melhor solicitar por favor, o conhecimento antecipado do movimento de equipamento militar aéreo no Arquipélago. Enfim, nem o primeiro-ministro sabia. Esqueceram-se que, até hoje, a Base é Portugal!
Pessoalmente aceito a segurança geográfica de viver nos Açores, nunca pela garantia dada por Bolieiro, mas porque de entre o equipamento bélico que os iranianos possuem, não existe um – entre drones, mísseis e outros – que tenham um raio de ação superior a dois mil quilómetros.
Será que a segurança que o presidente do governo regional nos garantiu se baseou no facto de estarmos a mais de cinco mil quilómetros do Iraque? Estamos sujeitos, como qualquer outro território mundial, a possíveis atos de terrorismo, mas para minimizar tal poderemos considerar estar no meio do Atlântico e termos controlo, espero eu, dos acessos ao nível das fronteiras.
Bolieiro quis “dar uma imagem” de quem tem poder decisório a nível internacional! Vive, como usualmente, no mundo glorioso das ilusões! Em abono da verdade nem consegue decidir convenientemente a vida dos residentes nos Açores, ou seja de menos de ¼ de milhão de habitantes, que carecem para a vida diária de muito mais do que ele convictamente diz que está tudo bem, que estamos numa situação de crescimento ou que está tudo como deve ser nos setores da saúde, da educação, da habitação ou mesmo da gestão das empresas públicas.
Relembremos que na semana passada, assemelhando-se a outras situações, como por exemplo no fim de 2025 na Sata, que até a Lotaçor tinha salários atrasados.
Entretanto Montenegro parece uma “nuvem bem negra carregada de chuva, encobrindo o sol mais esplendoroso” quando o comparamos com a atitude do primeiro ministro espanhol Pedro Sánchez que, independentemente das consequências, demonstrou oposição a que o autocrático presidente americano utilizasse as bases americanas em território espanhol. Sem medo de represálias!
Até responsáveis comunitários e de alguns países lhe deram razão, sem medo e como representantes de uma velha e digna Europa perante o paupérrimo mundo novo de Trump.
Sánchez anteriormente já se tinha oposto à decisão “trampiana” sobre o aumento do valor percentual a entregar por cada país para a NATO, decisão autocrática em que assumiu descaradamente que a organização é sua.
Sánchez justificou a decisão, sobre as bases espanholas, com o não querer cometer o “mesmo erro do passado” por Aznar, que terá a ver com a invasão do Iraque, precisamente quando Portugal foi bem enganado e aceitou (ou foi obrigado?) a ser mestre de cerimónias numa reunião para decidir da invasão, em março 2003, na denominada “Cimeira dos Açores”, na Serreta, na ilha Terceira.
São factos como estes, no conjunto de muitos outros da governação na República, que originam não só que apareçam partidos como o “chega” ou algum Coelho que parecendo sair da “cartola de algum mágico” e com Passos suaves e sem alarido, vai empurrando o primeiro-ministro para o desaparecimento no “abismo”, permitindo antever uma coligação com a extrema direita.
Pobres sociais democratas que parecem já não se lembrarem do sofrimento diário que foi (sobre)viver, para a grande maioria dos portugueses, durante o período da “coelheira”.
Tenho dúvidas que Portugal e muito menos os Açores tenham ganho algo de significativo durante a vigência do acordo bilateral assinado há décadas entre Portugal e os Estados Unidos. A República conseguiu receber algum equipamento militar que, segundo as “má línguas” era ultrapassadíssimo/velho, aproveitando os americanos para encher a lixeira nacional. Para os Açores, o benefício traduziu-se em alguns empregos mal pagos, mas com acesso a compras no “piex”, casas alugadas localmente a preços de luxo, algum movimento em compras e restaurantes locais e pouquíssimo mais.
Deixaram problemas, aquando da sua “retirada” da Base, como aquele que levou anos a resolver, segundo consta ainda não totalmente solucionado, referente aos pipelines de transporte de combustíveis da orla marítima até à Base, que de velhos e enferrujados contaminaram, durante anos, os lençóis freáticos da zona da Praia da Vitória, quiçá influenciando a saúde de muitos.
O acordo permite aos Estados Unidos não pagaram impostos sobre os combustíveis que consomem (nem IVA, ISP ou impostos ambientais) o que é fácil assumir se traduz em milhões de euros, enquanto nós cidadãos residentes o fazemos e (imaginem), o próprio governo regional, a quase totalidade das empresas públicas, a proteção civil, os bombeiros (ao que consta são os únicos que podem solicitar isenção) e outras entidades cumprem com estas obrigações. Mesmo que o combustível seja adquirido a preço baixo e a granel, o seu consumo é em território nacional!
Só um exemplo, “brincando com os números”, para se avaliar a grandeza de valores. Cada avião do tipo abastecedor, versão KC-45 (A330-MRTT) e numa única viagem, pode transportar cerca de 139 mil litros de jet-fuel, sem considerar a hipótese de utilizar tanques flexíveis extra (berdley thanks). Os efeitos poluentes deste combustível utilizado, normalmente num único voo de seis horas, é de 3350 toneladas de CO2.
As notícias diárias indicam que em média seis aviões fazem os seus movimentos para abastecer os F16. Hoje estará a perfazer 11 dias sobre o início destes movimentos. Serão consumidos, nos 66 voos, cerca de 10 milhões de litros de Jet fuel originando uma poluição de cerca de 221 mil toneladas de CO2. Multipliquem por quatro meses de guerra, previstos por Trump! São valores escandalosos!
O setor da aviação por legislação comunitária, onde se inclui a tecnicamente falida e regional Sata e os movimentos militares, não paga impostos como o IVA, o ISP ou a taxa de carbono, que no caso dos voos comerciais é satisfeito à custa de cada um dos passageiros (2 euros por bilhete).
Imagine-se os valores aqui envolvidos e que de modo nenhum se refletem positivamente no erário público regional, que de certo constituiria a alegria suprema para Bolieiro e Duarte Freitas, os quais deixariam de ter preocupações com o futuro conteúdo da lei das finanças regionais.
Aproveitando o referido, podemos assumir que a Azores Airlines e a Sata Air Açores consumiram cerca de 110 milhões de litros de jet fuel em 2023, o equivalente em poluição de aproximadamente 88 toneladas de CO2, beneficiando de isenção legal de pagamento dos impostos. Se se tivesse privatizado a empresa pública, o mui “famoso e benemérito” consórcio beneficiaria das mesmas isenções o que permitiria que a mochila (referida descaradamente por um dos seus elementos) estaria mais leve de responsabilidades, ficando quase vazia considerando o resto que propuseram.
Avé Sata, os que vão sofrer no futuro, pagando tudo com os seus impostos, te saúdam!
J. Rosa Nunes
Prof. Doutor