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Saúde (do) Pública(o) (60)

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Tema de Saúde da semana: lições da Época Gripal 2025/26

Os princípios da leges artis de saúde pública assentam na vigilância sistemática, na análise epidemiológica rigorosa e na aplicação de modelos estatísticos validados. Com base nos mesmos sabemos que a época gripal 2025/26 está a aproximar-se do seu termo natural, no hemisfério norte. Mas, este Inverno deixou uma marca indelével: um excesso de mortalidade significativo, particularmente em Portugal, onde se registaram mais de 2 600 óbitos acima do esperado, só até meados de Janeiro.
A vigilância da gripe baseia-se em múltiplos indicadores integrados, nos termos das normas da Organização Mundial de Saúde (OMS), do Centers for Disease Control and Prevention (CDC) e do European Centre for Disease Prevention and Control (ECDC):
– Nos Estados Unidos o último relatório FluView (do CDC) indica que a actividade gripal permanece elevada a nível nacional, mas em clara trajectória descendente. O subtipo A(H3N2) – dominante nesta época – continua a diminuir, enquanto o subtipo B ganha terreno. Estimativas cumulativas até ao momento dizem-nos que este ano tivemos pelo menos 26 milhões de casos, 340 mil hospitalizações e 21 mil óbitos. A taxa de hospitalização acumulada é a terceira mais elevada desde 2010-2011, com uma severidade classificada como moderada na população em geral, e elevada na pediátrica.
– Na Europa o último “European Respiratory Virus Surveillance Summary” (ERVISS) do ECDC confirma o recuo generalizado dos vírus respiratórios. A gripe encontra-se em diminuição na maioria dos países, com o vírus sincicial respiratório (VSR) também em fase descendente. O modelo EuroMOMO registou mortalidade elevada nas primeiras semanas de 2026, estando agora em declínio acentuado.
– Em Portugal a Direção-Geral da Saúde (DGS) e o Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge (INSA) reportam que a epidemia gripal já não é epidémica desde a semana 9 (23-27 de Fevereiro). A taxa de positividade laboratorial e o número de consultas por síndrome gripal desceram abaixo dos limiares epidémicos. A circulação viral reduziu-se de forma sustentada, após o pico precoce de Dezembro/Janeiro.
O excesso de mortalidade calcula-se através de modelos estatísticos robustos (método Farrington ou algoritmos EuroMOMO), que comparam o número observado de óbitos com o valor esperado, derivado de séries históricas (5-10 anos anteriores), ajustado por sazonalidade, tendências demográficas e factores externos.
Em Portugal, os dados do Sistema de Informação de Certificados de Óbito (SICO) e do INSA revelam um excesso significativo, desde o início de Dezembro de 2025:
– Até meados de janeiro de 2026, registaram-se mais de 2600 óbitos acima do esperado.
– O excesso atingiu 22% em alguns períodos críticos (Dezembro e primeira semana de Janeiro), atingindo todas as regiões da metrópole continental, e os grupos etários acima dos 45 anos, com maior impacto em idosos (>85 anos) e doentes com comorbilidades respiratórias e cardiovasculares.
Este excesso é atribuível à conjugação de três factores, conforme a análise da DGS:
(i) frio intenso,
(ii) epidemia gripal precoce e intensa (subtipo A com nova variante) e
(iii) envelhecimento populacional.
A análise científica desta temporada reforça 4 pilares de prevenção, em linha com as guidelines da OMS e do ECDC, a ter atenção na Época 2026/27:
1. Vacinação atempada e com elevada cobertura: A vacinação reduziu as hospitalizações em 30-50 % nos grupos elegíveis. É, pois, essencial antecipar a campanha para Outubro e conseguir ≥75% nos idosos e ≥60% nos profissionais de saúde.
2. Vigilância integrada e alerta precoce: Os sistemas sentinelas e o EuroMOMO permitiram detectar o pico com duas semanas de antecedência. É recomendado o reforço da integração de dados da qualidade do ar e das temperaturas extremas nos modelos preditovos.
3. Resiliência do Serviço Nacional de Saúde (SNS): O excesso de mortalidade evidenciou a necessidade de planos de contingência para as urgências e o reforço de camas de cuidados intermédios respiratórios.
4. Comunicação de risco e equidade: A população mais vulnerável (idosos, doentes crónicos) deve ser alvo de campanhas específicas antes do Outono.
Podemos, pois, dizer que a época gripal 2025-2026 termina com o balanço de um custo humano elevado, mensurável em mais de 2600 vidas perdidas em Portugal, até meados de Janeiro. Estes números não são apenas estatísticas – são o reflexo da vulnerabilidade sistémica perante a interacção entre vírus respiratórios, clima e demografia. Aplicando rigorosamente a leges artis da saúde pública, Portugal pode transformar esta experiência numa preparação mais robusta para 2026/27. A prevenção continua a ser a intervenção mais custo-efectiva e ética de que dispomos.
Quanto aos Açores a boa notícia é não ser notícia. É assim que se verifica a eficiência em Saúde Pública.

Homenagens da semana

Com base no balanço científico da época gripal 2025/26 e no papel central que desempenharam na vigilância, análise e preparação para futuras temporadas, destaco 2 profissionais, esta semana.
A Dr.ª Wenqing Zhang é uma das principais especialistas mundiais em vigilância e resposta a ameaças respiratórias globais. Desde Novembro de 2012 que lidera o “Global Influenza Programme” da OMS (actualmente integrado na Unidade de Ameaças Respiratórias Globais). Nessa qualidade coordena o “Global Influenza Surveillance and Response System” (GISRS) – rede que reúne mais de 150 laboratórios nacionais – e é responsável pela emissão anual das recomendações de composição das vacinas contra a gripe para o hemisfério norte e sul.
Médica, com formação avançada em epidemiologia e saúde pública, a Dr.ª Zhang tem liderado a expansão do programa para incluir outras ameaças respiratórias emergentes (MERS, novos coronavírus, vírus aviários e variantes de gripe). Durante a pandemia da COVID-19, desempenhou um papel de pivot na adaptação do GISRS para apoiar a vigilância genómica global e a preparação para novas variantes. Em 2026 coordenou a divulgação da composição recomendada para as vacinas da época 2026/27, incorporando as novas subclades de A(H3N2) que dominaram a temporada actual.
Lider reconhecida internacionalmente, é capaz de transformar sistemas de vigilância sazonal em ferramentas de preparação pandémica.
Já o Dr. Timothy M. Uyeki é uma autoridade mundial em epidemiologia clínica da gripe e na resposta a emergências respiratórias. Médico epidemiologista no CDC desde 1998, ocupa desde há vários anos o cargo de Chief Medical Officer da Influenza Division. A sua carreira concentra-se na investigação clínica, na prevenção e controlo da gripe sazonal e pandémica, tanto nos EUA como a nível internacional. É responsável pela orientação clínica sobre tratamento antiviral, hospitalização e prevenção em grupos de risco, tendo liderado a avaliação da gravidade da época gripal 2025/26, com destaque para o impacto em crianças e idosos. Participou activamente nas respostas a pandemias anteriores (H1N1 2009, H5N1, H7N9) e integrou a equipa clínica do CDC na resposta ao Ébola em 2014-2016.
O seu trabalho combina rigor científico, com equidade e protecção dos mais vulneráveis, o que o torna uma figura central na redução da mortalidade associada à gripe a nível mundial.
Estas duas figuras exemplificam o compromisso silencioso mas essencial da saúde pública: transformar dados em acção, antecipar ameaças e proteger vidas.

Mário Freitas*
* Coordenador Regional de Saúde Pública

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