Há alturas na vida política em que não é preciso muito para perceber que algo mudou no ambiente. Não é uma evidência clara, não é um facto isolado, é mais uma sensação que se vai instalando devagar. Uma espécie de cheiro no ar que não se consegue ignorar.
Cheira-me que estamos precisamente numa dessas fases.
Convém começar por colocar as coisas no seu devido lugar. Na maioria das situações não estamos perante uma crise. Estamos perante um tempo de aperto. E tempos de aperto fazem parte da vida das sociedades e dos governos. Exigem prudência, escolhas difíceis e, sobretudo, capacidade para definir prioridades.
É natural que exista algum desgaste quando esse cenário se prolonga. Governa-se com menos margem, com mais pressão e com menos paciência por parte de quem observa de fora. Nada disso é surpreendente.
O que começa a tornar-se mais difícil de explicar é outra coisa.
Há problemas antigos que continuam exatamente onde sempre estiveram. Há questões estruturais que atravessam legislaturas e continuam à espera de soluções consistentes. Ao mesmo tempo, surgem novos desafios que se juntam aos antigos, como se o calendário político tivesse decidido acumular tarefas em vez de as resolver.
Nestas circunstâncias, a gestão torna-se ainda mais exigente. Definir prioridades, controlar despesas e evitar excessos não é apenas desejável, é obrigatório. Quem tem responsabilidades na gestão de recursos públicos sabe que cada decisão tem impacto e que o equilíbrio das contas não se faz apenas com discursos bem-intencionados.
Mas é precisamente aqui que começa a surgir aquela sensação difícil de explicar.
Fala-se muito de objetivos comuns, de responsabilidade coletiva e de gestão rigorosa. As palavras estão lá, repetem-se nas intervenções públicas, aparecem nos comunicados e nos debates. No entanto, ao mesmo tempo, começa a notar-se que alguns olhares já estão virados um pouco mais à frente.
Não para os problemas de hoje. Para o calendário de amanhã.
E quando isso acontece, começam também a aparecer pequenos sinais. Mudanças em alguns lugares, ajustes em determinadas posições, substituições aqui e ali em cargos de gestão ou de nomeação. Nada de muito dramático à primeira vista. Apenas movimentos discretos que, vistos em conjunto, parecem contar uma história.
E é aí que o tal cheiro volta a aparecer.
Cheira um pouco a uma pergunta silenciosa que parece andar na cabeça de alguns protagonistas: como é que faço para que as coisas corram mal sem que depois seja eu a pagar a conta nas próximas eleições?
É uma pergunta incómoda, claro. Mas às vezes as atitudes parecem caminhar nessa direção.
Também cheira, em certos momentos, a outra estratégia bem conhecida na política. A de criar uma certa distância em relação aos problemas que não estão a correr bem. Como quem diz, sem o dizer diretamente: isto não tem muito a ver comigo.
Descola-se aqui, reposiciona-se ali, muda-se o enquadramento e tenta-se passar a ideia de que determinadas decisões pertencem sempre a outro capítulo da história.
O problema é que os cidadãos têm uma capacidade curiosa de memória. Podem não acompanhar todos os detalhes da governação, mas reconhecem facilmente quando alguém tenta sair da fotografia antes de o retrato estar completo.
E quando essa sensação se instala, o debate político deixa de ser apenas sobre soluções e passa também a ser sobre confiança.
Porque governar em tempo de aperto exige mais do que habilidade política. Exige clareza nas prioridades, coerência nas decisões e coragem para assumir o que corre bem e o que corre menos bem.
Sem isso, o cheiro no ar continua. E quando a política começa a cheirar estranho, normalmente é porque alguém já começou a abrir a porta de saída.
Carlos Pinheiro