A guerra contra o Irão, não é pela democracia, nem contra a sua ameaça nuclear. Além de servir de poeira sangrenta e destrutiva para encobrir as várias debilidades humanas e de saúde mental de que é portador o mais poderoso chefe político mundial, esta guerra é, como outras onde os EUA já estiveram envolvidos, fundamentalmente pelo petróleo e pelas matérias-primas alheios.
Trump, além da suprema gabarolice, é mentiroso compulsivo, paranoico, sádico, obcecado pelo ego e pela humilhação do outro, psicopatologias que com a idade e o poder pioram perigosamente constituindo um risco óbvio e real para o mundo. Mas se não estivesse ao serviço de outros valores mais altos e sistémicos (que também nada têm a ver com democracia ou direitos humanos) a quem essas patologias estão sendo úteis (ou melhor, “rentáveis” neste caso), certamente já não estaria no lugar onde está.
A Galp registou um resultado líquido recorde de 1154 mil milhões de euros em 2025, um aumento de 20% face ao ano anterior.
Se a guerra é pelo petróleo e as grandes petrolíferas lucram fortunas contínuas com ele, porque é que essas mesmas petrolíferas se escusam de pagar a guerra, remetendo o seu ónus para os mesmos de sempre? Porque é que os lucros da Galp não contribuem pelo menos para travar o enorme aumento do preço dos combustíveis que já está aí e não se sabe onde vai chegar?
Mas o preço da guerra não se resume ao combustível. Ele vai atingir também a energia em geral. E, na mesma lógica da submissão do poder aos tais “valores mais altos e sistémicos” pretende-se que sejam novamente os mesmos a pagá-lo. O governo açoriano já está a tratar disso, recusando-se a ouvir a opinião dos trabalhadores da SEGMA e da GLOBAL EDA, tornada pública há dias às portas do Palácio de Sant’Ana, contrária à sua intenção de privatizar, em nome de interesses mal explicados, estas duas empresas rentáveis e atualmente afetas ao setor público. Imaginamos sem dificuldade que os seus futuros donos em nada se dispõem a contribuir para travar os aumentos nesta área, já que tanto mais beneficiarão com esse negócio quanto mais sobrecarga para os consumidores lhes for destinada em consequência do acréscimo do custo da energia resultante desta guerra.
Não bastando vivermos já no país europeu onde é mais incomportável o custo da habitação, igualmente se anuncia que esta guerra cruel e insana pelo petróleo alheio também virá, neste setor, a agravar esses custos essenciais para uma vida humana condigna, já neste momento negada a tantos portugueses, contra um direito expressamente consagrado na cinquentenária Constituição da República Portuguesa.
Ora os cinco principais bancos a operar em Portugal (80% do setor) tiveram lucros superiores a 5 mil milhões de euros em 2025, ano em que o BCP, o Novo Banco e a CGD registaram os maiores resultados das suas histórias, representando lucros líquidos de mais de 14 milhões de euros por dia.
Pelo que passam já, e se agravarão devido a esta guerra, as dificuldades para o acesso à habitação de muitas famílias devido aos baixos salários e pensões ou à pequena dimensão de muitas empresas, acentuando mais e mais as desigualdades no nosso país, estes resultados da banca deveriam justamente responsabilizá-la por um significativo contributo para a diminuição dessas desigualdades, nomeadamente na facilitação do acesso à habitação.
Mas alguém acredita que, fora do controlo do poder democrático do Estado, como professam os direitistas e os neoliberais atualmente no poder, os “valores mais altos e sistémicos”, considerarão isso alguma obrigação elementar?
Mário Abrantes