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O silencioso rugido de Leão XIV

Na turbulência política, social e espiritual do século XX, o pontificado de Pio XI (1922 -1939) destacou-se por uma consciência crítica que interpelava tanto os sistemas económicos quanto os regimes totalitários. Nas encíclicas Quadragesimo Anno «Quadragésimo ano» e Non abbiamo bisogno «Não temos necessidade», em 1931, e Mit Brennender Sorge «Com Profunda Preocupação», em 1937, encontramos reflexões que vão além da moral imediata, tocando a essência da dignidade humana e da transcendência. A encíclica Quadragesimo Anno denuncia a concentração de riqueza e a absolutização do capital, mostrando que quando o lucro se torna fim em si mesmo e o trabalho é um mero instrumento, o homem perde centralidade. Esta encíclica também alerta contra o socialismo que dissolve a pessoa na massa coletiva. Pio XI afirmava, então, que qualquer sistema político que se fecha sobre si, esquecendo a transcendência humana, ameaça a liberdade. O Papa sugeria que cada pessoa deveria agir, cooperar e assumir responsabilidades sem ser esmagada pelo Estado ou pelo Mercado. Non abbiamo bisogno reforça a crítica aos totalitarismos e ataca o fascismo italiano. Pio XI denuncia a tentativa do regime fascista de subordinar a educação, a moral e a vida religiosa ao Estado. Dirigido ao povo e à Igreja, o documento provocou represálias de Benito Mussolini, que restringiu a ação da imprensa católica e pressionou clérigos e fieis, tentando intimidar a hierarquia e reduzir a influência da Igreja. Non abbiamo bisogno lembra que a Fé e a liberdade não podem ceder ao poder político e que nenhum sistema humano deve substituir Deus. Seis anos depois, Mit Brennender Sorge, encíclica publicada em 14 de março de 1937, redigida em alemão, a primeira crítica oficial ao nazismo feita por um chefe de Estado, contém um ataque a Adolf Hitler, referindo-o como «profeta louco de arrogância repulsiva». É um dos dois únicos documentos da Santa Sé escritos em língua diferente do latim ou grego, para atingir diretamente o coração cultural do regime nazi. Por ordem de Pio XI, esta encíclica foi lida no domingo de Ramos desse ano em todas as igrejas alemãs. Desta forma, a Igreja não encontrou qualquer embaraço em denunciar a ideologia racista do nacional-socialismo e a divinização do Estado. Nesse texto, Pio XI reafirma que a Fé cristã e a consciência moral não podem ser usadas como instrumentos de qualquer poder humano. Ao recordar que a dignidade da pessoa humana existe antes e acima de qualquer sistema político, o Papa condenava a inversão moral do nazismo, a sua ideologia racista e pagã. Pio XI alegou «direitos humanos inalienáveis dados por Deus» e invocou uma «natureza humana» que passa por cima de barreiras nacionais e raciais. No documento, Pio XI advertia. «Todo aquele que tome a raça, o povo ou o Estado (…) e os divinize num culto idolátrico perverte e falsifica a ordem criada e imposta por Deus». O Papa condenava o que chamou de «mito de sangue e solo», afirmando que o catolicismo é incompatível com a exaltação de uma determinada raça sobre as demais. Foi essa inversão que, por subverter a dignidade humana, levou Pio XI a denunciar, com clareza, a ideologia do nacional-socialismo, como «incompatível com a Fé e com a própria humanidade». O fio que une essas encíclicas denuncia que a história torna-se desumana quando o homem abdica da transcendência, confiando o absoluto ao Estado, ao Mercado ou a qualquer raça ou Ideologia. Assim como a Igreja não oferece sistemas prontos, mas critérios, a economia deve servir a pessoa e a política deve respeitar limites. Pio XI defendia que as comunidades só florescem quando reconhecem que a liberdade, a justiça e a verdade não podem ser sacrificadas em prol do medo ou da eficiência, porque elas são o fundamento que transcende a Humanidade. Estas três encíclicas permanecem atuais. Lembram que idolatrias económicas ou ideológicas corrompem a vida humana e que nenhuma construção terrena substitui a presença de Deus. Entre o Mercado idolatrado, o Estado divinizado e ideologias absolutas, Pio XI convida-nos a refletir sobre os limites dos poderes que nos cercam e sobre o espaço da vida humana consagrado ao transcendente, à dignidade e à liberdade de cada ser humano.
Num momento, em que os ideais de extrema-direita lançam de novo terror sobre a humanidade, Leão XIV, na Exortação Apostólica Dilexi te, «Eu amo-te», de outubro de 2025, insiste que a experiência do amor não pode ficar no plano interior, devendo traduzir-se em compaixão concreta, sobretudo pelos pobres, pelos excluídos e pelos que sofrem. O Papa demonstra estar mais preocupado com os pobres do que com as políticas que, sustentadas pelo capitalismo e pelo recrudescimento da ideologia nazi, geram pobreza. Leão XIV limitou-se, numa missa na Praça de São Pedro, a pedir ao Espírito Santo «o dom da paz» e que «derrube as barreiras e derrube os muros da indiferença e do ódio».
Quando a humanidade precisa da voz de um homem com a coragem, cultura, sabedoria e Fé de Pio XI, a Igreja encontra-se sob o magistério de Leão XIV, cuja palavra ganharia maior densidade pastoral se assumida na forma clara e vinculativa de uma encíclica, do que cingida a apelos genéricos à ação do Espírito Santo, sempre necessária, mas insuficiente. O momento histórico exige um pronunciamento doutrinal, inequívoco, capaz de condenar veementemente os avanços e projetos políticos que atentam contra a dignidade humana, a justiça social e a fraternidade cristã. A tradição da Igreja mostra que a oração não dispensa a responsabilidade profética. Assim, invocar o Espírito Santo implica também tornar-se instrumento da sua voz na história. É fundamental que o atual Papa ponha a circular uma encíclica que nomeie e condene, com precisão moral, as derivas autoritárias que, no nosso tempo, excluem, segregam e marginalizam. Já tarda uma carta pastoral que, mais do que um gesto político, mostre que a Igreja serve a verdade, a paz e a proteção dos fiéis, dando importante testemunho de que o Evangelho não se acomoda às forças que negam a humanidade do outro. Em vez disso, a Igreja tem em seu trono um Leão incapaz de denunciar e de nomear os agentes da ferocidade que alastra pelo mundo, como fez o seu antecessor Pio XI, humanista e corajoso homem de Fé. Um verdadeiro apóstolo de Cristo.

Henrique Levy *
* Poeta e ficcionista

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