A Carlos Alberto Machado e a Urbano Bettencourt
No aniversário do nascimento de Raul Brandão, em 1867.
Decidiu a Direcção Regional de Cultura assinalar no corrente ano 2026 o centenário da primeira edição de As Ilhas Desconhecidas. Notas e paisagens, instruindo as suas instituições para que desenvolvam acções relevantes, e apoiando outras iniciativas com o mesmo fim, incluindo, ao que creio saber, uma da Universidade dos Açores. Se outros motivos não tivesse (e eu tenho todos, enquanto autor de Raul Brandão e os Açores. Motivo, edição e recepção de «As Ilhas Desconhecidas. Notas e paisagens», de 1927 — repare na data — e seguramente o mais activo agente na contínua campanha de arqueologia literária da vida e obra do escritor, com mais de 50 artigos publicados desde 2017, quando saiu Cinzento e Dourado, de 460 pp., pela Imprensa Nacional), essa celebração, com o previsível impacto na difusão do livro e com o incremento do debate acerca do seu valor para os Açorianos um século depois, face a toda a literatura de viagens que o arquipélago inspirou à época e desde então, não podia ser mais do meu agrado e a ela corresponderei sempre — pro bono — quando solicitado, seja onde e por quem for.
Todavia, jamais poderei deixar de ressaltar o equívoco sobre a verdadeira data da publicação, sobretudo porque cometido por um departamento da administração regional que julgaríamos capacitado para avaliar bem, para decidir melhor, e que outro não é — afinal — que aquele que em 2018 me concedeu uma bolsa de investigação que resultou no único livro sobre o tema e que fixa inequivocamente 1927 como data deste livro de Brandão.
Por lamentável e bizarro que pareça, é de concluir que Raul Brandão e os Açores não foi lido pelos recentes decisores da DRAC — em especial por Sandra Garcia, sua directora até Novembro de 2025 e, nessa posição (não quero nem consigo escrever qualidade), sua responsável máxima, também por esta iniciativa comemorativa. Limitaram-se a seguir — com uma ligeireza incompatível com o serviço público — uma falsidade estabelecida (e muito difundida, bem sei), como aqueloutra, repetida ad nauseam, de o autor de Húmus ter viajado na comitiva dos Continentais em visita aos Açores, em Maio de 1924.
Cargo dessa responsabilidade não pode ser ocupado senão por pessoa de inatacável gabarito intelectual e robusto estofo cultural, que o prestigie e sobretudo o leve mais além, como os Açores bem precisam e mais merecem. Seja qual for o partido ou coligação de partidos no governo regional.
Em toda a p. 57 de Raul Brandão e os Açores está o facsímile do artigo de Vitorino Nemésio no Diário de Lisboa de 14 de Maio de 1927 (transcrito páginas adiante, pp. 102-8), primeiríssima leitura do livro de Raul Brandão, aliás de uma parte dele, ainda apenas alguns cadernos de impressão sem brochura, que a especial amizade e sobretudo a enorme curiosidade do terceirense conseguiu obter. Se As Ilhas Desconhecidas tivesse sido impresso em 1926, como compreender — ora essa, ninguém jamais o compreenderá! — que Nemésio sobre ele escrevesse, e dessa maneira, praticamente 150 dias já entrados no ano seguinte?… Ou como admitir que a demais recepção crítica, na imprensa açoriana, madeirense e continental — que no meu livro ficou transcrita, e outra que tal encontrei e difundi desde então — tenha ocorrido semanas ou meses depois, sempre em 1927?
No livro de 2019, junto ao facsímile do artigo de Nemésio, escrevi que se tratava de «uma das muitas provas irrefutáveis de que As Ilhas Desconhecidas saiu em 1927 e não em 1926, como tantas vezes ficou escrito». Uma dessas provas foi dada pelo jornal Portugal, Açores e Madeira que a 21 de Maio de 1927, p. 2, pôs a preto de tinta no branco do papel: «Acaba de sair um livro notável sobre os Açores, pois que o subscreve um dos mais notáveis escritores portugueses — Raul Brandão» (Raul Brandão e os Açores, p. 110). Muitas e irrefutáveis provas a que junto ainda, aqui e agora e pela primeira vez, a carta de 3 de Abril de 1927 a Raul Proença (BNP, E7/331), em que Brandão explica os motivos da demora na impressão do seu livro. Para os menos familiarizados na arte da impressão, aviso que a expressão impresso significa na realidade composto em tipos móveis, de limitado reportório. Caracteres esses deitados à caixa, como ele diz, para permitir a composição de outros trabalhos, no caso dois periódicos da casa Aillaud & Bertrand. A impressão de As Ilhas Desconhecidas foi, de facto, um tanto perturbada pela renovação em curso do parque gráfico da empresa editorial e gráfica que o contratou, algo que todavia se resolveu em poucas semanas, entre a carta a Proença e o artigo de Nemésio.
Menos fácil de resolver parece ser a qualificação necessária para cargos políticos de orientação e estratégia cultural. O nivelar do baixo não leva nada nem ninguém a lado algum. Tão simples como isso. Um pequeno esforço, açorianos-portugueses!!
Vasco Rosa
Carta de Raul Brandão a Raul Proença
Querido amigo
Estive perto de quarenta dias no norte, e só agora recebi a sua carta — que me entregaram aberta na livraria Bertrand.
Cuido que é impossível conseguir qualquer coisa nesta casa. Imagine que o meu livro As Ilhas, impresso como sabe, esteve ameaçado de ser deitado à caixa, para só ser impresso no inverno. Creio que até chegarem as máquinas e o tipo que encomendaram, não imprimirão nenhum livro, a não ser os que têm entre mãos. Foi a Ilustração, foi o Magazine que estragaram tudo. No entanto verei…
Estimo que seja feliz e que tenha saúde. Sei que está com os seus e isso já é uma felicidade. Lembre-se sempre de mim e de que estou às suas ordens. Por estes dias vou ver se lhe arranjo outra coisa, já que não consigo as traduções.
Um abraço com a maior admiração e amizade do
Raul Brandão
3 de Abril 1927
Vasco Rosa